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Da direita para a esquerda: Isbel, Mario e Jimmy. Foto: Gabriel Uchida

Fonte: Vice

por Gabriel Uchida 

Sábado cedo em Havana. Perto da Praça da Revolução, o biólogo Isbel Torres chega de bicicleta trazendo uma cesta de vegetais. Ele vai preparar um almoço vegetariano para todos. O optometrista Jimmy Roque, companheiro de Isbel, nos espera na casa onde vivem juntos. Um casal gay e anarquista que mora em um local ocupado, talvez nada pudesse desagradar mais o governo cubano. Logo chega o historiador Mario Castillo. Todos são integrantes do coletivo anarquista Taller Libertário Alfredo López, nome dado em homenagem a um anarcossindicalista cubano. Desde 2010 o grupo realiza debates, protestos e ações direta na ilha. Pelo teor da conversa, a entrevista tem que ser feita em um tom de voz um pouco baixo, já que outras famílias também ocupam partes do que antes era um centro cultural abandonado.

Marcha do 1 de Maio. Foto: Coletivo Taller Libertário Alfredo López

VICE: Quando começou o Taller Libertário Alfredo López e o que vocês fazem?Mário: Nossa primeira atividade foi em 25 de abril de 2010 para organizar a participação na marcha do 1 de maio. Fizemos um encontro para falar das origens anarquistas da data e depois preparamos cartazes para a marcha. Tínhamos um grupo com afinidade em questões libertárias e começamos a partir deste dia.

Isbel: Já fizemos vários encontros para tentar impactar de alguma maneira a comunidade e levar parte da história do movimento anarquista e anarcossindicalista em Cuba. Resgatamos, por exemplo, a história e o lugar onde desapareceu Alfredo López. Dificilmente na escola vão lhe dizer que foi um líder anarcossindicalista, dizem que foi um líder dos trabalhadores ou até que foi comunista.

Como é ser anarquista em Cuba?
Isbel: Acho que o mais interessante é ter que se inventar. Muitos países tem tradição no anarquismo, mas em Cuba isso foi totalmente extirpado do imaginário político, as referências são quase nulas. Aqui, quando se vira anarquista, nem mesmo sabe que tem esse nome.

Jimmy: É difícil, já me custou um trabalho, fui demitido só por ser anarquista.

E como souberam?
Jimmy: Eu mesmo falei.

Além do tradicional “A”, eles pintam setas à esquerda. Foto: Coletivo Taller Libertário Alfredo López

Como estavam os anarquistas na revolução? Ao lado de Fidel Castro?
Mario: Os anarquistas cubanos desde cedo já conheciam a verdadeira cara de Fidel. Boa parte já sabia das intenções politiqueiras de Castro e toda a sua mentalidade nacionalista e megalomaníaca, era alguém disposto a fazer qualquer tipo de aliança para chegar no poder.

E depois da revolução, o que aconteceu com os anarquistas cubanos?
Mario: Foram logo acurralados. Os anarquistas foram uma das frentes preferidas de combate do governo revolucionário. Houveram fuzilamentos, prisões e alguns foram exilados.


Panfletagem no local onde morreu Alfredo López. Foto: Coletivo Taller Libertário Alfredo López

Já na década de 80 existem relatos de um grupo libertário chamado Zapata, que alguns teriam ficado na prisão até morrer. O que aconteceu com eles?Mario: Já busquei as famílias, os sobrenomes e sei que alguns eram de San Cristóbal e Los Palacios, mas não encontrei nada. Parece que por efeito de medo e por um momento até cheguei a pensar que era apenas uma invenção de gente que buscava história de anarquismo em Cuba. Em mais de dez anos de pesquisa, continuo no mesmo lugar, sem informações. Depois da revolução, os comunistas tem o controle dos aparatos de cultura e educação, assim, criaram uma nova memória histórica de Cuba onde eles são os protagonistas. Isso causou um estrago porque esvaziou toda a memória de luta social no país.

