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makhno-02Fonte: Nestor Makhno

O que é a Makhnovtchina?

É um movimento revolucionário espontâneo e autónomo que se apoia nas massas laboriosas e que aspira a estabelecer a liberdade e o bem-estar social e económico de todos.

É um movimento tipicamente da base das massas populares, autenticamente proletário, constituído exclusivamente de forças operárias e camponesas. Pela sua natureza, é um facto social exprimindo a sua força com o objectivo de defender as conquistas da Revolução, da liberdade e da independência dos trabalhadores.

É um fenómeno histórico que nasce a partir de causas variadas e essenciais, que ultrapassa de longe, pela sua profundidade, sua originalidade e sua amplitude, todos os movimentos de trabalhadores conhecidos até hoje.

É necessário precisar que a Revolução russa, realizada pelas forças populares, não realiza de forma alguma as aspirações vitais dos trabalhadores.

Por que não?

Porque o movimento não parte da base, é conduzido pela cúpula, pelos intelectuais politiqueiros. As ideias revolucionárias são alheias a esses exegetas, colados como sanguessugas ao corpo das massas trabalhadoras, das quais eles utilizaram os interesses para estabelecer sua influência e sua dominação.

Os camaradas anarquistas da Ucrânia, tendo à sua frente Nestor Makhno, revoltaram-se contra tão vil engodo dos trabalhadores, contra a vontade hostil, para com o proletariado, por parte de uma classe privilegiada, exterior a eles, e que se esforça para se impor.


Essa tendência, que tinha começado a lutar contra os estatistas, canalizou-se inicialmente num movimento revolucionário insurreccional, e mais tarde transformou-se numa Revolução social ucraniana.


Não é possível, em nenhum caso, considerar a Makhnovtchina como uma simples rebelião, uma revolta, ou como uma simples expressão da indignação dos trabalhadores. Não, é um movimento social das amplas massas trabalhadoras, profundamente consciente e politicamente claro. A autonomia total do movimento testemunha a evidência da profunda base sobre a qual repousa essa corrente.


Digamos mais ainda: a atitude hostil da Makhnovtchina para com os órgãos do poder governamental do Estado torna-se a atitude dos camponeses contra este poder e vice-versa: os interesses dos trabalhadores tornam-se os da Makhnovtchina.


Assim, o movimento makhnovista – originado na base pelos camponeses trabalhadores – é vosso. Vossas esperanças, vossas aspirações e vossos projectos estão contidos nele.

De onde vem a Makhnovtchina?

O povo ucraniano, tendo herdado a tradição de liberdade que havia sido conservada desde o passado longínquo, soube conservar esta liberdade através dos séculos de escravidão e exprimiu agora, de modo inesperado, as forças que retinha nele mesmo: ousadia, coragem, temeridade e espírito de revolta.

Estas forças apareceram na nossa época sob a forma de insurreições contra os alemães e Skoropadsky, e outros movimentos reaccionários: Petliura, Grigorieff, Denikin, etc. Em seguida, ele revelou a sua verdadeira face ao se transformar em Revolução social ucraniana.

A partir desse momento, estas forças adquiriram um aspecto e uma constituição sólida ao assimilar as ideias libertárias; o movimento tornou-se um fenómeno social, exprimindo-se de maneira brilhante, com a qual todos devem agora contar.

A que aspira a Makhnovtchina?

Sempre extraindo a sua aspiração das amplas massas, a Makhnovtchina controla ciumentamente os seus interesses. Não é sem motivo que as massas camponesas estimam o movimento makhnovista como órgão dirigente de todas as circunstâncias de sua vida.

Aparecendo como um movimento típico das camadas mais pobres do campesinato, a Makhnovtchina segue seu bem-traçado caminho, e por esta razão a sua vitória marcará o triunfo total da base do campesinato e ao mesmo tempo, o da Revolução social. O movimento insurreccional makhnovista aspira a criar, a partir dos camponeses revolucionários, uma força real e organizada, podendo combater a contra-revolução e defender a independência de uma região livre.

A Makhnovtchina aspira a uma vida harmoniosa, livre e igualitária. Tende, enfim, em nome do triunfo comum, à união com o proletariado das cidades, apoiando moral e materialmente, se preciso for, a classe operária.

Em uma palavra, a Makhnovtchina parte inteiramente da base do campesinato mais pobre e toma partido por tudo aquilo que vem autenticamente do povo trabalhador.

O que a Makhnovtchina tem em comum com o anarquismo?

A atitude negadora da Makhnovtchina para com o capitalismo e o estatismo mostra que este movimento é essencialmente libertário. Enfim, a participação maciça dos trabalhadores na Makhnovtchina significa, por si só, que é um facto social afastado de qualquer utopia ou fantasia.

É possível afirmar, consequentemente, que a Makhnovtchina e o anarquismo são afins e idênticos quanto ao fundo.

O movimento makhnovista apoia-se conscientemente sobre os princípios anarquistas, quer dizer, sobre o direito à autogestão total da vida social e sobre os fundamentos da Anarquia; apresenta-se como uma realização perfeita das ideias libertárias.

O movimento makhnovista perdeu quase trezentos mil homens entre os melhores filhos do povo, em nome da vitória final dos trabalhadores; rejeitou a união com os estatistas e, combatendo nas terríveis condições da guerra civil, assediado por todos os lados, carregou e continua a carregar orgulhosamente a bandeira negra onde figura a sua divisa:


“Com os oprimidos e contra os opressores – Sempre!”

* * *

Em conclusão, digamos algumas palavras sobre o anarquismo: não é uma mística, nem uma utopia, nem tagarelices sobre harmonia, nem um grito de desespero. Não, o anarquismo vale antes de mais nada pela sua dedicação à humanidade reprimida. Conclama as massas à verdade, à luta pelas aspirações libertárias e aparece actualmente como a única teoria sobre a qual as massas se podem apoiar, com confiança, no seu combate.

Como o anarquismo e a Makhnovtchina estão estreitamente ligados entre si, é natural que a um e outro se apresentem caminhos semelhantes, conduzindo rumo à liberdade, à igualdade e à fraternidade. É importante que, em relação a isso, o movimento makhnovista tenha feito a sua escolha, com precisão, entre todas as doutrinas sociais, e que tenha feito sua, ousada e abertamente, a palavra de ordem:

“Por uma sociedade e um trabalho livres!”

Viva a Makhnovtchina – movimento revolucionário insurreccional!
Viva a Makhnovtchina – livre união dos operários e camponeses!
Viva a Makhnovtchina – a própria realização do anarquismo!

A secção de propaganda do estado-maior do exército revolucionário insurreccional makhnovista.
(Panfleto de Março de 1920)

Retirado da revista Libertárias nº1, Outubro/Novembro 1997, São Paulo

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