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Por Rodrigo Silva

O objetivo desse texto é mostrar o contexto histórico e as perspectivas do nosso trabalho de solidariedade à resistência popular curda. Vou tentar ser didático,me perguntem se ficar muito confuso.

A Guerra

A revolução de Rojava (19 de julho de 2012) só foi possível no contexto da guerra civil síria. Em março de 2011, como parte das revoltas populares que formaram a Primavera Árabe, o povo sírio se levantou contra o governo de Bashar Al-Assad, que está no poder desde 2000, sucedendo o seu pai, Hafez Al-Assad (1971-2000).

Como em vários casos de governos da região, era um regime nacionalista burguês, ou seja, que tomava medidas de fortalecer o mercado interno e a indústria nacional, entrando algumas vezes em conflito com as potências imperialistas. E antidemocrático: o núcleo do poder era a família Al-Assad e a minoria religiosa alauíta, que é uma dissidência do Islã xiita. Depois do fim do campo da URSS, o governo sírio se tornou neoliberal.

Os protestos pacíficos de 2011-2012 foram duramente reprimidos, e o conflito acabou se transformando numa guerra civil que se arrasta até hoje, causando mais de 220 mil mortes. As partes em conflito são:

  • o governo,
  • setores da oposição civil, que corresponde a várias forças políticas, desde o Conselho Nacional Sírio (ligado aos EUA) até os Comitês Locais de Coordenação (que são organizações de base), até setores fundamentalistas islâmicos,
  • setores militares, dos quais os principais são a Jabhat al-Nusra (Al Qaeda na Síria), Arhat al-Sham e, finalmente o ISIS (Estado Islâmico, um racha da Al-Qaeda), enquanto a oposição liberal armada é o Exército Livre da Síria, que é muito heterogêneo, tendo desde unidades nacionalistas até a maioria, que é praticamente controlada pelos EUA.

Todas as potências regionais estão intervindo na guerra civil. O Irã, através do Hibollah/Líbano, está apoiando Assad, assim como a Rússia. Os dois tentam contrabalançar a influência americana na região, já que os EUA apoiam o CNS e os aliados dos EUA, Arábia Saudita e Qatar, apoiam os grupos fundamentalistas.

A partir de 2012, com a militarização do conflito, os setores fundamentalistas passaram a ter hegemonia quase total sobre a oposição a Assad.

A questão étnico/religiosa envenena mais ainda o conflito, porque parte da população síria,que é, em sua maioria muçulmana sunita, vê a luta contra a oligarquia alauíta como um conflito religioso. Isso tem levado setores não necessariamente pró-Assad, como os xiitas, drusos (outra dissidência do xiísmo) e cristãos, a serem contra a oposição, com medo de sofrerem perseguição religiosa se os sunitas tomarem o poder.

As divergências entre as seitas do Islã lembram um pouco as diferenças entre católicos e protestantes. A cisão entre sunitas e xiitas aconteceu após a morte de Muhammad (Maomé), e se deu em torno de quem deveria liderar a Umma (a comunidade muçulmana). Para os sunitas, qualquer muçulmano poderia ser escolhido como califa (regente), enquanto os xiitas diziam que o representante deveria ser da família de Muhammad.

O sunismo logo se tornou a religião das elites do califado, e é baseado numa interpretação mais legalista da religião (formas de orar, como praticar caridade, como se vestir e comportar etc), enquanto o xiismo se identificou com os setores mais pobres e tem um aspecto mais messiânico (é muito importante para os xiitas o retorno do Imã Mahdi, junto com Jesus Cristo, para julgar o mundo).

No mundo atual, essa divisão religiosa se transformou, no Oriente Médio, em uma divisão política, entre os sunitas, ligados à Arábia Saudita (que abriga a cidade sagrada de Meca, para onde anualmente os muçulmanos do mundo todo vão peregrinar), e os xiitas, ligados ao Irã, que desde 1979 é uma república islâmica com um regime xiita.

Os fundamentalistas são os setores que querem que as leis religiosas islâmicas (sharia) sejam a base do Estado. Entre eles, o ISIS é o mais extremista, porque eles se consideram a restauração do califado sunita estabelecido após a morte de Muhammad.

Entre todas essas forças, está o PYD (Partido Democrático da União), que é o partido sírio ligado o PKK curdo.