Já que o governo consegue contar a história da maneira deles, vocês não tem medo de que daqui 20 ou 30 anos aconteça o mesmo e ninguém saiba nada do Taller Libertário Alfredo López?
Isbel: Estamos falando de circunstâncias diferentes. Agora temos a possibilidade de contar nossa história cotidiana e parte do nosso trabalho é documentar tudo, fazer visível para que outros países como Brasil, França, Alemanha também saibam da nossa existência.

E como um jovem cubano conhece o anarquismo se não há livros e a história oficial não fala disso?
Mario: Ou não conhece ou por pura casualidade. É possível que as novas tecnologias nos ajudem, na internet as pessoas também podem encontrar alguns trabalhos nossos.

Leitura de poesias no parque organizada pelo Taller Libertário Alfredo López. Foto: Coletivo Taller Libertário Alfredo López

A imprensa cubana é muito controlada, como é ter uma só voz no país?
Mario: É só mais uma ferramenta do Estado para o processo de estatização do imaginário social. Ver televisão está se convertendo em um atitude política em Cuba. Entre os mais jovens significa que você faz parte do sistema e se deixa doutrinar. As pessoas se perguntam: “Porque você assiste essa merda?”.

Vejo que os jovens cubanos hoje tem muito mais proximidade com Cristiano Ronaldo e Neymar do que com Fidel. Porque?
Mario: Pessoalmente acho que os que controlam o país sabem do desgaste que estão tendo seus mitos, referências e símbolos. E estão canalizando essa crise a outros mitos que sejam menos danosos a eles, eu acho que estão bem conscientes dessa crise simbólica que passam.

Isbel: O sistema está esvaziado no sentido de uma perspectiva jovem. Onde estão os códigos de beleza e êxito? No capitalismo. Criaram uma sociedade tão chata que todas as imagens de sucesso e beleza são buscadas lá fora, ou seja, essa sociedade não tem capacidade de criar tais referências.

Mario: Se as referências que os jovens buscam são inofensivas para o status quo, não há problema para o governo. Eles pensam a curto prazo, não ligam para o que vai acontecer em Cuba em 20 anos.

E o que vai acontecer em 20 anos?
Mario: Vai ser um país “normal”, capitalista, com ultra ricos, bairros gentrificados, racismo, ambientalmente destruído.

Qual a opinião de vocês sobre as mudanças de um possível fim do embargo econômico dos EUA?
Isbel: O governo dos EUA vai mudar as estratégias para conseguir o mesmo. Essa relação vai converter Cuba no que era antes da revolução – um lugar para lazer e turistas. E isso significa um impacto tremendo para o meio ambiente, por exemplo. Toda a costa já está sendo preparada para ser mais explorada e para receber mais cruzeiros. Esse turismo vai depredar Cuba.

Após a revolução, todos tem casa, saúde, estudo. Até que ponto isso é verdade?
Isbel: O problema da moradia é um dos mais graves. Há pessoas que perderam suas casas por conta de um ciclone em 2005 e ainda não tem onde morar, estão em albergues. Além disso, o normal é viver três gerações na mesma casa, o que gera grandes conflitos familiares. Imagina para a comunidade LGBT, como é difícil viver em lugares assim se os demais não lhe aceitam.

Mario: E já existem favelas nas capitais das províncias. Quando você passa de trem por Camagüey, dizem aos passageiros para que acordem e fechem as janelas porque podem ser assaltados durante a noite. E a educação foi universalizada, todos tem acesso, mas também foi totalmente estatizada e subordinada aos interesses de uma elite ministerial. É uma educação autoritária e com muita propaganda.

Jimmy: Na saúde há muita burocracia, é muito difícil chegar a uma consulta especializada porque tem que conseguir muitos papéis.

Mario: A fonte de capitalização mais importante do Estado hoje são os médicos cubanos para outros países como Brasil e Venezuela. Isso gera um processo de compactação do sistema de saúde nacional.

