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Fonte: Unio Mystika, julho 2015
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O livro “The Collapse of Complex Societies” (Colapso das Sociedades Complexas), de Joseph Tainter, descreve o processo de ascensão e queda das civilizações e mostra que o colapso ocorre quando os custos da complexidade começam a superar os benefícios. O livro demonstra que ocolapso das sociedades ocorre baseado em quatro axiomas:
1) Sociedades humanas são organizações voltadas para a solução de problemas; 
 
2) Sistemas sociopolíticos necessitam de energia para a sua manutenção; 
 
3) Aumento da complexidade traz consigo o aumento dos custos per capita; e 
 
4) Investimento em complexidade sócio-política – como uma resposta à resolução de problemas complexos – atinge um ponto de retornos marginais decrescentes. 
Para Tainter, o sistema tende a colapsar quando a introdução de um acréscimo de complexidade em um sistema exige um custo superior ao benefício que ele produz. No caso do Império Romano, o autor verificou que o maior problema enfrentado foi quando os romanos tiveram de sustentar custos muito elevados, apenas para manter o “status-quo”. Tinham de investir enormes somas para resolver problemas de manutenção do Império, sem retorno positivo. Isto reduziu a vantagem de ser uma sociedade complexa. Desta forma, colapso pode ser definido como “uma rápida redução da complexidade”.

Assista ao vídeo “Porque as sociedades entram em colapso?”, de Jared Diamond

Tainter considera que os estudos arqueológicos possuem implicações contemporâneas, pois sociedades complexas, historicamente, são vulneráveis a poder entrar em colapso. Este fato por si só é perturbador para muitos. Embora o colapso tenha sido um ajuste econômico no passado, atualmente pode ter um efeito devastador, já que nas sociedades altamente industrializadas, um colapso implicará em grandes rupturas e perda avassaladora de pessoas, para não mencionar um padrão significativamente mais baixo de vida para os sobreviventes .
Na verdade, esta preocupação deve ser estendida para a própria sobrevivência da espécie humana, pois os cenários de colapso contemporânea, traçados por Tainte em 1988, incluiam:
a) guerra nuclear e mudanças climáticas associadas; 
 
b) aumento da poluição atmosférica, levando à destruição do ozônio, mudanças climáticas, etc. 
 
c) saturação dos padrões de circulação global; 
 
d) esgotamento dos recursos industriais críticos; 
 
e) colapso econômico geral, provocada por uma grande crise financeira; 
 
f) dívidas internacionais, interrupções na disponibilidade de combustível fóssil , hiperinflação e coisas semelhantes. 
Embora o livro de Joseph Tainter tenha sido escrito em 1988 ele permanece atual em vários aspectos na medida em que cresce o grau de complexidade da sociedade atual e há um processo de redução dos retornos econômicos devido ao esgotamento dos recursos naturais, ao aumento da violência e dos conflitos gerados pela desigualdade social. Também diminuem os retornos econômicos em decorrência da depleção do meio ambiente, perda de produtividade do trabalho devido ao processo de envelhecimento populacional e crise financeira devido à redução da taxa de lucro. O pior é que quanto maior é o grau de complexidade maior tende a ser a queda.

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Indicadores de colapso ecológico

As Premissas da Civilização

A sociedade urbano-industrial, que teve início no final do século XVIII, com o uso intensivo de combustíveis fósseis e a exploração de matérias primas da natureza, se encaixa neste tipo de sociedade complexa. Segundo Ugo Bardi, esgotamento é um termo relativo. Nada desaparece da crosta terrestre totalmente: tudo o que foi extraído ainda existe, mas uma vez extraído é amplamente disperso – em produtos, nos fluxos de resíduos e mesmo na terra, no ar e na água. O problema que estamos enfrentando é que a maioria dos minerais tornam-se gradualmente mais caros para extrair porque o minério de alto teor foram progressivamente esgotados. O resultado final é que estamos entrando em uma era de diminuição dos retornos da produção de commodities minerais. O problema é especialmente crítico para os minerais que são o verdadeiro “calcanhar de Aquiles” da sociedade industrial: o petróleo e o gás. Eles são minerais relativamente comuns na crosta da Terra, mas sua extração está se tornando cada vez mais cara, o que provoca a criação de um círculo vicioso de retornos decrescentes. Isso tende a colocar uma carga excessiva sobre o sistema econômico do mundo e é provável que, no futuro, não vamos ser capazes de produzir combustíveis fósseis às mesmas taxas de hoje. Esta é a essência do conceito de “pico do petróleo” que pode trazer junto o colapso da sociedade urbano-industrial, provocando uma grande crise econômica, ecológica e social.

