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Fonte: Contraversão

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Um dos pontos interessantes atrelados às regenerações de Dr. Who é o cuidado que os roteiristas tem em fechar as personalidades de cada Doutor em “arcos”, como se, independente da causa regeneratio (acabei de inventar pesquisando a etimologia de regeneração no Google), aquela personalidade tivesse cumprido seu papel, dando lugar a um novo ciclo da jornada milenar do Time Lord. Motivado por um episódio do Who Cares Pod, vou pretensiosamente analisar as regenerações do New Who, parte da série que se passa depois do seu ressurgimento em 2005. Vamos lá? Aviso que acho completamente desnecessário mas tem uma penca de chorão na internet: se você não assistiu, este texto está repleto de SPOILERS!

9º Doutor – A Perda (1ª temporada)

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Quando começamos a assistir New Who, damos de cara com Christopher Eccleston dando vida ao nono Doutor. O “nascimento” dessa encarnação já acontece num dos fatos mais marcantes dos 900 anos de vida do personagem: o genocídio de duas raças alienígenas, sendo uma delas seu próprio povo. Além do peso de ter se tornado o último Time Lord pelas próprias mãos para encerrar uma guerra contra os Daleks antes que o conflito destruísse todo o espaço-tempo contínuo, fica implícito que esta versão do Doutor viajou um bom tempo sozinho, remoendo esses acontecimentos e interiorizando toda sua dor e remorso, escondidas pela máscara de bobão atrapalhado que Eccleston veste durante a temporada. Esse “disfarce” rende boa parte dos melhores trechos da trama, quando um dos seres vivos mais inteligentes do universo se deixa ser pego várias vezes, apenas para escapar quando bem entender. Essa atitude, apesar de justificada no seu ponto de vista, é posta em cheque diversas vezes durante suas aventuras com Rose, chegando ao ponto em que um Dalek sobrevivente da Time War considerá-lo uma criatura digna de respeito – especialmente pelo acesso de fúria impressionante do Doutor e a obstinação em matar este último espécime da raça de seus arqui-inimigos.

Nesses momentos em que o assunto é trazido à tona, é possível ver toda a dor, tristeza e cansaço que essa encarnação do Doutor carrega, normalmente seguido por um reforço do seu senso de proteção com outros seres vivos (mesmo que, na maioria das vezes, isso se limite a terráqueos). Então, não poderíamos ter uma forma diferente de se despedir do nono Doutor do que com um grande sacrifício para salvar sua companion (a mais estúpida de todos do New Who, mas isso é assunto para outro post). Num diálogo bastante emotivo, o Doutor faz a conclusão do seu papel na destruição de Gallifrey e vira a página para um novo começo.

10º Doutor – O Aventureiro (Temporadas 2 a 4)

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Eis que chegamos à era do Doutor mais carismático do revival da série. David Tennant não cala a boca em momento nenhum, trazendo à vida um Doutor muito mais ativo, enérgico e prolífico – o que também o leva a ser mais falível que seu antecessor. Era notável que o nono Doutor se deixava ser pego em diversas situações para entender melhor o que estava acontecendo ou simplesmente pela graça, para dar mais “emoção” à coisa; o safado já tinha boa parte calculada antes. O mesmo não acontece com o décimo. Ele é muito emotivo, como se fosse o contraponto de uma encarnação que se endureceu e se fechou devido ao horror que causou para si mesmo e tantos outros. Seu relacionamento com Rose se intensifica até chegar em níveis noveleiros durante essas três temporadas; nem o surgimento de sua esposa do futuro, River Song, diminui a força de um relacionamento quase forçado goela abaixo do espectador. Mas já começo a divagar.

O décimo doutor foi a encarnação mais maluca do New Who, o que ajudou a render boa parte dos melhores episódios que a série já teve. Foi justamente nessa época que tivemos mais roteiros de Steven Moffat, que assumiria a série a partir da quinta temporada, dando uma certa guinada no desenvolvimento dos arcos do personagem. Tennant, um whovian assumido, se envolveu muito com o personagem e nos presenteou com um Doutor extremamente agradável e divertido de acompanhar. Sua despedida é a mais forte de todas até agora. Nela, podemos notar que tanto o ator quanto o personagem querem dizer a mesma coisa na sua última frase.

