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[Versão Sem Cortes do texto originalmente publicado no Farrazine #18]

Fonte: Nerdevils

King Mob coloca seu capacete/chapéu absurdamente estranho e estiloso – de origem desconhecida e mística – e parte para invadir uma instituição educacional que nada mais é do que um centro de doutrinações e lavagens cerebrais. Lá dentro está um adolescente problemático e desbocado que pode ser o integrante que faltava para o grupo secreto de KM cumprir seu objetivo de livrar o mundo de vilões transdimensionais que desejam o poder absoluto. Antes disso, King Mob invoca John Lennon para pedir uns conselhos, num dos momentos mais psicodélicos dos quadrinhos. No caminho, ele combate um ser que transfere sua consciência para insetos e abandona o Jovem Escolhido para ser iniciado pela sabedoria urbana… tudo fluindo numa velocidade insana.

Quando perguntado, em 1994, qual seria o tema de Os Invisíveis, Grant Morrison respondeu com um simples Tudo! Não é uma definição exagerada ou por demais pretensiosa, mas é unicamente o autor dizendo que não estava preso a amarras estéticas ou narrativas, que permitiu-se viajar sem medo da liberdade. E ele fez questão de realmente incluir tudo que passava na cabeça dele dentro da obra, um exemplo de pós-modernismo balanceado e acelerado, algo como um livro de Thomas Pynchon com quadrinhos. De forma bastante consciente, Os Invisíveis é uma espécie de tratado de Morrison sobre como ele imagina o mundo, recheado de metáforas e elementos metafísicos, além de ser carregado de religiões pouco convencionais. No intercurso de sua luta contra os Arcontes – os vilões da série -, a célula londrina dos Invisíveis viaja no tempo, convoca deuses aztecas, tem seus membros presos e torturados, troca idéia com loas do vodu… enfim, se furtam de todos os elementos a sua disposição para continuarem sua cruzada. Se não fosse o experimento da dúvida que Morrison suscitou ao dizer que a obra é uma mistura de experiências auto-biográficas com textos que ele recebeu de ETs quando foi abduzido em Katmandu, pode-se imaginar que se trata apenas de uma vasta maluquice caconarrativa intensa. Mas existe ali um método, uma forma de combate que muito aproxima a célula dos Invisíveis de teorias (anti)políticas modernas. Os Invisíveis são anti-heróis, da mesma forma que os anarquistas modernos são anti-políticos.

Por cerca de sete décadas o mundo político viu-se dividido entre duas correntes políticas que almejavam o poder total. De um lado o Capitalismo neoliberal e consumista e do outro a ditadura estratificada do Comunismo. Tal tipo de dicotomia naturalmente reduziu qualquer outra força política a quase nada, se valendo dessa briga dualista para suprimir qualquer tipo de pensamento político anti-tudo, uma forma natural de oposição, de um terceiro elemento de escolha anti-maniqueista. Se os EUA e a URSS tivessem dado as mãos, poderiam dominar o mundo por mais um século, provavelmente, mas a ânsia deles pela dominação total acabou numa guerra sem precedentes, sanguinária e multitrilionária – ainda que tenha entrado pra história com o rótulo de Fria. Após a explosão da União Soviética e do fim do Comunismo como experiência político-social válida, formas experimentais de organização puderam ser apreciadas. Essa realidade geopolítica do século XXI é um ambiente macrocaótico similar ao universo dos anarquistas de Os Invisíveis. Dentre os inúmeros ideólogos que desenvolveram qualquer sorte de teoria ou metodologia anarquista, um particularmente se alinha perfeitamente ao Tudo expresso por Morrison: Peter Lamborn Wilson, mais conhecido como Hakim Bey.

