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Postado em Unio Mistyka, em julho de 2015

O artigo a seguir é uma entrevista com um anarquista ambientalista e vegetariano da Turquia, que é membro da Sosyal isyan (Insurreição Social), e que luta fazendo parte da Birleşik Özgürlük Güçleri (Forças Unidas da Liberdade) lado a lado com as YPG (Unidades de Defesa do Povo) e YPJ(Unidades de Defesa das Mulheres) em Kobane, Rojava. A entrevista foi conduzida por H. Burak Öz e apareceu originalmente no site jiyan.org. Nós gostaríamos de agradecer o camarada Ece Eldem por traduzir a entrevista para o inglês.

Estamos na sede das Forças Unidas da Liberdade (Birleşik Özgürlük Güçleri) em Kobane. Peço um cigarro de um combatente afim de conhecê-lo e conversar com ele. Enquanto me oferece o fumo, pergunto quantos grupos formam as Forças Unidas da Liberdade. Ele diz que, esta força consiste em salvacionistas (Kurtuluşçular), MLSPB, TDP  e anarquistas, indicando que ele também é um anarquista.
Pergunta > Qual é o objetivo de lutar aqui para os anarquistas?
Resposta < Sou um dos fundadores da organização Insurreição Social e também um porta-voz. Quando os ataques do ISIS começaram em Kobane, em nome da solidariedade internacional, sem pensar duas vezes, idealizamos construir uma defesa como Brigadas Internacionais, algo muito próximo do que ocorreu durante a Guerra Civil Espanhola.
Pergunta > As Forças Unidas da Liberdade foram formadas por diferentes frações socialistas da Turquia. Sendo anarquista, como você se envolveu com esta estrutura?
Resposta < As Forças Unidas da Liberdade foram fundadas quando nós chegamos. Realizamos uma chamada para anarquistas e ecologistas.
Pergunta > Existem outros combatentes anarquistas que vieram de outros países além da Turquia?
Resposta < Camaradas vieram da Itália e da Espanha. Também há um anarquista argentino que luta no YPG.
Pergunta > Quando a Insurreição Social foi fundada?
Resposta < Insurreição Social foi fundada em 2013 nos acampamentos de resistência em Tuzluçayır (Distrito de Istambul, Turquia).
Pergunta > Por que você preferiu uma bandeira verde e negra?
Resposta < Tanto pela memória dos camponeses makhnovistas quanto pelo fato de sermos ecologistas.
Pergunta > Que tipo de estrutura tem a Insurreição Social?
Resposta < Nós defendemos a Guerra de classes e rejeitamos o anarquismo neoliberal. Temos o anarquismo clássico como maior referência, camaradas que reivindicam Makhno e Proudhon. No geral, temos uma concepção plataformista. Podemos descrever a Insurreição Social da seguinte forma: não tomamos Bakunin, Proudhon, Luigi, Galleani, Malatesta etc. ao pé da letra. Examinamos cada anarquista e adicionamos nossas próprias reflexões, concluindo o que construímos sendo Insurrecionários Sociais.
Pergunta > Quando você entrou para a luta armada?
Resposta < Nós defendemos a luta armada desde a fundação da nossa organização. Nós fomos influenciados mais especificamente pela perspectiva do anarquista insurrecionário Alfredo M. Bonanno. Fundamos nossa própria teoria insurrecionária. Acreditamos que a revolução terá início com a luta armada. Primeiro, de 3 a 5 ações armadas nas favelas turcas, e agora, tudo isso nos conduziu até Kobane. Mas antes de tudo, nós sonhamos com isso. Se não tivéssemos sonhado e tentado pôr em prática, estaríamos apenas bebendo cerveja em um bar de Kadıköy ou Beyoğlu. Alguns de nossos camaradas permaneceram como eram.
Pergunta > Como é a proximidade do Movimento Curdo com você em Kobane?
Resposta < De alguma forma, nossa presença em Kobane mostra que a luta armada anarquista não terminou na Guerra Civil Espanhola. No início, camaradas socialistas e Apoístas (defensores de Abdullah Öcalan) ficaram surpresos de ver anarquistas usando armas por aqui. Isso é resultado e uma ideia de anarquismo que se criou na mente das pessoas. Na verdade as pessoas não sabem o que realmente é anarquismo por aqui. Conhecem o anarquismo como algo simplesmente contrário a tudo e a todos os tipos de organização. Tem uma ótima frase do Kropotkin: “Anarquia é ordem”. Estamos explicando e nos responsabilizando por isso. Apesar de que esta responsabilidade é dura de assumir, estamos tentando lidar com ela.
