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Fonte: Literatura Anarquista

Isso foi por volta de 1890, quando o movimento anarquista na América ainda estava em sua infância. Até então contávamos com apenas meia-dúzia de jovens ardendo de entusiasmos por um sublime ideal,  disseminando apaixonadamente a boa nova entre a população de New York Ghetto. Nossas reuniões eram realizadas num obscuro salão na Orchard Street, mas considerávamos aqueles esforços altamente bem-sucedidos . Toda semana compareciam às reuniões um número cada vez maior de pessoas, manifestando um profundo interesse nos ensinamentos revolucionários, e ali eram debatidas noite adentro as questões mais vitais  com profunda convicção e visão jovial. Para muitos de nós, parecia que o capitalismo havia alcançado os limites de suas possibilidades demoníacas e a Revolução Social não poderia estar muito distante. Mas havia também um grande número de questões  e problemas intricados e difíceis de resolver envolvidos no crescimento do movimento, os quais já não conseguíamos resolver satisfatoriamente sozinhos. Desejávamos que nosso grande professor Kropotkin estivesse entre nós, ao menos por uma breve visita, a fim de esclarecer alguns pontos mais complexos e assim tirarmos proveito de sua inspiração e apoio intelectual. E então, quanto estímulo sua presença atrairia para o movimento!

Decidimos reduzir os custos de vida ao mínimo e devotar todos os ganhos para custear as despesas que envolviam o convite  de Kropotkin a uma viagem ao redor da América. O assunto foi debatido entusiasticamente nas reuniões do grupo pelos mais ativos e devotados camaradas; todos eram unânimes no grande plano. Uma longa carta foi enviada, convidando nosso professor a participar de um circuito de conferências na América, enfatizando a necessidade de sua presença.

Sua resposta negativa deu-nos um choque: tão certos que estávamos de sua aceitação, tão convencidos da necessidade de sua visita. Mas a admiração que sentíamos por ele apenas cresceu quando ouvimos as razões de sua recusa. Ele desejaria muito poder nos visitar– escreveu Kropotkin – e apreciava profundamente o espírito de nosso convite. Esperava visitar os Estados Unidos algum dia no futuro e sentiria grande prazer em estar junto à tão bons camaradas. Mas naquele momento, não poderia custear sua vinda por conta própria e não usaria o dinheiro do movimento para tal propósito.

Eu ponderei sobre suas palavras. Seu ponto de vista era justo, eu pensava, mas se aplicava apenas a circunstâncias ordinárias. Seu caso, no entanto, eu considerava excepcional, e lamentava profundamente a sua decisão de não vir. Mas para mim, suas razões simbolizavam a humanidade e a grandeza de sua natureza. Eu o imaginava como o ideal do revolucionário anarquista.

Anos depois, enquanto estava na Western Penitentiary of Pensylvania, a esperança de encontrar nosso Velho e Grande Kropotkin iluminou as trevas de minha cela alguns instantes. Amigos me notificaram que Peter havia chegado ao Estados Unidos pelo Canadá, onde havia participado de certo congresso de cientistas. Fui informado que Peter pretendia me fazer uma visita, e então passei a contar os dias e as horas aguardando  sua tão esperada vinda. Mas, ai!, a sorte concorria contra o encontro com meu professor e camarada. Ao invés de ser chamado para ter com meu querido visitante, fui solicitado pelo gabinete do Guarda*. Suas mãos seguravam uma carta na qual reconheci a nítida e pequena assinatura de Peter. Sobre o envelope, após o meu nome, Kropotkin havia escrito “Prisioneiro Político”.

O Guarda ficou furioso. “Não existem prisioneiros políticos em nosso país livre!”, ele rugiu. E de repente rasgou o envelope em pedaços. Eu enlouqueci com tal profanação. E pronunciei em seguida um caloroso argumento sobre a liberdade americana, no decurso do qual acabei chamando o Guarda de mentiroso. Ele considerou o fato como lesa majestade e exigiu que eu lhe pedisse desculpas. Recusei. O resultado foi que ao invés de encontrar Peter, fui sentenciado a 7 dias de solitária, numa cela de dois por quatro pés, absolutamente escura, 15 pés abaixo da terra, tendo uma mísera fatia de pão como ração diária.