Hakim teve seus primeiros contatos com a filosofia anarquista por volta da década de 80, quando teve de sair às pressas do Irã após a explosão revolucionária islâmica. Hakim chegou ao Irã no início da década de 70, após conseguir um financiamento para estudar o Sufismo, a corrente mais mística e metafísica do Islã, que propõe um contato com Deus através de uma série de rituais extáticos e simbológicos – mais ou menos como a Kabbalah está para o Judaísmo. Nessa época, Bey tem contato com o desenvolvimento de René Guénon da teoria da Unidade Transcendente das Religiões, que defende que existe uma Verdade Metafísica Única, sendo as religiões apenas formas de linguagem para descrevê-la. Deus (um ser superior, exterior ou interior), o Homem (ser inferior ou em estado inferior), a Oração (método para se elevar o estado inferior do ser humano) e a Moralidade (código de conduta maleável) seriam pilares em comum de todas as religiões, embora Guénon encontre similaridades muito mais profundas até mesmo no antagonismo das religiões monoteístas do Ocidente e as mais livres do Oriente. Os estudos de Guénon e Frithjof Schuon, outro autor do que ficou conhecido como Filosofia Perene, apontam todas as religiões como possuidoras de correntes esotéricas, mais profundas, reflexivas e práticas; ao mesmo tempo que possui correntes mais dogmáticas, latentes e excessivamente formais. É possível encontrar muitas similaridades entre as três principais religiões abraâmicas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo -, ao mesmo tempo que é perfeitamente plausível liga-las com as primeiras tradições esotéricas gregas, formadas por Pitágoras, Platão e outros. Nos preceitos da corrente Sufista de Naqshbandiyyah, por exemplo, é possível encontrar diversas correlações com as técnicas do Yoga… Ter consciência da respiração, Viajar interiormente, O controle dos pensamentos, etc, que são compartilhadas inclusive pelas ordens mágicas mais conhecidas. Da mesma forma, encontram-se similaridades bastante marcantes entre as mais diversas mitologias do mundo, mesmo as desenvolvidas em paralelo; Deuses, trajetórias e formas de culto similares. Então, o Caos religioso, possuiria uma tênue linha de Ordem expressa e harmônica em suas instâncias mais superioras.

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Hakim Bey

Hakim Bey faz estudos similares na política, traçando paralelos entre os diferentes movimentos de levante e de dissidência social, o que muito contribuiu para o desenvolvimento das bases do Anarquismo Ontológico, que provavelmente fez Grant Morrison esboçar um sorriso quando o leu pela primeira vez. “O capitalismo, que afirma produzir a Ordem mediante a reprodução do desejo, de fato se origina na produção da escassez, e só pode reproduzir-se na insatisfação, na negação e na alienação. Enquanto o Espetáculo se desintegra (como um programa de Realidade Virtual que funciona mal) revela os ossos descarnados da Mercadoria. Como esses viajantes em transe dos contos da fada Irlandeses que visitam o Outro Mundo e parecem comer delícias sobrenaturais, nos despertamos em um remelento amanhecer com cinzas em nossas bocas“, escreveu ele em um dos seus vários panfletos anarquistas. Bey ficou especialmente famoso com seu ensaio inovador intitulado TAZ – Zonas Autônomas Temporárias, onde discorre sobre modos de organização e separação das sociedades constituídas, focando principalmente enclaves piratas caribenhos. Hakim argumenta que esses lugares, que funcionavam em separado dos grandes impérios do século XVIII eram experiências anarquistas válidas e livres, simplesmente optando pelo recuo e a fuga ante a chegada das autoridades. Para ele, não existe uma necessidade urgente de uma luta aberta e direta contra o Estado, mas sim investir em micro-territórios anarquistas, que teriam mobilidade e usariam técnicas alternativas de combate aos grandes vilões do mundo – ele amplificaria e mudaria esse pensamento em sua obra posterior, Millennium, dessa vez apostando numa guerra aberta e revolucionária que ele chamou de Jihad (deve-se anotar que esse livro foi escrito em 1996, antes do 11/9, além de observar as fortes ligações islâmicas dos estudos de Hakim Bey).

