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ex-machina

Fonte: Contraversão

Por (Formado em comunicação, já fez um pouco de tudo: editor de vídeo, animação, produção, mas é atrás do teclado que realmente faz as horas valerem a pena).

Você conhece o Jogo da Imitação? É uma teoria ainda, pois não temos inteligências artificiais tão avançadas a esse ponto (que eu saiba), mas é um jogo proposto por Alan Turing no qual uma pessoa deve fazer um desafio de perguntas e respostas e descobrir se do outro lado está uma máquina ou um ser humano.

Infelizmente o título já foi usado em outra película, porque seria uma descrição perfeita para a premissa de Ex Machina.

O filme todo se passa com Caleb (Domhnall Gleeson) tentando descobrir até onde vai a IA de Ava (Alicia Vikander) e o quão perto passar por uma humana ela está. O problema é que quando se olha para o abismo…

Centrado em diálogos, em personagens críveis e sem ser extremamente óbvio em seu desenvolvimento, esse é um dos melhores filmes de ficção científica que vi nos últimos tempos.

Claro que o roteiro não consegue evitar alguns clichês, mas ao menos um deles eu achei que seria completamente inevitável no mundo real, apesar de muito significativo para o personagem, então dei o braço a torcer.

A grande sacada do filme, que foi escrito e dirigido por Alex Garland, a mente que concebeu A Praia (o romance), Extermínio (roteiro), No limite da realidade (roteiro) e Dredd (roteiro), é trabalhar com o conceito de descoberta e exploração em tons de cinza.

Se você inventasse uma máquina capaz de pensar, o que faria? Aliás, o que é pensar? O que é ter consciência? Reconhecer sua existência é consciência? O roteiro levanta pergunta atrás de pergunta, em diálogos entrecortados entre um programador esforçado; talvez a mente mais brilhante da humanidade, Nathan (Oscar Isaac); e o que pode ser o próximo passo. O filme se esforça muito em não responder tudo de uma vez, sequer se propõe a responder todas as perguntas, deixando muitas para o espectador decidir – o que, em uma Hollywood de diretores pedagógicos alçados ao patamar de gênio, não deixa de ser uma ousadia.

A relação que Caleb e Ava constroem, os pequenos jogos e as dúvidas são colocados de maneira absolutamente natural, com explicações na medida, sem precisar de cada cena ser seguida de um diálogo expositivo, o que inclusive é ridicularizado dentro do próprio filme. Tudo isso aponta para um roteiro muito bem amarrado, com certeza Garland só quis dirigir para não fazerem com esse filme o mesmo que fizeram com A Praia.

spoilers

Conforme o jogo progride uma pergunta fica cada vez mais pertinente: se uma máquina pode pensar, se tem consciência de si e dos outros, ela é capaz de sentir? Não emular emoções, mas efetivamente sentir? Sentir tesão, afeto, ódio, vergonha, o que for?

E se uma máquina pode pensar, se tem consciência de si e dos outros, mas não é capaz de sentir, ela não seria o que chamamos de psicopata? Sem as emoções, sem a bússola moral que elas implicam, o que nos tornamos? Qual é a diferença disso para ser uma máquina?

O romance entre o programador isolado e o robô quase asimoviano é meio óbvio, mas como condenar? Acredito que nesse aspecto Ela foi melhor desenvolvido, mas os dois ressoam a mesma frequência nesse aspecto em relação a afeto, amor e cumplicidade; indo além do óbvio apelo carnal de uma relação. Onde traçamos alinha do aceitável, do normal? Ava é, em muitos aspectos, a mulher perfeita para Caleb, a questão parece ser que ela é perfeita até demais.

A cada nova pergunta respondida o roteiro nos apresenta um nova, e quando Ava pergunta o que acontecerá se ela não passar no teste, apesar da resposta ser óbvia para nós, o que vem a mente é: mas será que temos esse direito? Se a discussão sobre aborto sempre gira em torno de dor e consciência, o que falar sobre uma IA? Ela tem consciência, tem uma personalidade (de certa forma) e é capaz de entender completamente o que é existir e o que é não existir.

Asimov, que eu me lembre, não tinha dúvidas sobre o poder do ser humano sobre os robôs, mas eles não possuíam o mesmo tipo de consciência que estamos falando. E quando, em Sonhos de robô, Elvex demonstra estar desenvolvendo justamente uma das características mais humanas (metaforicamente, eu sei que todo mamífero sonha) a robopsicóloga não hesita em eliminá-lo.

Robôs podem sonhar? Não no sentido de ter a capacidade, mas de ter efetivamente a permissão para isso. O desejar algo, o anseio por algo, não seria uma característica humana? Ou o desejo, o sonho, é uma característica da inteligência? Robôs sonhariam o com quê? Ovelhas elétricas?

Sonhamos porque somos capazes de imaginar, ou imaginamos porque somos capazes de sonhar? Qual é a grande diferença entre nós, a nossa percepção de ser, e a dos nossos cães, por exemplo? Meu cachorro dorme aos meus pés e só posso projetar sobre o que ele sonha, não sei o que ele verdadeiramente pensa das coisas ou se ele, em última análise, me odeia e entende o que eu chamo de casa como uma prisão? Eu não tenho essas respostas, talvez um dia a gente invente aquela coleira de UP, até lá me sobram apenas conjecturas.

Mas para Caleb, não.

Ava pode falar com ele, pode explicar como se sente (sente?), pode demonstrar afeto, talvez até amor, mostra estar com medo e é capaz de despertar as mesmas emoções nele. Ela passa no teste, ela vai além do jogo da imitação, mesmo com os circuitos propositalmente aparentes no seu corpo robótico. Para ele, Ava se tornou humana, ou suficientemente próxima disso para que ele não se importe com as pequenas diferenças.

O filme segue para seu desfecho sem insultar o espectador, com uma conclusão tão simples quanto lógica, ainda que fria, deixando muitas perguntas em aberto, como deve ser.

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