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Assembleia Popular 09.10.13 foto de Leila Hol

 

Por Samuel Victor

Ao final das tardes de quarta-feira já é comum encontrar nas escadarias da Câmara Municipal do Rio de Janeiro os integrantes da Assembleia Popular da Cinelândia. A aparente normalidade do ato se desmente nos passos desacelerados dos transeuntes que vem ou vão do trabalho, e nos olhares curiosos sobre as pessoas nas escadarias e sobre a insistente faixa negra que chama à reunião que deve começar logo mais às 19hs no centro da praça.

A Assembleia Popular da Cinelândia surgiu como resposta à desocupação do Ocupa Câmara e à prisão de 70 ativistas, no dia 15 de outubro do ano passado, num ato bárbaro da polícia militar e do governo do estado em que detiveram 200 pessoas e destruíram toda a estrutura da ocupação, pondo fim à resistência que durava mais de 2 meses. Após se recuperarem do ocorrido, os ativistas se reorganizaram e decidiram continuar com as reuniões que já realizavam na ocupação, mas agora sob o formato da Assembleia Popular da Cinelândia. Continuariam, assim, ocupando a Cinelândia, fazendo frente à política corrupta e autoritária com a política combativa, horizontal e popular. Mas também criariam, sem deixar de lado a atividade política, uma forma de se proteger que consistiria na própria organização da assembleia.

Nas noites de quarta, militantes de diversos coletivos ou independentes, indivíduos de diferentes ideologias se reúnem na praça para discutir problemas e ações políticas na cidade. A assembleia não é um coletivo, nem espaço próprio de um coletivo. Sua forma fluida e descentralizada garante em certa medida a segurança dos ativistas das garras do Estado que a todo o momento tenta criminalizar o movimento das ruas e criar falsas acusações de organização criminosa. Se perguntar a algum integrante mais ativo nas reuniões sobre a organização da assembleia, ele te responderá que ela nasce toda quarta à noite e se dissolve ao final da mesma noite. As reuniões se dividem normalmente em três partes: informes, propostas e deliberações. Elas seguem sem liderança, sem hierarquia, com regras decididas pelo conjunto dos participantes da assembleia. O espaço é aberto e preza pelo empoderamento popular, podendo, inicialmente, qualquer um trazer propostas para ser abraçada ou não pelo consenso daqueles presentes no dia. Algumas reuniões podem até mesmo ser temáticas.

Nessa linha de ação a Assembleia Popular construiu suas lutas desde a desocupação do Ocupa Câmara. Como não poderia deixar de ser, os temas principais dos encontros no início foram a criminalização dos movimentos sociais e a luta pelo direito ao transporte. A assembleia apoiou a construção de atos, além de servir de espaço para debates. O transporte público acabou por ser um ponto forte nos encontros iniciais, inclusive com a organização conjunta com o MPL do Rio e de Niterói do 1º Ato Contra o Aumento da Passagem, no final de 2013.

Desde então a assembleia participou em diversas lutas, como a dos atos contra a Copa, pela libertação de Rafael Braga Vieira e contra a farsa eleitoral. Hoje os lutadores sociais que resistem na Cinelândia têm dedicado seus esforços também na luta por justiça no caso da morte da Ana Carolina, jovem que morreu vitimada pelo descaso no atendimento da UNIMED quando sofria uma crise de apendicite, esperando 24h para ser atendida. A luta é por justiça para a família de Ana Carolina e de denúncia das relações corruptas na saúde que vitimam a população.

A Assembleia Popular da Cinelândia continua resistindo contra a tirania do Estado.

*Esse relato foi construído a partir de considerações de alguns ativistas que participam atualmente da Assembleia Popular da Cinelândia e dos documentos que podem ser visualizados no grupo da assembleia no Facebook. Sendo assim ele não representa posição geral da Assembleia Popular, mesmo que tenha sido consenso a permissão para que o relato fosse escrito pelo autor do mesmo, que decidiu pedir permissão para fazê-lo.

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