Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

dypdicirh45nxkbv2tnst0a1r

 

por Punk Canibal

Fonte: A Cidade do Anti-Individualista Solitário

Apresento uma tentativa de introdução a uma hipótese teórica de uma pesquisa pessoal maior sobre o diálogo entre formas políticas ameríndias e anarquistas.

Vaqueiro, tipógrafo, comerciário e bolsista acadêmico francês de meados do século XIX, Pierre-Joseph Proudhon foi o primeiro autor e ativista declaradamente anarquista. Teve sua obra recuperada por Célestin Bouglé no início do século XX, influenciando a Escola Sociológica Francesa e desenvolvendo uma corrente sociológica própria cujas produções foram parcamente traduzidas para o português – o que tem sido paulatinamente superado com a proximidade dos 150 anos de sua morte em 2015.

 Seu pensamento, nem kantiano, nem hegeliano, baseia-se numa dialética serial sem síntese. Séries de elementos são concebidas entre polos opostos que jamais se anulam, a não ser transformados em novas séries. Numa de suas obras derradeiras, Do Princípio Federativo, aborda a série política a partir dos polos da Liberdade e da Autoridade, o “dualismo político”. Apresenta uma história não linear, feita de alternâncias. Sucessão de massas, classes e revoluções não realizam plenamente a Liberdade justamente por tentarem, sem sucesso, eliminarem a Autoridade. “Vermelhos” e “azuis” (direita e esquerda) invertem-se paradoxalmente, elites valem-se da democracia para governar e a multidão tende a apoiar ditaduras.

Para Proudhon, a capacidade política das classes trabalhadoras não está nas revoluções. Ela está no trabalho enquanto habilidade técnica e produtiva da “força coletiva” e também na organização política: o federalismo. Tratou o federalismo obreiro do século XIX como prefiguração do modo de vida socialista anti-capitalista e anti-estatal: o “federalismo agro-industrial”. Tal seria uma maneira produtiva e pacífica de por em prática o agonismo característico da guerra. A federação se organiza de modo que a Liberdade seja maior que a Autoridade impossível de ser eliminada. Pela organização local de pequenos coletivos, cujos delegados seriam porta-vozes, constituem-se federações a partir da pulverização dos cargos e distribuição do poder de execução. As partes, sejam membros dos coletivos ou coletivos membros da federação, guardam para si maior liberdade do que concedem, obrigam-se reciprocamente mas podem romper o vínculo quando desejarem, minimizando a tendência à centralização.

Não tão longe da Europa de Proudhon, uma Antropologia lévi-straussiana baseada no diálogo, como disse Pierre Clastres, encontra nos povos ameríndios certas filosofias, mitologias e formas de organização coletiva que operam como um “dualismo em perpétuo desequilíbrio feito política”, segundo Beatriz Perrone-Moisés. Num movimento temporal pendular, tanto sazonal quanto histórico, apresentam-se formações políticas entre o “contra-Estado” e o “quase Estado”, como dizem Perrone-Moisés e Renato Sztutman. Coletivos constituídos ora por “chefes” que, para liderar, obrigam-se a dilapidar o poder através da generosidade, ora por uma multiplicidade de “cargos” e “donos” demais, além de sub-grupos de associação e pertencimento entre-cruzados. Por exemplo, entre os A’uwe-Xavante, há mais de duas divisões entre metades, classes de idade, linhas de parentesco e separações de gênero, além de vários encargos político-rituais – muitos são os “chefes” e “donos” de algo. Inversões entre diametralismo e concentrismo, entre centro e periferia, afetam as relações interiores e exteriores. Seu princípio federativo não se funda, como no ideal proudhoniano, somente nos frutos do trabalho, ainda que seja verdade em vários casos, como no intercâmbio de produtos especiais por “pães de sal” na Amazônia peruana de matriz aruaque e pano. Há também circuitos rituais, festivais e guerreiros que mobilizam o federativismo indígena. Lévi-Strauss nota a forma da guerra atenuada em festivais lúdicos na América do Norte, ao estudar a mitologia e o pensamento “selvagem”. O mesmo pode ser visto em festivais mortuários e competitivos com a luta huka-huka xinguana. Ou nas relações entre classes rituais trans-aldeãs a’uwe-xavantes, dirimindo o faccionalismo do parentesco através de corridas de tora, jogos esportivos e manifestações de canto e dança. Aliás, o próprio parentesco a’uwe-xavante revela elementos que, para Proudhon, seriam confederativos. Ao contrário do fundamento patriarcal e autoritário observados por ele, o parentesco a’uwe-xavante apresenta características libertárias: os laços não são só dados mas construídos também pela escolha pessoal, através da intensificação do convívio, da comensalidade e da adoção, de modo que uma pessoa possa paulatinamente desfiliar-se de sua comunidade e afiliar-se a outra.

Lévi-Strauss foi leitor de Proudhon e o mostra na conclusão de sua tese sobre estruturas elementares do parentesco (orientada por Bouglé…). Nas palavras do anarquista, Lévi-Strauss concebe o parentesco como forma de “reciprocidade”, situado entre os polos da “propriedade” e da “comunidade” – limites estéreis quando sozinhos, mas entre os quais se realizam uma série de maneiras de se relacionar. Trata-se da mesma dialética que Proudhon aplicaria à política. E que encontra algumas semelhanças naquela que Lévi-Strauss identificaria na filosofia mitológica das Américas – o dualismo em perpétuo desequilíbrio – que a etnologia política como a produzida no Centro de Estudos Ameríndios (USP) tem observado em confederações ameríndias.

Hoje indígenas são aclamados por alguns anarquistas, não sem equívocos, como no famoso anarco-funk em homenagem à Confederação dos Tamoio. Para além de concepções tradicionais anarquistas como a federação de indivídos do anarco-plataformismo ou a federação anarco-sintetista de grupos de ação diversa, anarquistas arriscam-se até mesmo no futebol, como na Copa Rebelde de Movimentos Sociais. Talvez pudessem se aproximar mais de concepções indígenas ampliando e diversificando suas alternativas históricas, rompendo com o fado unilinear e evolucionista – tão pouco proudhoniano, menos ainda lévi-straussiano – e encontrando nos indígenas muito mais do que “primitivos”.


 

Anúncios