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Friedrich Hegel

Fonte: Literatura Anarquista, março 2010

Em 1841 Stirner se junta aos Die Freien (Os Livres), um grupo de hegelianos de “esquerda”, ou “jovens” hegelianos que se encontravam no Hippel’s Weinstube em Berlim nos turbulentos anos de 1840 à 1845. As figuras centrais, Stirner à parte, eram Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer, David Strauss e Arnold Ruge. Membros mais jovens August von Cieszkowski, Karl Schmidt, Edgar Bauer, Friedrich Engels e Karl Marx.
Os Jovens Hegelianos formavam um grupo de intelectuais cujo tema comum era a aplicação contínua do método dialético de Hegel, antes mesmo de uma aceitação das conclusões filosóficas de Hegel. Isso se materializou em críticas radicais à religião, sendo as mais conhecidas delas Das Leben Jesu (A Vida de Jesus) de David Strauss e Das Wesen des Christentums (A Essência do Cristianismo) de Ludwig Feuerbach.

De primeira ordem na visão de mundo Jovem Hegeliana era a crença de que o método dialético de Hegel implicava que a história mundial havia atravessado dois estágios antitéticos; o do sentimento ou do materialismo da antiguidade, e depois com a época moderna da Cristandade, o estágio do pensamento, e agora cumpria ao filósofo passar à práxis sintética. Isso tudo, talvez, ficou mais claramente desenvolvido no Prolegomena a Historiosofia de Cieszkowski. Tendo isso como seus pontos focais, os Jovens Hegelianos, se tornaram politicamente radicais. Da identificação de Hegel do Real e do Racional, os Jovens Hegelianos passaram ao programa de racionalizar o real.

UMA BREVE HISTÓRIA DAS IDÉIAS DOS JOVENS HEGELIANOS

Espinosa diz, basicamente, que Deus é Pan, i.e. que poderia ser visto tanto como a Natureza, tanto como “nós”. Assim, Eu e Você somos, nesse sentido profundo, idênticos. Este tema é retomado depois por Schelling, um dos antepassados filosóficos de Hegel. Outro antepassado foi Fichte. Fichte admitiu a divisão de Kant entre Mente e Mundo, e tentou unir os dois. Para Fichte, tudo era o “Eu”. Não o meu ou o seu eu, note-se, mas um eu geral e todo-permeante, o Eu Absoluto. Quando observamos o mundo, estamos na verdade observando a nós mesmos.

Então ambos Fichte e Schelling tentaram chegar a uma unidade, um não-dualismo entre Mente e Matéria. O que Hegel veio fazer foi declarar ambas as abordagens como sendo ainda “unilaterais” demais, tentando reduzir a Mente à Matéria (como no caso de Schelling) ou a Matéria à Mente (como no caso de Fichte). Para Hegel, ambos Matéria e Mente são lados do Absoluto. Em sua síntese, Hegel uniu pensamentos religiosos bem como científicos. O desenvolvimento filosófico é o processo dialético de desenvolvimento do Espírito.

Pelo menos, assim era que se pensava. Seus discípulos, entretanto, dividiram-se em duas classes: Os Velhos Hegelianos, aqueles que com Hegel diziam que o desenvolvimento filosófico tinha chegado ao fim, e os Jovens Hegelianos que insistiam que, de alguma maneira, se devia “aplicar Hegel à Hegel”, i.e. usar a metodologia de Hegel para ir além de Hegel. São estes últimos que nos interessam.

David Strauss foi o primeiro a ser notado. Ele usou o método de Hegel para analisar o Novo Testamento e chegou à conclusão que se Deus fosse como os teólogos o dizem, então era absurdo patente Ele ser um único Cristo. O Jesus Cristo do Novo Testamento, sustentava Strauss, não passava de uma metáfora do verdadeiro Cristo, que era a própria Humanidade. A Humanidade era sua própria redentora, pois no decurso de seu progresso moral, a melhor moral teria que receber – de boa vontade! – o castigo pelos pecados da velha humanidade, moralmente inferior.

Ludwig Feuerbach o acompanha, declara que a Humanidade não apenas era o Cristo – mas também Deus. Isto foi argumentado – e muito bem, penso eu – em “A Essência do Cristianismo”, que Deus é conhecido pelo sentimento [i.e. intuição]. Mas se o sentimento é de Deus, não deveria ser Divino o próprio sentimento? Através de uma série de hábeis argumentos, Feuerbach nos leva a admitir que aquilo que significamos por “Deus” e “Divino” é exatamente o sentimento que temos dele. Parte do argumento vai no sentido de que um Deus sem predicados é um sujeito vazio, que não demanda nossa atenção. Somente através de Seus predicados é que ele possui tal demanda. E estes eram exatamente aqueles do sentimento da Divindade, aquilo que nós tomamos por “Deus”. Um argumento ulterior nos leva a que este sentimento é o verdadeiro sentimento de nós mesmos – diz Feuerbach – e da nossa essência no Homem. A reverência que temos por Deus, na verdade é uma reverência que temos pelo Homem, à espécie e à nossa própria essência.

Num ensaio sobre a reforma da filosofia hegeliana, outro importante desafio foi feito por Feuerbach, era o de que Hegel, de algum modo, não teria escapado ao unilateralismo. Hegel não levou em consideração a sensibilidade e o intelecto. Esqueceu-se de descer a Mente da “Fenomenologia do Espírito” à pessoa corporal, pensante.

É nesta última crítica que Stirner o acompanha. Em “Stirner como Hegeliano”, Lawrence Stepelevich argumenta que muito de Stirner pode ser compreendido como se lêssemos a Fenomenologia, a partir de um ponto de vista novo e aperfeiçoado, como se o “nós” presente alhures fosse na verdade o “eu” único e concreto.

Para Hegel, o Absoluto é “o poder do negativo”, i.e. aquilo que não está em determinação, mas observa e critica todo pensamento determinado – i.e. o Sujeito. Para Stirner, esta crítica, este “poder do negativo” é a consciência singular – ele mesmo, o indivíduo. Este é o significado de Der Einzige.

Mas da Mente como sendo algo diferente de nós mesmos, é que partem os Jovens Hegelianos. August Cieszkowski reforma a história mundial de Hegel para que melhor se encaixe na forma hegeliana de filosofia e a divide em Passado, Presente e Futuro. Cieszkowski argumenta que nós passamos pela Arte (o Passado), que foi um estágio de contemplação do Real, à Filosofia (o Presente), que é uma contemplação do Ideal, e desde a filosofia de Hegel, que foi a sumidade e a perfeição da Filosofia, a era da Filosofia terminou e chegou a vez de despontar uma nova era – a era da Ação.

Mas Cieszkowski faz este apelo à ação enxergando a Mente como um Outro. Em que outra coisa poderia resultar, senão num “dever”, se Ação e Vontade são um Outro? Não o “eu quero”, mas o “eu devo”. E os Jovens Hegelianos posteriores o acompanharam. Mesmo para Feuerbach, o self estava na espécie, não no homem singular. Daí é que vem o apelo para realizar a natureza da espécie. A crença de que nossa “essência” reside num coletivo levou – como não poderia deixar de levar – à ascensão de um “dever”, o qual não se pode dispor por vontade própria.

LEITURA SUGERIDA:

Lawrence Stepelevich: the young hegelians
the philosophical forum, vol. viii, nos. 2-4

Fonte:
http://i-studies.com/stirner/the_free.shtml

Acesso: Mar/2010

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