Tags

, , , , , , , , , , ,

cam00389

 

Fonte: Núcleo de Pesquisa Marques da Costa

Por Marques da Costa

 

Distincto adversario!

Venho dar-te uma prova do meu leal reconhecimento pelos modos lhanos de que usaste para commigo na controversia que trata-mos há tempos a respeito de “anarquismo e bolxevismo” – e que, diga-se de passagem, deveria versar, consoante combinamos antes, sobre organização syndical.

Francamente, eu não podia deixar de reconhecer que foste um verdadeiro cavalheiro – ao contrario do que se esperava da banda de cá, onde só se dizia que eu ia defrontar-me com o “maior sophista do seculo”, com o mais cynico de todos os bolxevistas.

Fizeste-me algumas interpelações que logo julguei cavillosas, é certo tive a franqueza e a coragem necessarias para t’o dizer immediatamente, mas os modos como as justificas-te e, sobretudo, os conceitos nobres que expendes-te a respeito das ideas que me orgulho de professar – e que tambem já foram o teu orgulho – tudo sobrelevaram, fazendo com que se arraigasse mais em mim a idea que já tinha de que renegaste o anarquismo “por te haveres convencido da necessidade e da inevitabilidade da dictadura proletaria – e não porque descrêsses da praticabilidade do anarquismo”.

Isso, meu distincto adversario, faz-te respeitavel. Não te illiba de ataques pessoaes, como não te isenta da responsabilidade que de facto te cabe como chefe que és dum partido que, embora rotulado de proletario, foi mais prejudicial aos trabalhadores organizados no primeiro anno de sua existencia, que todos os partidos e grupos politico-burgueses com quem o proletariado brasileiro tem sido obrigado a defrontar-se; mas recommendo-te de algum modo aos nossos olhos, aos meus proprios olhos, que por mais de uma vez teem vislumbrado nos teus actos, nas tuas acções de “politico avançado”, os actos e as acções vulgares de “qualquer politico”…

Tu te houveste bem, portas-te-te como um homem culto, interpelaste-me e respondeste-me como era de esperar de ti. E é para que tu saibas que não passou despercebido semelhante procedimento resolvi escrever-te, para te dizer isto mesmo, para testemunhar-te a minha admiração.

Sei que não se procede sempre assim. Quando longe dos teus adversarios, para te fazeres “de grande” ou para arranjares as coisas a teu geito, mentes, falseias os acontecimentos… Mas desta vez mereces-te palmas e eu bato-as satisfeito.

Dou-te as peralças a que tem direito. Se não t’as desse arrepender-me-hia disso…

Se por um lamentavel descuido é que não te escrevi há mais tempo. Confesso: fui um descuidado. E se não fosse o teu correligionario Octavio, aquelle boticario da General Camara de cujo nome inteiro não me lembro agora, talvez ainda hoje não deixasse saldada esta divida…

Não tens que ficar obrigado. O que aqui faço não é mais que prestar honra ao mérito…

Além disso, eu quero que conste este gesto.

Faço tanta questão disso como faço questão de fazer constar qual foi a tua attitude, quaes os teus modos, as tuas affirmações como bolxevista (desculpa por não te chamar communista), na controversia que tivemos.

Foste um homem! És ainda, creio, um distincto adversario (oxalá não deixes de sê-lo); e eu não quero que de modo algum sejas confundido com um dos mais recentes recipendiarios do P.C., a quem pretendo sovar, pondo ao léo as suas gaifrenas e nigromancias de governalhomaniaco…

Era só o que tinha a dizer-te o adversario sincero.

Matéria publicada na Secção Trabalhista do jornal A Pátria (Rio de Janeiro), no dia 19 de abril de 1923.

Anúncios