Isso foi por volta do ano de 1895. Nos anos seguintes, Peter Kropotkin visitou a América repetidas vezes, mas nunca tive a oportunidade de vê-lo, sobretudo porque cumpria pena, na qual por dez anos fui privado de visitas e não me sendo permitido ver quem quer que seja. Um quarto de século teve de se passar antes que eu pudesse tomar as mãos da minha companheira entre as minhas. Foi na Rússia, em março de 1920 que me encontrei com Kropotkin pela primeira vez. Ele residia em Dmitrov, uma cidadezinha à 60 verats de Moscou. Eu me encontrava então em Petrogrado (Leningrado), e as condições da ferrovia eram tais que viajar do Norte à Dmitrov estava fora de cogitação. Depois, tive oportunidade de visitar Moscou, onde fiquei sabendo que o Governo havia arranjado uma visita para o editor do London Daily Herald, George Lansbury e um de seus colaboradores à Kropotkin em Dmitrov. Juntamente aos camaradas A. Schapiro e Emma Goldman, tirei proveito da situação.

O encontro com “celebridades” é geralmente desapontador: raramente a realidade bate com a figura de nossa imaginação. Mas no caso de Kropotkin não foi assim; ambos fisicamente e espiritualmente ele correspondia quase  exatamente ao retrato mental que eu possuía dele. Aparentava notoriedade como em sua fotografia, com seu olhar amável, seu sorriso doce e sua barba farta. Cada vez que Kropotkin adentrava a sala, parecia iluminá-la com sua presença. Sua marca de idealista era tão impressionante que a espiritualidade de sua personalidade podia quase ser sentida. Mas chocava-me a visão de seu definhamento e debilitamento.

Kropotkin recebia a merenda acadêmica, consideravelmente superior à ração destinada aos cidadãos comuns. Mas longe do suficiente para manter-se vivo era uma verdadeira batalha para afugentar o lobo da fome porta afora. Questões de gasolina e iluminação também eram matéria de agitação constante. Os invernos eram severos e a madeira muito escassa; querosene difícil de conseguir, e era considerado luxúria queimar mais do que uma lamparina por casa. Esta carência era particularmente sentida por Kropotkin; e gravemente interferiu em seu labor literário.

A família de Kropotkin foi desalojada de sua residência em Moscou diversas vezes, pois as dependências eram requisitadas [sic] a fins governamentais. Foi então que se decidiram mudar para Dmitrov. Ficava apenas à meia centena de verats da capital, se bem que poderia distar mil milhas, tamanho  o isolamento em que vivia Kropotkin. Seus amigos raramente podiam visitá-lo; notícias do mundo Ocidental, trabalhos científicos, ou publicações estrangeiras eram inalcançáveis. Naturalmente, Kropotkin sentia profundamente a falta de companhia intelectual e relaxamento mental.

Eu estava ansioso para me instruir acerca de suas perspectivas sobre a situação da Rússia, mas logo entendi que Peter não se sentia livre para se expressar na presença dos visitantes ingleses. A conversação, portanto, foi de caráter geral. Mas uma de suas observações foi muito significativa e me deu a chave de sua atitude. “Eles mostraram”, disse ele se referindo aos Bolcheviques, “como a Revolução não deve ser feita”. Eu sabia, naturalmente, que enquanto anarquista, Kropotkin não aceitaria nenhuma posição de Governo, mas queria saber o porque dele não participar da reconstrução econômica da Rússia. Apesar de velho e fraco fisicamente, suas sugestões e conselhos poderiam ser muito úteis à Revolução, e sua influência de grande vantagem e encorajamento para o movimento anarquista. Acima de tudo, eu tinha interesse em escutar suas idéias positivas sobre a conduta da Revolução. Pois o que tinha ouvido até então da oposição revolucionária, em sua maioria, eram apenas críticas, carecendo da útil construtividade.