11º Doutor – O Palhaço (Temporadas 5 a 8)

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Pulando do Doutor mais carismático para o mais irritante, chegamos à décima primeira encarnação, interpretada por Matt Smith. Eu sei que ganhei o ódio de muita gente com a última frase, mas eu acredito que uma série de fatores (atuação canastra e exagerada, roteiro e coadjuvantes, só para esquentar o assunto) contribuíram para a criação de uma encarnação que quase me fez desistir da série.

O Doutor de Smith é um babaca. Bobo, fanfarrão e extremamente inconsequente, ele acaba sendo o oposto do que foi construído como o cerne do personagem por 50 anos. É como se, após um final um tanto brusco e cheio de altos e baixos emocionantes da décima, esta nova versão do Time Lord quisesse dar uma zoada pelo espaço-tempo shitando bricos para as consequências – tanto que ele quase destrói a existência algumas vezes, quebra regras perigosíssimas (de acordo com o próprio mundo da série), mente de um jeito besta 80% do tempo, deixa geral na mão e por aí vai. É uma criança brincando de Deus que ainda por cima escolhe a mulher mais chata da Terra (oi, Amy Pond!) para azucrinar o universo.

Eu nem consigo falar muito dessas penosas três temporadas do décimo primeiro, tamanha minha rejeição ao personagem. Ele vai na contramão de todo o resto, fazendo a versão mais rasa e bobinha de um clássico da televisão. Não é à toa que foi nessa época que a série começou a fazer sucesso nos EUA… Pra piorar meu ranço, sua despedida é uma tentativa de fazer uma coisa épica e o roteiro força Clara, uma personagem bem mais interessante e mais inteligente que o 11º, a um papel pobre.

BONUS ROUND: The War Doctor – A Dureza (Especial de 50 anos)

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Este aqui é um “bônus” que faz um retcon na história e muda alguns fatos fundamentais de New Who, além de dar uma trama bem legal para o especial de 50 anos da série. E, porra, é o John Hurt! A breve passagem do War Doctor já começa com a regeneração FODA do oitavo Doutor (Paul McGann), quando ele se vê incapaz de dar um fim na Time War, cansado das desgraças do conflito:

O desenrolar desse personagem acontece no especial de 50 anos, que é focado na Time War (lembram do evento definidor do nono Doutor?). Este é o Doutor que rejeita o próprio nome, decidido a exterminar duas raças inteiras em prol da saúde do espaço-tempo. Resoluto, durão e com a cabeça no lugar, essa encarnação tem os momentos de maior firmeza do personagem. O que os outros tinham de engraçado juntos, este tem de sério multiplicado por 5. É um homem com uma missão e nada vai tirá-lo do seu caminho. Após o desenrolar dos acontecimentos do especial de 50 anos, o War Doctor “fecha o círculo”, regenerando-se no nono Doutor.

12º Doutor – O Botão de Reset (8ª temporada – ?)

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Mesmo antes de ser veiculada, a versão mais recente do Doutor gerou certo burburinho graças à escolha de Moffat para o papel: Peter Capaldi. Não tínhamos um ator tão velho interpretando o personagem desde as primeiras temporadas nos anos 60, o que tirou praticamente todo whoviano mais recente da zona de conforto. E, rapaz, que refrescada o tio Capaldi deu na série!

O décimo segundo Doutor é rabugento, irritadiço, meio maluco e um tanto arrogante. Ele não tem nada da ingenuidade dos Doutores anteriores e faz questão de ser bem cretino em diversas situações delicadas, além de fazer jus aos seus mais de 2.000 anos vividos. É uma personalidade que pode ser comparada à primeira versão do personagem, interpretada por William Hartnell de 1963 a 1966. A meu ver, essa mudança tão drástica atesta duas coisas: que o roteirista da série quer seguir um rumo bem diferente dos arcos anteriores e explorar um viés há muito deixado de lado do personagem e, também, que a era do romance com companions pode ter chegado ao fim.

Se a idade mais avançada de Capaldi não for um atestado claro disso para todos, na primeira conversa “sã” com Clara temos o seguinte diálogo:

– Eu não sou seu namorado, Cara.
– Eu sei disso.
– Eu não estava falando isso para você.

O Doutor apertou um semi-botão de reset; é um recomeço do jogo com a vantagem de ter chegado na fase final e ter pego todos os macetes das fases anteriores. Teremos um Doutor mais de saco cheio, mais sacana e, ao mesmo tempo, bem mais inteligente e mais fraternal. É um botão de foda-se apertado, mas com a mão no freio, pronto para ser puxado.

Acho que podemos esperar grandes coisas da interpretação de Capaldi do 12º Doutor.

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