<<A escritora e ativista curda Naila Bozo entrevista Firat Jacob Tas, que fala sobre com é ser gurdo e gay, e sobre os avanços dos direitos LGBT na luta Curda por liberdade.>>

Postado em KurdishRights.org em 8 de agosto de 2014

Por Naila Bozo. Tradução do inglês por Talita Rauber.

Eu estou sentada em um sofá num pequeno dormitório, passando pelas últimas páginas da revista Vogue. Um amigo está me servindo um chá curdo que ele acabou de fazer na cozinha e que ele compartilha com outros estudantes universitários. Preocupado sobre meu chá estar amargo, ele o diluiu com um pouco mais de água. Ele é um perfeito anfitrião, um típico curdo conhecido por sua hospitalidade. Seu nome é Firat Jacob Tas, e ele concordou em conversar comigo sobre ser um curdo e gay.

Photo by Bezav Mahmod (www.bezavmahmod.com)

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Eu sempre soube que eu era homossexual, eu sempre soube… Eu prefiro dizer que eu sempre soube que eu era diferente, eu só não sabia porque eu era diferente.”

Enquanto eu crescia, eu fui entendendo que eu era diferente em relação à minha sexualidade”.

Isso foi na sétima série, eu devia ter uns 13 anos. Eu estava numa viagem de escola e eu escutei alguns meninos falando sobre filmes de adulto. Ele mencionaram “gay porn”, você sabe pornô homossexual, e eu pensei, oh, isso me interessa.”

Foi então quando isso bateu em mim. Eu ouvi a palavra ‘gay’ combinada com a parte ‘sexual’ e isso de repente fez sentido para mim. E então quando eu fui atrás do que aquela palavra significava, eu li qualquer coisa que passasse pelas minhas mãos e aquilo me golpeou: aquilo era o que eu era. Foi quando eu entendi que eu era homossexual.”

Meu pensamento inicial foi que eu não queria ser gay. Naquele momento, eu não queria ser. Eu não queria ser ainda mais diferente do que eu já era e agora poderia-me ser adicionado “homossexual” o que era sujo, imundo e simplesmente bruto.”

Eu rezei para todos os deuses, eu só queria que essa maldição fosse quebrada. Eu senti aquilo como uma maldição ou um teste vindo de um grande poder.”

Eu comecei a aceitar isso com o tempo. Foi um longo processo. Toda vez em que eu me olhava no espelho e eu olhava para dentro, eu não gostava do que eu via. Eu achava grosseiro e eu me sentia mal comigo mesmo. Eu estava escondendo esse lado de mim e eu não contava a ninguém. Eu tinha medo que eles descobrissem que eu era homossexual, ou “feminino” associado a ser homossexual. Eu tinha medo da reação das pessoas. E então, eu mantive isso escondido.”

Anos depois, eu tomei essa luta para mim. Eu tinha 19 anos e eu decidi que era tempo de eu me aceitar.”

Eu contei a um amigo(a) próximo(a) do último ano do ensino médio. Então contei para meus amigos, minha irmã, meus tios. Meio ano atrás, eu contei aos meus pais.”

Naila: E como eles reagiram?

Eu contei para o meu pai primeiro. O tempo que levou para isso foi o mais difícil de todos pelos quais já tinha passado. Mas eu queria contar. Eu não me senti pressionado. Eu contei a ele e coloquei para fora todos os meus argumentos e ele também. No final da conversa, eu perguntei a ele em curdo: Pai, você me aceita? E ele respondeu: Como eu posso não aceitá-lo? Você é meu filho.”

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Naila: Qual papel você acha que a comunidade curda LGBT pode ter na luta curda por liberdade e identidade?

Eu acredito que a comunidade LGBT pode dar uma base à luta curda para derrubar as paredes dos assuntos tratados como tabu na nossa comunidade curda. Ela pode dar um entendimento das diferenças, não só pelas diferenças religiosas e políticas, mas também da orientação sexual.”

