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Tradução para o castelhano: @rebeldealegre

Tradução para o Português: Anarquia ou Barbárie ( @anarcoubarbarie )

Fonte: A las Barricadas

Admoestamo-los de imediato: os anarquistas não têm demonstrado estar à altura das circunstâncias. [1]

Vendo melhor a revolta de Carrara, que foi prova de sua valentia e compromisso com a causa, mas também das deficiências em sua organização, os anarquistas haviam apenas avaliado uma menção em relação à convulsão popular na Sicília e em toda Itália.

Depois de todo falatório sobre a revolução, ela estava diante dos nossos olhos e nos encontramos desconcertados e permanecemos nada mais que inertes.

Pode ser uma admissão dolorosa, mas não dizer nada e escondê-lo seria equivalente a uma traição à causa e persistir nos erros que nos levaram a este ponto.

É a hora de repensar!

Como vemos, a principal razão das nossas deficiências é o isolamento em que caímos fundamentalmente.

Por uma gama de razões que seria muito difícil de relatar aqui, seguindo à separação da internacional, os anarquistas perderam contato com as massas e se reduziram gradualmente a pequenos grupos somente preocupados com discussões intermináveis e, tolice!, destruir-se uns aos outros ou, comumente, fazer uma pequena guerra contra os socialistas legalitários.

Em diversas ocasiões, fez-se um esforço por retificar essa situação, com diversos graus de êxito. Porém, justo quando parecia que podíamos retomar os trabalhos sérios e de massa, surgiam uns quantos companheiros que, por uma intransigência desatinada, faziam do isolamento uma virtude e – assistidos e induzidos pela ociosidade e timidez de tantos outros, que encontravam em tal “teoria” uma boa desculpa para não fazer nada e não se arriscar – conseguiram nos encaminhar de volta à impotência.

Graças ao trabalho daqueles companheiros – muitos dos quais (comprazemo-nos em reconhecer) se guiam pela melhor das intenções – o trabalho de propaganda e a organização tornaram-se impossíveis.

Queres unir-te a uma organização de trabalhadores? Maldição! Essa associação tem um presidente, estatutos e não se guia pelos princípios anarquistas. Todo bom anarquista deve evitá-la como a uma praga.

Queres estabelecer uma associação de trabalhadores para habituá-los à solidariedade na luta contra os patrões? Traição! Um bom anarquista deve somente entrar em associação com crentes anarquistas, o que quer dizer que sempre deve estar na companhia dos mesmos companheiros e, caso se encontre associações, tudo o que pode fazer é atribuir-lhe nomes a partir de um grupo composto pelas mesmas pessoas sempre.

Vás organizar e apoiar greves? Enganos, paliativos!

Tentarás a sorte em protestos e campanhas populares? Tolices!

Em resumo, somente se consegue por meio de propaganda a conversa ocasional, ignorada pelo público a menos que intervenham os dotes excepcionais de oratória de quem fala; alguma coisa impressa, sempre lida pelo mesmo círculo de pessoas; e a propaganda pessoa-a-pessoa, se é que se pode encontrar alguém disposto a ouvir-te. Isso e mais um monte de falatório sobre a revolução – uma revolução que, predicada dessa maneira, parece com o paraíso dos católicos, uma promessa para mais além que te anestesia em uma inércia satisfatória enquanto creias, e deixa-te incrédulo e egoísta quando a fé se evapora.

Entretanto, as pessoas ao nosso redor possuem e se guiam por outras convicções; e os socialistas legalitários obtêm melhor resultados que os nossos e com frequência têm êxito, mesmo em países como Itália, onde o socialismo foi primeiramente proclamado e popularizado por nós e onde nos jactamos de estar distantes de tradições vergonhosas de luta e cheios de sacrifício repleto de consistência e orgulho.

Esta é uma tática letal, equivalente ao suicídio. A revolução não se faz atrás de portas fechadas. Indivíduos e grupos isolados podem levar a cabo um pouco de propaganda; audazes coup de main [“golpe de mão”], bombardeios e similares, caso se façam com astúcia (o que nem sempre é o caso), podem chamar a atenção do público para quem são os inimigos do povo e de nossas ideias; podem fazer-nos ganhar a distinção de vingadores do povo, e podem livrar-nos de algum grande obstáculo, mas a revolução vem somente quando o povo tiver saído à rua. E se queremos fazê-la, devemos ganhar a multidão, tanto quanto pudermos.