Isbel: A prioridade é exportar médicos, por isso muitos consultórios aqui ficam sem profissionais. Não é que Cuba está movida por um sentimento humanitário, só está enviando médicos a lugares onde tem mais dinheiro.

Central de Trabalhadores de Cuba traidores! Foto: Coletivo Taller Libertário Alfredo López

Em alguns momentos vocês não se sentem muito próximos da direita em suas reivindicações?
Isbel: Acho que sim, mas é uma questão de perspectiva. A dissidência nacional cubana, a direita, é uma oposição que não tem muitas propostas. Eles respondem a um sentido comum com demandas muito simples de direitos humanos e liberdades democráticas, basicamente tentando normalizar cuba como os demais países do mundo. Há muitos elementos que também reivindicamos, como a liberdade de expressão, os direitos humanos, mas o problema é o país que você imagina para o futuro. Para a direita se trata de criar um país “padrão”, mas para nós significa uma mudança radical de paradigma de desenvolvimento e emancipação mais plena. A dissidência apenas critica a velocidade das mudanças, querem que sejam mais rápidas. Para nós o problema não é a velocidade, mas o sentido da mudança, para onde vai tudo isso – e nisso há uma diferença radical entre nós.

O que é pior para Castro, um capitalista ianque ou um anarquista cubano?Jimmy: Um anarquista cubano, obviamente. Porque o outro tem o mesmo pensamento do Castro.

E o que é pior para um anarquista cubano, um capitalista ianque ou um comunista como Castro?
Mario: Nenhum dos dois são úteis para a sociedade em que sonhamos.

Isbel: O modo como você pergunta supõe uma dicotomia, mas não existe isso. Dentro da perspectiva anarquista, as duas opções são iguais. O próprio Estado cubano já está criando espaços onde ele mesmo está se retirando e dando toda a possibilidade ao grande capital estrangeiro. Um exemplo é o porto de Mariel, feito com investimentos do Brasil e que é justamente um futuro espaço de exploração direta do trabalhador.

Mario: Não existe um conflito, é o mesmo. São perfeitamente aliados. Para abrir uma pequena empresa capitalista aqui, você vai no órgão do município e lhe dão permissão. Mas para criar uma cooperativa tem que pedir permissão ao Conselho de Estado, a máxima instância do governo, que talvez nem lhe conceda nada. Ou seja, o governo cubano confia mais no capitalista do que na autogestão dos trabalhadores.

Marcha do 1 de Maio. Foto: Coletivo Taller Libertário Alfredo López

E como é a repressão do governo cubano?
Isbel: Não temos experiências de forte repressão, o que temos é constante vigilância de casas, telefones, e-mails. Isso não é porque suspeitamos, temos provas. Em 2009 houve uma marcha contra a violência em Havana e no ano seguinte, usando apenas nossos telefones, convocamos outra marcha na mesma data. Mas tudo era falso, era só para zoar a segurança do Estado. Passamos no local de encontro e estava todo o dispositivo de segurança ocupando o lugar.

Mario: Depois de 50 anos de institucionalização do medo, já não faz muita falta a repressão explícita. O medo já está instalado na sociedade, isso já é suficiente. Assim como a polícia do Brasil tem cassetetes e gás de pimenta, eles também têm o mesmo aqui, mas sabem que não têm grande necessidade de usar.

Foto: Coletivo Taller Libertário Alfredo López

O que acontece se a polícia nos encontra aqui, três anarquistas e um jornalista internacional?
Isbel: Não acontece nada.

Mario: Pode acontecer qualquer coisa.

Jimmy: Um dia trancado na cadeia, talvez.

Isbel: Justamente porque não sabemos o que pode acontecer já lhe dá a ideia do tipo de país que vivemos. A estrutura do poder não funciona exatamente na legalidade, eles tem um proceder deles, agem como entendem.

 

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