Naila: Por que não há o mesmo apoio pelos direitos LGBT dentro da luta Curda por liberdade assim como há pelos direitos das mulheres?

Assim eu tenho que citar Abdullah Öcalan. Ele disse que um movimento sem mulheres não é um movimento. Quando você vê as mulheres no front, quando elas estão incluídas, então você tem um movimento que será bem sucedido.”

PKK(Partido dos Trabalhadores do Curdistão) teve Sakine Cansiz. Nós não podemos esquecer de que as mulheres pavimentaram o caminho [para o direito das mulheres]. A estrutura social da comunidade Curda tem sido revolucionada com atenção para os sexos mas a orientação sexual ou apenas a sexualidade não é mencionada em lugar algum.”

Naila: Por que não?

Existe essa necessidade. Mas foi só recentemente que o assunto veio à tona. Sebahat Tuncel [Membra do Parlamento Curdo na Turquia, do partido pró-curdo HDP(Partido Popular Democrático)] é uma advogada dos direitos LGBT, não só para curdos mas também no geral. Ela fala abertamente sobre isso, mas quando ela vai às regiões curdas, ela não aborda esse assunto. Isso acontece porque ainda é considerado vergonhoso, ainda é um tabu.”

Foi como nos anos 80, quando o PKK, de ideologia com a qual eu concordo, teve encontros: as mulheres locais não atenderam a esses encontros, pois os membros masculinos das famílias não as permitiram, pois não havia um quarto para elas.”

Acontece o mesmo [com o que diz respeito a colocar os direitos LGBT na mesma agenda]. Nós precisamos criar um quarto. Vimos durante as eleições locais que existem prefeitos de partidos pró-curdos que dão mensagens para pessoas da comunidade LGBT.”

Naila: “Por que no movimento curdo não tem um porta-voz sincero para os direitos LGBT que também seja LGBT?

Seria bom ter um modelo para o qual alguém poderia olhar para cima e dizer: ‘aqui estou eu, isso é o que precisamos’. No movimento Curdo falta quem possa colocar os direitos LGBT na agenda. Nos falta um porta-voz porque ainda é um tabu.”

Naila: O que você acha isso vai mudar?

Enquanto a situação estiver como agora, não, mas no aspecto social, sim. Nós vemos mais e mais pessoas curdas LGBT que avançam em vez de viverem uma vida dupla.”

Isso não é uma doença; não é algo que elas escolhem ser. Pessoas não escolhem ser lésbicas; elas não escolhem ser homossexuais. Você nasce assim.”

Assim que as pessoas Curdas perceberem e aceitarem que assim é como você nasce, assim como eles nascem heterossexuais, e aceitarem que a pessoa é igualmente um ser humano, então nós não teremos um problema.”

Eu não acho que existe a necessidade de um movimento separado dentro do movimento Curdo, mas deve-se dar mais espaço à causa LGBT.”

Naila: O que você pensa sobre os argumentos colocados por alguns Curdos de que agora não é hora de lidar com os direitos dos direitos dos Curdos LGBT? Que existem assuntos mais importantes na agenda das pessoas curdas?

E anos atrás não era hora de lidar com o direito das mullheres. Essa é a minha resposta.”

Por que você odeia algo que você não conhece? Se seu irmão não é homossexual então seu amigo é. Se sua irmã não é, então seu vizinho é.”

Nós temos que discutir essa questão agora. O problema é as pessoas não verem que é importante discutir isso. Mas nós precisamos quebrar com essa atitude. Nós podemos fazer isso ao conversa sobre, ao compartilhar informações sobre. Falar com a sua família sobre, quem sabe alguém dela é. Não estou dizendo falar sobre sexo, mas estou dizendo para falar sobre identidade.”

Homossexualidade faz parte da identidade. Minha mensagem é que nós fiquemos firmes em quem nós somos. O jeito com que nós curdos estamos firmes quanto à independência e democracia é o jeito com que devemos ficar firmes na identidade e direitos LGBT.”

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