O PKK

O PKK foi criado em 1984 por Abdullah Öcallan, como um partido guevarista para lutar por um Estado curdo. Na época, era uma organização muito autoritária, com um forte culto à personalidade do seu dirigente, e métodos brutais, como alistamento forçado, assassinato de civis e lavagem de dinheiro do tráfico de drogas para financiar o partido.

Em 1999, Öcallan foi preso e, na prisão, influenciado pela derrota provisória da luta armada do PKK e pelo fim da União Soviética, começou a fazer uma autocrítica profunda das suas concepções políticas. Através de leituras do anarquista Murray Bookchin, a direção do PKK, e depois todo o partido, passou a defender uma teoria chamada de confederalismo democrático. Ou seja, eles defendem a criação de um poder popular formado por uma confederação de cidades, cada uma controlada por assembleias de bairro.

Ainda dentro da autocrítica, o PKK se tornou uma organização feminista. Ao lado do seu braço armado, a YPG (Unidade de Defesa Popular), foi criado um braço armado só de mulheres, a YPJ (Unidade de Defesa Feminina). A importância da YPJ é tão grande que foi uma mulher, Meisa Ebdo, que dirigiu a resistência armada contra o Estado Islâmico na cidade de Kobanê. Nos cantões (as cidades autônomas), existem estruturas femininas paralelas em todos os níveis.

Isso não significa que o PKK mudou completamente, existem vários relatos de que ainda está presente o autoritarismo na prática da organização, e muitas dessas mudanças ainda não foram realmente incorporadas pelo partido, mas parece claro que existiu sim uma mudança.

No caso do feminismo, os limites do PKK também são aparentes. As estruturas de mulheres são formalmente autônomas, mas a grande influência teórica do feminismo do PKK é reconhecida abertamente como sendo o próprio Öcalan (!!!), e as YPJ quase nunca levantam reivindicações explicitamente feministas (direitos reprodutivos, prostituição, violência masculina etc).

A revolução de Rojava

Aproveitando o vácuo de poder, em julho de 2012 os curdos, dirigidos pelo PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), tomaram o controle de Rojava (o Curdistão sírio), no norte da Síria.

Os curdos são o maior povo sem Estado do mundo, cerca de 50 milhões de pessoas, e estão dividido entre quatro países: Turquia, Irã, Síria e Iraque. No Iraque, existe o Governo Regional Curdo (KRG), com autonomia regional, dirigido pelo KDP (Partido Democrático Curdo), de direita e pró-americano.

Já em Rojava, que é o Curdistão sírio, está acontecendo uma verdadeira revolução socialista, dirigida pelo PKK, que está aplicando o confederalismo democrático.

O confederalismo também é uma resposta aos conflitos étnicos do Oriente Médio. Cada assembleia de bairro em Rojava elege três representantes para a assembleia geral da cidade, sendo que pelo menos uma deve ser mulher, e os representantes são divididos em um curdo, um turco e um sírio cristão. Não por acaso, membros das minorias religiosas sírias, como os cristãos e muçulmanos xiitas e sufis, têm se refugiado em Rojava, para fugir da violência religiosa. Asassembleias de mulheres têm poder de veto sobre as decisões que afetam as mulheres.

Curda segurando uma metralhadora.

O fato que colocou o PKK nas manchetes de todos os jornais do mundo foi a proteção que eles ofereceram aos refugiados yazidis. Os yazidis são uma religião milenar. Eles cultuam o Anjo Pavão, que segundo a religião deles, foi punido por Deus pelo seu orgulho, e foi para o inferno antes de se arrepender. Por causa da semelhança entre esse mito e o diabo no cristianismo e no Islã, os yazidis são considerados satanistas pelo Estado Islâmico, e são assassinados através de crucificação e decapitamento.

O caráter da revolução curda

Como Trotsky explicou, as tarefas das revoluções burguesas, como a separação entre Estado e religião, direitos iguais para as mulheres, democracia e independência nacional, só podem ser realizadas na era do imperialismo através de revoluções socialistas.

Portanto, a forma do confederalismo democrático expressa o conteúdo de classe de ditadura do proletariado, ou seja, o governo direto das massas populares através de assembleias (as Casas do Povo e Casas das Mulheres em Rojava), defendidas através do seu exército popular (YPG/YPJ).

A revolução curda é a segunda revolução socialista do século XXI, depois da revolução nepalesa (2006), traída pela sua direção maoísta. Nela se repete o esquema de todas as revoluções sociais dirigidas por guerrilhas no século XX (Vietnã, Cuba, Nicarágua etc): o aparato do Estado é destruído e substituído pelo aparelho guerrilheiro, que é a expressão organizada do poder das classes oprimidas.