Além disso, estas táticas isolacionistas se opõem aos nossos princípios e à causa pela qual lutamos.

A revolução, do tipo que temos em mente, deve ser o começo da ativa, direta e genuína participação das massas, ou seja, de todos, na organização e funcionamento da vida em sociedade. Se por algum motivo inesperado a revolução pudesse ser feita por nós sozinhos, não seria uma revolução anarquista, pois então seríamos os senhores e o povo, estando desorganizado e, portanto, impotente e inconsciente, esperaria nossas instruções. Neste caso toda anarquia se reduzirá a uma declaração vazia de princípios, ainda que, na prática, houvesse ainda uma pequena facção fazendo uso da força cega das massas inconscientes, utilizada para assim impor as ideias da facção – e essa é a essência própria da autoridade.

Só imaginem que amanhã, por meio de um coup de main, pudéssemos derrotar o governo por nossas próprias forças, sem envolver as massas e que pudéssemos conservar o controle da situação. As massas, que não teriam tomado parte na luta e não teriam provado a potência da sua força, aplaudiriam os vencedores e permaneceriam inertes enquanto esperam que nós lhes proporcionemos todo o bem-estar que lhes prometemos.

Então, o que fazemos? Ou assumimos uma ditadura de fato, o que seria assumir que o nosso ideal anti-governo é impraticável e confessar que fracassamos como anarquistas; ou faríamos por covardia a grande recusa [2], retrocederíamos declarando nossa abominação pelo mandato e deixaríamos que nossos adversários tomassem as rédeas da situação.

Foi isto que ocorreu, por razões diferentes, aos anarquistas espanhóis no levante de 1873. [3] Devido as circunstâncias estranhas, acharam-se senhores da situação em vários povoados, como Sanlúcar de Barrameda e Córdoba. O povo não se moveu por conta própria de forma alguma e esperou que alguém lhes dissesse o que fazer; os anarquistas declinaram do encargo, pois conflitava com seus princípios… Com isso, primeiro ocorreu o contragolpe republicano e em seguida a reação monarquista, que reinstaurou o antigo regime, desta vez agravado por massivas perseguições, prisões e massacres.

Vamos entre o povo: essa é nossa única salvação. Mas não vamos entre eles com a arrogância petulante de quem clama ter a verdade infalível e, do lugar de sua suposta infalibilidade, importa-se menos com quem não apoia suas ideias. Vamos e irmanemo-nos com os trabalhadores, lutemos com eles e sacrifiquemo-nos com eles. Se vamos para ganhar o direito e a oportunidade de demandar do povo o tipo de compromisso e espírito de sacrifício requerido nos grandes dias da batalha decisiva por vir, necessitamos provar-nos aos olhos do povo e demonstrar que não temos comparação quando se trata de coragem e auto sacrifício em suas pequenas e cotidianas lutas. Entremos a todas as associações de trabalhadores, estabeleçamos tantas quanto possamos, entreteçamos federações cada dia maiores, apoiemos e organizemos greves e divulguemos em todas as partes e por todos os meios o espírito de cooperação e solidariedade entre os trabalhadores, o espírito de resistência e luta.

E tenhamos cuidado de não desgostar somente porque os trabalhadores com frequência não compreendem ou não abraçam todos os nossos ideais e de não conservar antigos hábitos e antigos prejuízos.

Ao fazer a revolução, não podemos e recusamos-nos a esperar que as massas se voltem completamente socialistas anarquistas. Sabemos que, enquanto dure a atual ordem econômica e política da sociedade, a vasta maioria da população está condenada à ignorância e ao embrutecimento e tem capacidade somente para rebeliões medianamente cegas. Necessitamos desmantelar essa ordem, fazendo a revolução da melhor maneira que possamos, com os recursos que sejam possíveis reunir na vida real.