E é precisamente nesse método anarco-caótico que se encontram as principais similaridades de Os Invisíveis com a vasta teoria imediatista da Anarquia de Hakim Bey. Os integrantes da sociedade secreta da série se encontram inseridos numa realidade potencialmente paranóica, cheia de camadas e elementos distintos. Na luta contra um poderoso inimigo físico, metafísico e psíquico, os Invisíveis criaram fragmentações teóricas, religiosas e práticas como ferramentas de combate. Juntaram guerrilha com magia, armas com sigilização, e o resultado é potencialmente destrutivo. Bey propõe um modo de ação similar; não-global e carregado mais de instinto e ludismo, e menos de repressão e doutrinas revolucionárias. Seus métodos de ação contra os inimigos da Terra também são de caráter essencialmente alternativo e marginal, se apoiando num submundo de idéias que somente na cabeça de seres realmente malucos (como os Invisíveis) pode funcionar. Então, quando você ver King Mob se utilizando de vodu para destruir Sir Miles mentalmente, saiba que gente do lado de cá da realidade ensina magia negra islâmica como pesada Ação Revolucionária Espiritual. E do mesmo modo, os dois poderiam utilizar xamanismo, proclamar deuses hindus ou simplesmente meditar profundamente como os monges tibetanos… todas as religiões são ligadas em sua essência, e se conectam ao mesmo centro de poder.

Um exemplo de uso do que Hakim Bey denominou de Batalha Psicoespiritual ocorreu em 2002, quando a escritora Starhawk (que se denomina anarquista e bruxa) conclamou que todos wiccans para uma espécie “ação mágica conjunta” para sabotar os planos da reunião do G8, que aconteceria no Canadá naquele ano. Da mesma forma, todos os grupos anti-Estado, acham-se coletivamente conectados pelos mesmos princípios libertários, mesmo que em sua superfície pareçam estar em guerra. E esse pensamento não é só coisa de gente ligada ao Misticismo ou a Batalhas Políticas.  Niels Bohr e Werner Heisenberg são os físicos que bolaram a chamada Interpretação de Copenhague da Mecânica Quântica. Basicamente eles dizem ser possível – embora tenham declarado ser cientificamente complexo demais provar essa possibilidade – junções de idéias-fatos-ações fora do espaço-tempo através de ligações quânticas, conceito que entrou para a história com o nome dado pelo psicológico Carl Jung: Sincronicidade. Ou seja, duas pessoas, realizando atos e contemplando fatos completamente distintos podem estar se ajudando mesmo sem saberem – só ficando claro que esse é apenas um aspecto da teoria jungiana sobre eventos não-locais. Da mesma forma, dois teóricos podem estar se complementando (ou se refutando e com isso criando uma teoria ainda mais ampla) sem saberem, como existem vários casos documentos na ciência e na filosofia.

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Tom O’Bedlam, um dos personagens de Os Invisíveis… qualquer semelhança visual com Hakim Bey não é mera coincidência

Em seu texto Paleolitismo Psiquico & Alta Tecnologia, Hakim Bey dá mostras de como seria um cenário potencialmente liberto pela Anarquia Ontológica: um arremedo de cidade com espírito tribal, mas carregado de tecnologia, sob bases sociais inteiramente libertárias. Pode parecer uma punhetagem linguística extrema que na prática não diz quase nada, mas a descrição guarda muito do espírito lúdico e essencialmente festeiro de Bey, provavelmente herdeiro dos anos pesquisando os piratas e derivado das participações de encontros anarquistas especialmente movimentados. Na verdade, a base da Anarquia Ontológica é versar sobre métodos práticos de luta e recuo, e não sobre transformação social e revoltas populares. É um existencialismo que funciona de modo quase individual, não são necessários grandes grupos para realizar uma ação ontológica, muito pelo contrário. Da mesma forma que as células dos Invisíveis agem em grupos de cinco, e muitas vezes num nível de paranóia bem grande, não sabendo quem são seus próprios amigos ou inimigos, os grupos anarquistas que emergem do caos segundo a filosofia de Hakim têm métodos bastante parecidos, e se ajudam baseados em Sincronicidades não-locais.