Segundo Richard Heinberg, lucros decrescentes do petróleo aparecem nos dados financeiros das companhias petrolífera. Entre 1998 e 2005, a indústria investiu US$ 1,5 trilhão em exploração e produção, e esse investimento rendeu 8,6 milhões de barris por dia (mb/d) na produção de petróleo adicional no mundo. Mas entre 2005 e 2013, os investimentos da indústria passaram de US$ 3,5 trilhões em exploração e produção, mas este investimento (mais do que o dobro) produziu apenas 4 mb/d. A Energia Retornada por Enegia Investida(EROEI) era de 100 para 1 e caiu para 10 para 1 nos EUA, mostrando que a sociedade complexa dos combustíveis fósseis entrou na fase dos rendimentos decrescentes, caminho que, no passado, levou outras sociedades complexas ao colapso.

Como mostrou Chris Martenson (2014) os próximos 20 anos serão muito diferentes dos 20 anos passados. O ritmo de crescimento econômico deve diminuir muito e os problemas sociais e ambientais devem se agravar de forma crítica. Há vários indícios de que o modelo de sociedade consumista de alta complexidade pode entrar em colapso por redução dos ganhos de produtividade econômica, por agravamento da luta entre pobres (excluídos) e ricos e por uma rápida depleção dos recursos naturais e agravamento das mudanças climáticas. Pensando as dificuldades do futuro, William Rees (2014), diz que para evitar oColapso, é preciso seguir uma agenda de decrescimento sustentável e de relocalização da economia.

Mas o mundo está obnubilado pela noção de progresso. Porém, embora o mito do desenvolvimento ainda seja hegemônico, há cada vez mais pessoas pensando em uma vida mais simples, substituindo a competitividade e o consumismo por um ideal de prodigalidade, como propõe o modelo de simplicidade voluntária.

Como diz Chomsky: “É a primeira vez na história humana em que temos a capacidade para destruir as condições mínimas para sobrevivência decente. Já está acontecendo. Há espécies que estão sendo destruídas. Estima-se que vivemos destruição equivalente à de há 65 milhões de anos, quando um asteroide colidiu com a Terra, extinguiu os dinossauros e grande número de outras espécies. A destruição, hoje, é de nível equivalente àquele. De diferente, que o asteroide somos nós. Se alguém nos está vendo do espaço, deve estar atônito. Há setores da população global tentando impedir a catástrofe global. Outros setores tentam apressá-la. Veja bem quem são uns e outros: os que tentam impedir a catástrofe total são os que nós chamamos de primitivos, atrasados, populações indígenas – as Nações Originais no Canadá, os aborígenes australianos, pessoas que ainda vivem em tribos na Índia. E quem acelera a destruição? Os mais privilegiados, os chamados ‘avançados’, os letrados, as pessoas cultas e educadas do mundo” (Chris Hedges, 2014).

Ou seja, o progresso e o desenvolvimento humano tornaram-se as maiores ameaças à da natureza e à biodiversidade. O rumo atual da civilização é insustentável e a complexidade do atual modelo está aumentando os custos e reduzindo os benefícios, jogando a economia em uma grande armadilha, sem bases ambientais de sustentação.

Referências:

Joseph Tainter, The Collapse of Complex Societies, Cambridge University Press, 1988http://monoskop.org/images/a/ab/Tainter_Joseph_The_Collapse_of_Complex_Societies.pdf
Ugo Bardi. The Age of Diminishing Returns, Resilience, 18/04/2014http://www.resilience.org/stories/2014-04-18/the-age-of-diminishing-returns

John Michael Greer, Como caem as civilizações: uma teoria do colapso catabólico, 2005http://www.picodopetroleo.com.br/images/stories/COLAPSO/portugues/calapsocatabolico.pdf Richard Heinberg. The Gross Society: We’re Entering an Age of Energy Impoverishment, April 18, 2014 http://www.psmag.com/navigation/nature-and-technology/gross-society-entering-age-energy-impoverishment-79381/
Chris Martenson. The Next 20 Years Will Not Be Like the Last 20 Years, 22/06/2014 http://peakoil.com/generalideas/the-next-20-years-will-not-be-like-the-last-20-years
William Rees. Avoiding Collapse: An agenda for sustainable degrowth and relocalizing the economy, CCPA, 06/2014https://www.policyalternatives.ca/sites/default/files/uploads/publications/BC%20Office/2014/06/ccpa-bc_AvoidingCollapse_Rees.pdf
Gail Tverberg. Why Standard Economic Models Don’t Work–Our Economy is a Network, 23/06/2014 http://ourfiniteworld.com/2014/06/23/wy-standard-economic-models-dont-work-our-economy-is-a-network/#more-39066
Chris Hedges. Noam Chomsky, Sócrates dos EUA, 20/06/2014http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=12624
ALVES, JED. Ascensão e queda da civilização dos combustíveis fósseis, APARTE, IE/UFRJ, 28/03/2014http://www.ie.ufrj.br/aparte/pdfs/art_115_ascensao_e_queda_da_civilizacao_dos_combustiveis_fossei s_abr14.pdf

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