Aquela manhã se passou numa conversa desconexa sobre as atividades no front, sobre o crime do bloco aliado em recusar remédios aos doentes e a disseminação de doenças como resultado das condições insalubres e da escassez de alimentos. Kropotkin aparentava cansaço, parecia exausto pela mera presença dos visitantes. Estava velho e fraco; e eu temia que, sob tais condições, não conseguisse viver por muito mais tempo. Estava claramente subnutrido, embora tenha dito que os anarquistas da Ucrânia tentavam tornar sua vida mais fácil, enviando suprimentos de farinha e outros produtos. Quando Makhno ainda mantinha relação amigável com os Bolcheviques, também se habilitou a enviar provisões. Para Peter não se cansar tanto, o deixamos a sós mais cedo.

Alguns meses depois, tive outra chance de visitar nosso velho camarada. Era verão e Peter parecia ter rejuvenescido com a ressurreição da Natureza. Parecia mais jovem, com boa saúde e cheio de espírito de juventude. Sem a presença de estranhos, como o jornalista inglês, ele se sentia em casa, e conversávamos livremente sobre as condições russas e sobre suas atitudes e perspectivas para o futuro. Era o genial e Velho Peter novamente, com um refinado senso de humor, afiadas observações e a mais generosa humanidade. Em primeiro momento ele repreendeu-me pela postura anti-Guerra, mas rapidamente mudou o assunto para canais menos periculosos. A Rússia era o nosso principal ponto de discussão. As condições eram terríveis, como todos concordavam, e a Ditadura era o maior dos crimes Bolcheviques. Mas não havia razão para perder a fé, ele me assegurava. A Revolução e as massas são maiores do que qualquer Partido político e suas maquinações. Este último poderia triunfar temporariamente, mas o coração das massas russas era incorruptível e chegaria por si mesma ao claro entendimento do mal da Ditadura e da tirania Bolchevique. A atual vida russa, dizia ele, é uma condição artificial forçada pela classe governante. O governo de um pequeno Partido, assentado sobre falsas teorias, métodos violentos, erros medonhos e ineficácia geral. Eles estavam suprimindo a expressão da vontade e iniciativa do povo, que sozinhas bastariam para reconstruir a arruinada vida econômica do país. A estúpida atitude dos Poderes Aliados, o bloqueio e os ataques à Revolução pelos intervencionistas ajudavam a reforçar o poder do regime Comunista. Mas as coisas mudariam quando as massas despertassem para a compreensão de que ninguém, nenhum Partido político ou grupelho governamental, deveria ter a permissão de, no futuro, monopolizar a Revolução, controlá-la, ou dirigi-la, pois tal intento resultaria inevitavelmente na morte da própria revolução.

Naquela ocasião, discutimos várias outras fases da Revolução. Kropotkin enfatizava particularmente o lado construtivo das revoluções, especialmente que a organização da vida econômica deveria ser tratada como a primeira e a maior necessidade de uma revolução, como fundamento de sua existência e de seu desenvolvimento. Este pensamento, ele quis imprimir mais forçosamente nos próprios camaradas, para que servisse de guia nas grandes batalhas vindouras do proletariado internacional.

Minhas visitas a nosso querido Peter foram um  enorme prazer intelectual e espiritual . Eu estava de partida da Ucrânia em direção a uma longa viagem em prol do Museu da Revolução de Petrogrado, mas ainda esperava muitas outras visitas a nosso velho e bravo professor de coração e cérebro tão maravilhosos. Não era para ser. Ele morreu alguns meses depois, em 8 de fevereiro de 1921. Só pude alcançar seu leito de morte a tempo de dizer meu último adeus. Um grande Homem, um grande anarquista havia partido.

Nota do Editor: 

* O Guarda (The Warden) é o governador da prisão e seu ditador absoluto.

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This manuscript is part of the International Institute of Social History’s Alexander Berkman Archive and appears in Anarchy Archives with IISH’s permission.

Atualizado: 03/07/2011

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