Se olharmos o modo de organização dos Invisíveis, encontraremos um forte paralelo com dois grupos históricos descritos pro Hakim Bey: os Piratas e as Tongs. Os Piratas são um capítulo à parte, além de personagens de um outro texto que publicarei em breve, as Tongs Chinesas são organizações descritas como mafiosas, mas quando analisadas de modo profundo mostram-se como subEstados, dando ofícios e benefícios para a população onde o Estado não se mostrava eficiente. Eles por exemplo, tinham fundos previdenciários para trabalhadores informais e de aposentadoria para inválidos, dinheiro que tiravam de roubos e sonegações de impostos. As Tongs eram sociedades secretas organizadas de forma anarquista e descentralizada, embora praticamente todas as suas células trabalhavam por interesses comuns – diferentes da Máfia, que tirando a Omertà, não possuem leis de auxílio mútuo. Seus integrantes provavelmente não eram doutores em administração, mas inconscientemente pareciam entender que o crescimento hierárquico e vertical exacerbado das organizações termina por limitar sua eficácia operacional e aumenta a rigidez de suas ações, alcançando uma “contra-produtividade paradoxal”, para usar um termo de Ivan Ilich. Ao mergulharem em toda a sorte de atividades ilegais – sonegação de impostos, contrabando, segurança clandestina – as Tongs acharam por bem manterem-se ocultos até deles próprios, e o resultado é que muito poucos integrantes desses grupos conheciam alguma coisa além da célula que eles integravam. Mas, mesmo com essa aparente desorganização, as Tongs conseguiam trabalhar de forma integrada de modo bastante eficiente, como bem atesta a participação delas na queda da Dinastia Qing, em 1911, e os corredores de transporte de mercadorias contrabandeadas que elas organizaram. Uma Tong moderna utilizando os elementos religiosos-combativos descritos pelo Anarquismo Ontológico em meio a uma guerra no campo mítico é exatamente o que a obra de Grant Morrison descreve. O modo agnóstico com que Morrison e Bey lidam com o anarquismo, juntando campos não-necessariamente reais no sentido científico-materialista, torna o texto de ambos mais rico e abrangente – e mais difícil de refutar.

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Integrantes de uma Tong

Creio que todos sabem que a vitória da consolidação do Estado – o inimigo a ser combatido por todos os anarquistas ou seguidor de doutrinas humanistas – é muito mais psicológica do que necessariamente física. O Estado – assim como um chefe indígena – nasceu pra ser um servo do povo na mais perfeita acepção da palavra. Um xamã dos Yanomami – o mais próximo de um Estado que eles têm -, por exemplo, efetivamente precisa curar pessoas doentes e espantar maus espíritos. Caso a tribo decida que ele falhou em suas tarefas, o preço para o xamã é o exílio ou mesmo a morte. Em algum momento da história essa equação de subserviência se inverteu, e o Estado se tornou o Senhor do Povo, o vigilante se tornou que o vigiado, o segurança mais importante que o segurado. Não é mais o povo que decide se o Estado falhou, mas sim o próprio Estado. Ele, hoje, é capaz de mandar no povo que deveria mandar nele. O Estado se auto-regula, tem estruturas ocultas trabalhando para a consolidação dele próprio, e escancarou o Medo como fator que garantiu essa longevidade. O Estado e a Sociedade Urbana nasceram como uma forma de proteger o homem da insegurança do ambiente selvagem. Após esse Medo da força dos animais selvagens passar, a violência do Estado não se fez mais primordial, sendo necessária a inclusão de outras ameaças universais para que a violência se justificasse no ambiente da sociedade. Tais Medos são as Drogas, o Terrorismo, a Xenofobia, o Desemprego, a Crise Econômica ou qualquer outras coisa que peça medidas drásticas e acabam justificando a adoção de políticas que passam por cima de direitos individuais. Por outro lado, o Governo incentiva ferramentas hipnotizantes para mergulhar o povo em letargia, às vezes servindo como escapes catárticos do acúmulo de repressão empreendido pelo próprio Estado. É o famoso pão e circo, que atua como uma nuvem de poeira pra impedir que o povo – que em suma possui historicamente o poder – veja o que está ocorrendo de verdade. Mitos e Sistemas Religiosos também são largamente usados nessa tarefa praticamente mórbida e enganosa, apesar da constante afirmação de que os governos são laicos. E é nessa guerra psicológica que entram os métodos nada ortodoxos de Morrison e Bey, numa guerra secreta pela psique do povo.