Muito menos podemos esperar que os trabalhadores se tornem anarquistas antes que disponhamo-nos a organizá-los. Como poderiam, se lhes abandona a própria sorte, lutando contra o sentido de impotência que vem do seu isolamento?

Como anarquistas, devemos nos organizar entre nós, entre pessoas que estão perfeitamente convencidas e perfeitamente em acordo; e, em torno de nós, em amplas e abertas associações, devemos organizar a tantos trabalhadores quanto possamos, aceitando-os como são e esforçando-nos para impulsioná-los o máximo que possamos.

Como trabalhadores, devemos sempre estar ao lado de nossos companheiros no cansaço e na desgraça.

Recordemos que o povo de Paris começou demandando pão ao rei em meio a aplausos e a ternas lágrimas e, em dois anos, tendo-lhes oferecido – como era de se esperar – as suas amarras em vez de pão, cortaram a cabeça dele. E recentemente o povo de Sicilia estava a ponto de fazer uma revolução, apesar de aplaudir ao rei e a toda a sua prole.

Aqueles anarquistas que se opuseram e esquivaram-se do movimento “fasci” somente porque não estava organizado de modo que tivéssemos preferido – porque o fasci se denominava muitas vezes “Maria Imaculada”, ou porque tinham um busto de Marx em vez de Bakunin em seus salões, etc. – provaram que não tinham nem sentido nem espírito revolucionário.

Não temos misericórdia – longe disso! – para quem mancha tudo com veneno parlamentar e reduz tudo a assunto de candidatura e para quem (atuando de boa ou má fé, não nos importa) quisera converter as massas em um rebanho flutuante. Mas por acaso aconselhar a dispersão e deixar todas as forças organizadas do proletariado em suas mãos não equivale a acompanhar aos ditos aspirantes a deputado e, ainda pior, jogar o jogo da burguesia e do governo?

Avaliemos a situação. Estes são tempos solenes. Chegamos a um daqueles momentos cruciais na história humana em que uma era completamente nova se inicia. O êxito e a orientação da revolução por vir depende de nós, que temos inscrito em nossas bandeiras as redentoras e inseparáveis palavras “socialismo” e “anarquia”.

NOTAS

[1] Traduzido de “Andiamo fra il popolo”, L’Art. 248 (Ancona) 1, no. 5 (4 de febrero de 1894). Em 1893, o movimento Fasci espalhara-se pela Sicília – “fasci” é plural de “fascio” (feixe, conjunto), um termo que simboliza a força da união e que nada tem haver com o movimento Fascista posterior, senão etimologicamente. Foi um movimento de campesinos, mineiros e trabalhadores que começou com demandas econômicas, mas escalou uma revolta, com greves, ataques a dependências da cidade, destruição de alfândegas e boicote ao pagamento de impostos. Dezenas de trabalhadores foram massacrados pelas forças armadas. Em 4 de janeiro de 1894, foi declarado estado de sítio em Sicília e começou uma dura repressão. Em resposta, ocorreram protestos em várias cidades italianas, cujo ápice foi um levante ocorrido no bastião anarquista de Carrara, onde se declarou eventualmente também o estado de sítio. Malatesta havia apoiado fortemente o movimento Fasci desde seu começo e, no início do ano de 1894, abandonou seu exílio em Londres para ingressar clandestinamente na Itália. O presente artigo, escrito enquanto Malatesta estava ainda na Itália, trás um balanço das agitações por parte do movimento anarquista italiano. O periódico onde apareceu o artigo foi ironicamente nomeado pelo artigo do código penal concernente à “associação criminosa”, usado comumente contra anarquistas.

[2] Esta é uma passagem da Divina Comédia, de Dante Alighieri (Inferno, III, 60), Sobre Celestino V, que abdicou do papado em 1294.

[3] A referência é ao movimento federalista conhecido como “cantonalismo”, que nasceu após a proclamação da primeira república. Logo que o presidente Pi y Margall jurara guiar o país a uma administração descentralizada, muitas grandes cidades ao sul da Espanha assumiram sua independência e se declararam cantões livres. Mesmo que a Internacional como organização tivesse condenado por uma resolução toda atividade política, os anarquistas se envolveram em certas atividades independentes.

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