No caso do PKK, um paralelo muito forte pode ser traçado com o PC Iugoslavo. Era um partido stalinista tradicional mas, sob pressão do isolamento imposto pela URSS, precisou se apoiar nas massas populares, adotando várias medidas democráticas e estimulando até certo ponto a autogestão e a autoorganização.

O papel dos EUA

Desde setembro de 2014, o PKK vem colaborando com os EUA na luta contra o ISIS. OS EUA têm interesse em impedir que o Estado iraquiano seja desestabilizado, já que o mesmo é uma semicolônia americana. Por isso, tem estado em conflito com a Turquia, que também é membro da OTAN, mas que prefere o ISIS do que uma possibilidade de levante popular curdo nas suas fronteiras.

Esse fato, junto com a oposição do PKK ao governo Assad desde 2004, tem levado setores da esquerda a considerar os curdos como agentes do imperialismo. Assim, vemos o triste espetáculo de setores que se reivindicam socialistas apoiando uma ditadura assassina, quando não dizendo que o ISIS deve ser defendido diante dos ataques americanos (!!!).

Essa atitude é chamada, dentro do movimento trotskista, de campismo, ou seja, dividir o mundo em dois “campos”, do quais um deve ser apoiado contra o outro. Na lógica campista, toda crítica ao suposto campo “progressivo” na verdade favorece o inimigo principal. Essa lógica foi adotada pela grande maioria dos partidos comunistas, que silenciavam sobre quaisquer formas de opressão no campo soviético e, hoje, é adotava por supostos “antiimperialistas”.

Esse tipo de visão maniqueísta apaga as lutas de classes, a substituindo pela lógica burguesa de conflitos entre governos. O nosso ponto de vista deve ser: quais são as forças reais no conflito? Elas são autônomas, ou são marionetes do imperialismo? O imperialismo está tentando se aproveitar dessas forças, ou é o impulsionador delas?

Fazer essas perguntar é respondê-las. O movimento de libertação curdo é um movimento de massas de um povo inteiro. Os EUA podem taticamente apoiá-lo, para enfraquecer o seu inimigo na região. Mas esse apoio, como o ano passado mostrou, pode ser rapidamente retirado, assim que os curdos se voltam contra os seus aliados (como a Turquia).

Sobre o assunto, esse texto é altamente recomendável.

O futuro de Rojava

Mas qual é a perspectiva para uma revolução social democrática, laica e feminista num mundo globalizado?

Hoje, por causa da mundialização do capital, é qualitativamente mais difícil um país conseguir manter alguma autonomia econômica, como foi demonstrado no caso da chantagem da União Europeia contra a Grécia e a capitulação do seu governo.

Portanto, é praticamente inviável a confederação democrática de Rojava conseguir expropriar o conjunto da burguesia. O foco de um governo popular na região deve ser manter e fortalecer as estruturas democráticas e apoiar a revolução curda na Turquia e no Irã.

Portanto, é coerente a formação das Forças Democráticas Sírias, para lutar por uma Síria democrática onde os curdos possam viver em uma região autônoma. Já na Turquia, o HDP (Partido da Democracia Popular), que é o braço político da esquerda turca e curda está enfrentando o começo de uma guerra civil, depois do seu resultado eleitoral histórico esse ano (mais de 10% dos votos). Enquanto isso, o PJAK (PKK no Irã) ainda sofre a maior repressão de todos os quatro países.

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As perspectivas em Rojava nesse contexto são duas: ou uma “sulafricanização” (ou seja, aderir às regras do capitalismo dependente, como o CNA fez) sob pressão dos EUA. Ou uma “zapatização” (manter o governo popular através da autonomia regional, e tentando desenvolver a luta pela autonomia na Turquia e no Irã, a exemplo do EZLN no México), que seria a forma viável, nas condições atuais, de dar um desfecho estável e progressista ao conflito.

De qualquer forma, o nosso apoio, a partir dos Comitês de Solidariedade em todo o mundo, é uma forma de quebrar o isolamento político e dar um alívio econômico, na medida das nossas forças. Estamos vendo uma revolução que está durando mais que a Espanhola (1936-39), e que é a perspectiva mais concreta de uma nova sociedade que estamos vendo no nosso século.

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