Na descrição do segundo volume de Os Invisíveis é possível entender melhor a relação entre a ficção da série e a aterradora realidade descrita por Hakim Bey com uma linguagem por vezes bem floreada:

Duas forças opostas, inimigos mortais desde o Começo dos Tempos, estão fazendo preparativos para tirarem vantagem do final de tudo. Nos bastidores de todos os eventos dos livros de história, ELES têm trabalhado incansavelmente nas sombras, manipulando reis e imperadores, fomentando guerras, derrubando nações. De um lado os agentes do Controle Total, servos de entidades ultradimensionais conhecidas como os Arcontes, os Perdidos, os Esquecidos. Esses anti-seres assombram as esquinas dos nossos pesadelos, além do Tempo e Espaço, esperando pelo momento quando finalmente destruirão as paredes da realidade e dominarão nosso universo. Através de seus agentes terrenos, ELES já controlam o governo do mundo. ELES criam medo e discórdia. ELES sabem o que é melhor pra nós. ELES definem nossa realidade pela manipulação de linguagem e imagens. ELES exigem nossa obediência, nossa lealdade, e, no final, nossa completa escravidão.

E do outro lado estão os Invisíveis: uma antiga e secreta rede de lutadores da liberdade, dedicados a independência e evolução da humanidade. Alguns trabalham sozinhos – agentes paranóicos, mendigos esfarrapados pelas ruas das cidades. Outros ajudam a causa sem mesmo perceber – crianças rebeldes nas escolas, esposas revoltadas, trabalhadores que sabotam o estéril mecanismo de produção e consumo. E outros ainda, como King Mob e seu grupo, reúnem-se em células ativistas, usando ação direta contra as estruturas de poder da conspiração dos Arcontes. Anarquistas, feiticeiros, párias, terroristas ocultos, pessoas comuns nas fileiras da Batalha Final para decidir o destino da Alma da Humanidade. ELES se opõem à tirania e à ignorância. ELES se recusam a ser governados. ELES são a última esperança da humanidade no limiar do último e interminável pesadelo.

A contagem regressiva começou.

Mesmo que na visão de Hakim Bey e Grant Morrison exista uma ligação mental e ideológica no cerne de todos os movimentos anti-poder, naturalmente existem divergências entre eles. O maior opositor teórico de Bey é (ou foi, já que ele morreu em 2006) o anarco-socialista Murray Bookchin. Bookchin via o Anarquismo como uma expressão coletiva, uma forma de libertação comunitária e territorial. Sua rejeição a certas idéias consideradas anarquistas chegaram a tal nível que nos últimos anos da vida dele chegou a rejeitar o anarquismo em favor do que ele chamou comunalismo, ou socialismo libertário. Sua teoria basicamente mistura a descentralização territorial, organizando o povo em comunidades auto-gestoras, com uma ecologia libertária e livre dos dogmas baratos e mercantilistas que conhecemos hoje. As bases para alcançar isso seriam a fundação e o fortalecimento de organizações libertárias e comunitárias, que agiriam à parte do Estado, suprindo as necessidades populares e administradas de forma independente. Essa posição por uma forma organizada de luta comunitária e revolucionária – que vai contra certos padrões teóricos anarquistas da inserção de enclaves anarquistas dentro de Estados autoritários – lembra bastante uma máxima do antropólogo nigeriano Dr. Okere, que afirmou que “dentro de uma sociedade oriental as pessoas se sentem pertencentes a um todo, enquanto numa ocidental ela se sente individualista ao extremo”. De uma forma bastante generalista a definição corresponde de certa forma a verdade. Sem nos aprofundarmos nos conceitos e diferenças entre sociedades orientais e ocidentais, é possível dizer que a teoria individualista de Bey seria a ocidental, enquanto a comunalista de Bookchin seria a oriental. Seria irreal querer definir qual teoria é a correta, já que sociedades são diferentes e exigem métodos combativos diferentes, mas, sendo generalista novamente, o mais perto do ideal seria uma junção das duas teorias, já que todas as sociedades carecem de harmonia comunitária e de expressões individuais.

