Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

demonstrators-hold-flags-014

Por Eleanor Finley, membro do Instituto de Ecologia Social

Fonte: Institute for Social Ecology

Kobane, agosto de 2015. Em face à guerra devastadora e à violência, a juventude de Rojava procura um novo caminho para o entendimento.

Ano passado, a pequena cidade síria de Kobane e sua revolução libertadora de gênero e anti-estatal chamou a atenção da esquerda do mundo inteiro.A seguinte entrevista foi feita com um jovem revolucionário de Kobane, Sherhad Naaima, que também é um estudioso do pensamento de Ocalan.Esta entrevistra nos dá uma ideia das suas experiências assim como nos convida à uma reflexão sobre a revolução em Rojava,ecologia social e a recente traição da Turquia ao movimento curdo.

P: Como foi pra você crescer na região ocidental do Curdistão?O que sua família faz?

R: Nasci numa família curdas em 1991 numa aldeia nos arredores de Kobane.Kobane faz parte da província de Aleppo na Síria.Meu pai não conseguia encontrar trabalho em Kobane,por isso mudamos para Damasco.Lá estudei literatura inglesa na Universidade e meu irmão mais velho se formou em jornalismo.Assim que a guerra e a violência explodiram,largamos os estudos e voltamos para nossa aldeia.

P: Em Kobane,o PYD tem tentado estabelecer comunidades autônomas através da democracia direta em assembleias.Poderia nos contar sobre isso?

R: Em 2011,o povo se revoltou contra a ditadura de Assad exigindo liberdade.Os curdos participaram da revolução,mas a oposição queria resolver a crise sem contemplar as demandas do povo curdo.O PYD optou por uma 3ª via para a revolução,isto é,não apoiamos nem o governo sírio nem a oposição porque ambos têm a mesma mentalidade:negar direitos ao povo curdo.

Em 2012,nós expulsamos as forças de segurança sírias das áreas curdas.Para preencher o vácuo de poder que as forças deixaram,o PYD propôs um modelo de autogestão.É esse o modelo que vem funcionando agora em todo o Curdistão Ocidental.Nos 3 distritos de Cesire,Kobane e Afrin.Esse tipo de administração pode ser chamado de administração não-estatal,porque ele não governa,apenas administra.O poder de decisão vem de baixo para cima.Todo mundo pode se expressar e tomar decisões em assembleias locais abertas a todas as etnias e partidos.Ecologia e feminismo são pautas importantes.

P: Você já participou de alguma assembleia?Elas são muito difundidas?

R: Em primeiro lugar,as pessoas estabelecem assembleias locais em todos os âmbitos:economia,educação,cultura,segurança e serviços públicos.Essas assembleias são estabelecidas por democracia direta,a política tornou-se parte da vida de todos.Eu participei das assembleias traduzindo artigos do inglês para o árabe quando vivia em Kobane.

É importante notar que uma sociedade sem nenhum sistema de autodefesa perde sua identidade e sua capacidade de tomar decisões democráticas.Pesando nisso, Unidades de proteção ao Povo(YPE) foram estabelecidas.Esse exército popular é como a rosa que se defende com espinhos:é formado por homens e mulheres locais e está sob controle das assembleias.A diferença entre as unidades de proteção e um exército de verdade é que elas não são formadas por um grupo só,mas por pessoas comuns da comunidade.Colocar um exército sob o controle de um só grupo é como por um bife na frente de um gato faminto.

P: Como você aprendeu ecologia social?

R: Em 1999,quando Ocalan foi capturado no Quênia minha vida deu uma guinada.No começo foi uma experiência muito deprimente,mas foi devido a ela que eu comecei a me interessar por política e pela questão curda.

Depois que ocalan foi confinado numa solitária na Ilha de Imrali,ele passou a maior parte de seu tempo lendo livros de política e filosofia no esforço de encontrar uma solução pacífica para a questão curda.Na prisão,ele foi influenciado por grandes filósofos e pensadores como Murray Bookchin,Immanuel Wallerstein,V.Gordon Childe,Fernand Braudel,Friedrich Nietzsche,Michel Foulcault e a escola de Franfurt.Quando li os livros que Ocalan escreveu durante sua prisão,tomei conhecimento das ideias desses pensadores que o influenciaram,especialmente Boochin porque ele oferecia a solução que Ocalan estava procurando.Desse modo,as ideias de Boochin estão ganhando popularidade no Oriente Médio através do PPK na Turquia e do PYD na Síria.Apesar disso,como indivíduo ele não é tão conhecido porque seus livros não foram traduzidos para o árabe.

P: Qual é,do seu ponto de vista,a principal contribuição da ecologia social para o movimento?

R: Nestes últimos dois séculos,o nacionalismo e sua tendência à formação de estados nacionais foi estimulado no Oriente médio.Essa forma de Estado,que busca a monopolização de todos os processos sociais foi imposta ao Oriente Médio pela modernidade capitalista.Uma vez que o Estado nacional busca criar uma única identidade nacional,uma única cultura e uma única religião unificada,a diversidade e a pluralidade têm de ser obliteradas.Esta abordagem tem levado à assimilação e ao genocídio de todo o tradição espiritual,cultural e intelecutal.Ainda assim,essa forma de Estado não poderá nunca resolver as questões do Oriente Médio porque o Oriente Médio é multi-étnico,multi-cultural e multi-religioso.