Pergunta > Em que momento a teoria do anarquismo ecológico e a prática em Kobane se encontram?
Resposta < Nós vivemos determinadas coisas por aqui que não conseguíamos entender senão através de cada passo no sentido da ação, ou seja, não conseguimos encontrar as respostas nos livros.
Pergunta > Como o quê?
Resposta < Estamos no meio de uma Guerra. Por exemplo, rejeitamos todo tipo de hierarquia, mas aqui, você precisa de um comandante. Você não pode entregar um walkie-talkie para todo mundo, senão ninguém poderá agir do seu próprio jeito. Talvez, a naturalidade crie suas próprias necessidades. Nós entendemos que a orientação de Malatesta e a liderança natural de Bakunin estão aqui, o que não compreendemos durante a leitura. Havia informação; nós a praticamos e obtivemos a informação novamente.
Pergunta > O que você sonhava antes de vir para Kobane, e o que você encontrou aqui?
Resposta < Eu pensei que teria problemas sobre a cadeira de comandos mas não tive. Não me confrontei com nenhum tipo de pressão ou dificuldade com o YPG e as Forças Unidas da Liberdade. Alguns de nossos camaradas talvez tenham gritado quando uma bala passava próxima de nossas cabeças em tempos estressantes de Guerra, mas é normal.
Pergunta > Nenhum problema ecológico ocorreu?
Resposta < Havia uma perspectiva de orientação como a necessidade de pessoas virem para cá preencher um vazio de consciência. Por exemplo, camaradas da Itália queriam importar agricultura orgânica mas existem pessoas por aqui que já conhecem a agricultura orgânica e a aplicam. Estão falando sobre ecologia. Um camarada espanhol insistiu em “não usar diesel para acender o fogo”. Você está num lugar onde o óleo diesel custa 7 centavos. Madeira é mais caro e você não pode encontrar madeira fácil por que o lugar é basicamente um deserto. Existem Oliveiras mas estão plantadas com a agricultura. Não pode cortá-las. Portanto, é absurdo dizer a essas pessoas “não use óleo diesel, por que você usa diesel para se aquecer?”.
Pergunta > Você nos contou mais cedo que camaradas das Forças Unidas da Liberdade pediram a amigxs socialistas não comerem carne e pedir desculpas para os animais que mataram, mas quando esgotaram-se os suprimentos, você comeu majoritariamente carne. Pode falar um pouco sobre isso?
Resposta < Muitas coisas aconteceram nas montanhas. Os suprimentos não chegaram. Nós estávamos com fome e não havia nada mais além de patos deixados para trás nos vilarejos. Quando os camaradas começaram a cortar os patos, eu disse “o que vocês estão fazendo? É assassinato!” mas o disse a parte da realidade, como uma reflexão. Coisas que fazemos apenas de acordo com a teoria colapsaram.
Pergunta > Você está lutando com socialistas no mesmo grupo. Algum tipo de discussão teórica já aconteceu entre vocês?
Resposta < Mesmo que ocorram essas discussões, são mais como brincadeira. Nunca tivemos problemas com isso. Nós e elas, estamos conscientes de que viemos aqui pela solidariedade internacional. Estamos agindo de acordo com a ética revolucionária. Dormimos lado a lado e comemos juntxs. Estamos tentando entender um ao outro. Talvez a gente precise de uma nova teoria revolucionária no século XXI, e que esta prática possa colaborar, em termos de compreendermos uns aos outros.
Pergunta > Você deve ter passado por momentos em que esteve próximo da morte. O que você pensa nestes momentos?
Resposta < Eu definitivamente tive estes momentos, mas na frente de Guerra, você pensa nxs camaradas. Talvez existam alguns momentos de medo e pânico mas quando você ouve o som de uma arma disparando, esses sentimentos vão embora. Digo, você desenvolve um reflex para se proteger e proteger xs camaradas.
Pergunta > O que é esta garrafa de Coca-Cola?
Resposta < Não toque! É uma bomba caseira.

Via Agência de Notícias Anarquista

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