O principal erro de Bookchin em sua crítica à Anarquia Ontológica é não entender que muitas pessoas possuem ligações ideológicas independentes de barreiras essencialmente espúrias como o Espaço e o Tempo. Como Jung disse em sua teoria sobre Sincronicidade, existem conexões não-locais entre indivíduos e grupos de indivíduos fora de fronteiras espaço-temporais conhecidas. Elas podem ser carregadas do Inconsciente, ou simplesmente derivadas de vivências e experiências culturais. E eles teoricamente se ajudam, já que estão envolvidos em objetivos análogos, não necessitando de organizações constituídas e formais. O excesso de formalização na luta rebelde anti-Estado pode gerar uma rigidez que naturalmente tira a força e espontaneidade das bandeiras desse embate. Numa organização anárquica celular como os os Invisíveis – e as Tongs – esse tipo de risco praticamente não existe, já que a ligação mínima entre elas termina por ajudar até mesmo em sua longevidade, já que exclui a figura do chefe, da cabeça. Ademais, o Anarquismo Ontológico diz mais respeito à métodos de combate do que necessariamente a administração de uma sociedade liberta, como é o caso do Anarco-Socialismo de Bookchin. E, no fim das contas, ser inimigo teórico não quer dizer grandes coisas, já que Bey e Bookchin foram vistos várias vezes abraçados e cambaleando de bêbados pelas ruas de Nova York.

No final do século XX – em 1996, para ser mais específico -, Hakim Bey experimentou uma radicalização de sua teoria anarquista… da mesma forma que os Invisíveis se radicalizaram com a aceleração da luta deles contra os Arcontes, na reta final da obra. Provavelmente ele se tocou que os conceitos listados por ele – principalmente em seu livro Zona Autônoma Temporária e Ataque Oculto às Instituições – acabam por por se inserir na Sociedade que devia combater, sendo só mais um componente para o funcionamento dela. A coexistência pacífica entre Anarquismo e Estado é impossível, o Anarquismo declarado automaticamente se torna inimigo de todos os países do mundo, pois é um modelo de como uma sociedade pode funcionar sem Estado – os casos da Comuna de Paris e da Revolução Espanhola estão aí para mostrar isso. Ao invés dos grupos se situarem na TAZ, deveriam agora empreender uma batalha contra as instituições que sustentam o Estado, e principalmente nutrem o poderio financeiro dele. Entre os novos conceitos expostos por ele na sua obra Millennium se destacam a destruição do sustento financeiro social, através da exploração da natureza dos bancos como concorrentes parasitários do Estado; e também de mídias alternativas, que serviriam para diminuir o nível de hipnose em que vive a sociedade. Naturalmente que tanto Morrison quanto Hakim Bey têm filosofias e métodos um pouco parecidos com os do Coringa do filme O Cavaleiro das Trevas: “Sou um cachorro perseguindo carros. Eu não saberia o que fazer se alcançasse um“, embora as semelhanças entre os dois alcancem níveis bem mais profundos do que os descritos nesse breve artigo. O que eles querem é a destruição do Estado e das estruturas de poder… administrar as sobras dessa luta seria tarefa para gente ocupada como Bookchin.

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King Mob/Grant Morrison

Novidade? Não! Tanto Os Invisíveis quanto os escritos de Hakim Bey são o que se convencionou chamar de pós-modernos, costuras de inúmeras teorias e obras anteriores.Os Invisíveis é uma jornada do herói coletiva, carregada de psicologia e um conjunto poderoso das mais bizarras teorias da conspiração. Já Hakim Bey pode ser visto como um Charles Fourier moderno, que foi um pouco mais longe e jogou num explosivo caldeirão de urgência toda a sorte de métodos agressivos na eterna luta contra o Estado. Os dois são experimentalistas e não-conclusivos. Não querem criar um leão selvagem para matar um elefante cambaleante, mas sim soltar um bando de ratos violentos agindo em células.

Um elefante pode matar um leão, mas foge de medo de ratos!

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