No passado,o movimento curdo procurou formar um Estado curdo,no entanto,com a leitura das ideias de Bookchin,esta orientação mudou.Os/As curdos(as) tomaram consciência de que o Estado nacional não faz sentido.Eles(as) não querem trocar as velhas correntes por novas nem aumentar a repressão.A ecologia social fez avançar o Comunalismo(aspecto político das ideias de Boochin)como uma alternativa ao Estado nacional.Agora,as/os curdas/as do Curdistão Ocidental estão pondo em prática o Comunalismo.Quanto mais o Comunalismo se fortalece,mais o Estado nacional encolhe e,a menos que o Oriente Médio supere a noção de Estado,nunca vai haver paz na região.

P: Por que a Turquia está traindo o acordo feito com os/as curdos/as?

R: Para entender porque a Turquia,com o apoio dos EUA e da OTAN,está atacando o Movimento Curdo pela Liberdade,temos que voltar ao passado do Estado Turco.Nos anos 1960 e 1970,quando a esquerda se fortaleceu e se espalhou pela Turquia,os EUA e a OTAN estabeleceram e apoiaram um novo modelo na Turquia,o “Verde Turquesa”,que é a união entre o nacionalismo e o autoritarismo islâmico.Mais tarde o Verde Turquesa teve um filho monstro,o AKP(o Partido da Justiça e do Desenvolvimento,do presidente Erdogan da Turquia).Seu principal objetivo é combater e esmagar a esquerda na Turquia e no Oriente Médio.Agora,a Turquia não está apenas atacando a oposição curda,mas também toda a esquerda,especialmente aquela com uma teoria coerente que busca uma alternativa democrática para o Oriente Médio.Esquerda Internacional tem que estar ciente desse fato.

P: Como as diferenças internas entre os/as curdos/as se desenrola no Ocidente?Barzani no Iraque e o PYD(Partido União Democrática) na Síria tem amplo apoio dos EUA e seus aliados,ao passo que o PKK(Partido dos Trabalhadores do Curdistão) na Turquia é demonizado por procurar a mesma autonomia.

R: As dferenças internas entre o povo curdo pode ser entendida em duas partes.Uma delas:o PKK e o PYD estão abos lutando contra o capitalismo e tentando chegar a um modelo democrático desmantelando a mentalidade estatal.Este novo modelo é movido pela herança de livre-pensadores e filosofias ao longo da hstória.A outra parte:Barzani aceita o Estado e busca resposta dentro do quadro de referência do capitalismo.A diferença é ideológica.Entretanto,é importante afirmar que existe ainda traços autoritários dentro do PKK e PYD que devem ser superadas com a leitura cuidadosa dos trabalhos de Ocalan e outros pensadores anarquistas.

P: Por que a esquerda ocidental não oferece maior apoio à luta do povo curdo?

R: Eu acho que a esquerda trabalha e age dentro da epistemologia capitalista(cientificismo,orientalismo,reducionismo,eurocentrismo,positivismo etc).Essa epistemologia é baseada na distinção sujeito-objeto e se reflete em várias dicotomias como corpo-espírito,preto-branco,ocidente-oriente,norte-sul etc.Sob essas distinções,hierarquia e exploração ganham mais poder que em épocas anteriores na história.A esquerda então aborda a questão curda com uma epistemologia capitalista e,por causa disso, falta de um entendimento mais profundo da questão..Outro resultado é que a esquerda é fragmentada,sem uma teoria racional que unifique a luta e que a torne uma alternativa ao sistema capitalista mundial.É muito triste dizer isso,mas a esquerda é esquerda apenjas no coração porque a cabeça está cheia de concepções capitalistas.

P: Você pode dar exemplos?

R: Sim.Americanos e europeus não ficaram surpresos em ver mulheres curdas lutando?Isto é porque em suas mentes o Oriente Médio é “atrasado” e essa dualidade oriente/ocidente é a raiz do orientalismo.Para superá-lo,devemos encarar a sociedade como um processo orgânico de desenvolvimento.A história é um rio,não pode ser barrada.Não temos ocidente e oriente,mas uma só história que se move e carrega toda a cultura humana.

Para romper com a epistemologia capitalista a esquerda precisa mergulhar mais fundo na história e reviver sua própria tradição de liberdade e o ideal de uma utopia de libertária.A partir daí,deve-se construir uma teoria holística dada pela unidade das ciências humanas e naturais.Esta nova teoria pode ser chamada de epistemologia da liberdade e pode servir como um contraponto à epistemologia capitalista.

Eleanor Finley é pesquisadora etnográfica trabalhando em antropologia e ecologia política.Atualmente ela é estudante de graduação na Universidade de Massachusetts,Amherst,além de ser membro do Instituto de Ecologia Social.

Traduzido por Valter Augusto​/ Coletívo Anarquia Ou Barbárie

Anúncios