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Fonte: SALON | 01.06.2014

Tradução: Fernando Amorim. Revisão Samuel Victor – Coletivo Anarquia ou Barbárie.

David Graeber explica porque quanto mais seu trabalho ajuda os outros, menor é sua remuneração.

THOMAS FRANK

David Graeber é um antropólogo americano que leciona na London School of Economics. Ele é autor do clássico “Dívida: os primeiros cinco mil anos” e desempenhou um papel importante no lançamento do movimento Occupy Wall Street. Ano passado, ele escreveu um ensaio muito discutido perguntando o que aconteceu com a velha promessa da sociedade de mais tempo de lazer para os trabalhadores. Para as tarefas que vieram a ocupar o tempo que já foi prometido ser nosso, Graeber inventou o rótulo delicado e ligeiramente obscuro, “empregos sem sentido”.

Eu quis saber exatamente o que ele quis dizer com isso, e assim discutimos o assunto por e-mail. A conversa a seguir foi levemente editada.

Iniciemos pelo começo: a previsão de Keynes, na década de 1930, de que muito em breve os trabalhadores teriam todos os tipos de tempo de lazer em virtude do aumento da produtividade. Existe uma história dessa ideia? Quero dizer, outros também afirmaram isso, certo?

Bem, elementos radicais do movimento dos trabalhadores começaram a adotar tais visões desde muito cedo. Após as bem-sucedidas campanhas pela jornada de oito horas, nos anos 1880, as pessoas imediatamente começaram a pensar que poderíamos reduzi-las para sete, seis horas, ou menos. Paul Lafargue, genro de Marx e autor de “O Direito à Preguiça”, já estivera demandando algo nesse sentido em 1883. Tenho uma camiseta com uma estampa no estilo virada do século que diz: “filie-se ao IWW para um novo amanhecer”, com um desenho de um nascer do sol sobre os telhados, e em que está escrito no sol: “semana de quatro dias, dia de quatro horas”. Não sei exatamente de quando essa imagem realmente é, mas suponho que seja da década de 1910 ou de 1920. Nos anos 1930, muitos dos sindicatos centraram esforços em prol de uma semana de 35 horas. Minha mãe trabalhava na indústria de vestuário na época e foi assim que ela acabou se envolvendo na revista musical do Sindicato Internacional das Trabalhadoras em Vestuário (ILGWU, na sigla em inglês), “Agulha e alfinetes”, porque todo mundo tinha conquistado uma semana mais curta e o sindicato começou a promover atividades de lazer.

E quando essa expectativa começou a definhar?

Nos anos 1960, a maioria das pessoas pensava que as fábricas automatizadas e, em última instância, a eliminação de todo o trabalho manual, provavelmente estaria a apenas uma ou duas gerações de distância. Todos, desde os situacionistas até os Yippies, diziam “deixem as máquinas fazerem todo o trabalho!” e contestavam o próprio princípio do trabalho de 9 as 5. Nos anos 1970, houve de fato uma série de hoje esquecidas greves selvagens de trabalhadores da indústria automobilística e outras, em Detroit, Turim, eu acho, e em outros lugares, onde se clamava basicamente: “estamos fartos de trabalhar tanto”.

Esse tipo de coisa deixou diversos ocupantes do poder em uma espécie de pânico moral. Foram criados grupos de pesquisa para analisar o que fazer – basicamente, como manter o controle social – em uma sociedade onde cada vez mais formas tradicionais de trabalho estavam em vias de se tornarem obsoletas num curto espaço de tempo. Muitas das queixas que você vê na obra de Alvin Toffler e figuras similares no início dos anos 70 – de que o rápido avanço tecnológico estava empurrando a ordem social para o caos – tem a ver com essas ansiedades: da feita que o lazer em excesso havia criado os movimentos de contracultura e juventude, o que aconteceria quando as coisas fossem ainda mais relaxadas? Provavelmente, não por acaso que foi nessa época que começaram as reviravoltas, tanto no que se refere à orientação da pesquisa tecnológica, que foi afastada da automação e reorientada para tecnologias informacionais, médicas e militares (basicamente, tecnologias de controle social), quanto no que se refere às reformas de mercado, que nos remeteriam a um emprego menos seguro, com jornada mais longa e maior disciplina de trabalho.

Hoje a produtividade continua aumentando, mas os americanos trabalham mais horas por semana do que antigamente, e não menos. Além disso, mais do que trabalhadores de outros países. Correto?

Os EUA, mesmo sob o New Deal, sempre foram muito mais mesquinhos que a maioria dos países ricos quando se trata de ausências, sejam elas licença maternidade ou paternidade, férias, etc. Mas desde os anos 1970, as coisas vêm definitivamente piorando.

Os economistas têm uma explicação para essa combinação de maior produtividade e aumento de horas de trabalho? O que é e o que você acha disso?

Curiosamente, os economistas tendem a não considerar interessantes tais questões – coisas realmente fundamentais sobre valores, por exemplo, ou questões políticas ou sociais mais amplas sobre como a vida das pessoas realmente é. Eles raramente têm algo a dizer sobre elas munidos apenas de seus próprios recursos. Só quando algum não-economista propõe explicações sociais ou políticas para o surgimento de cargos administrativos e gerenciais aparentemente sem sentido é que eles respondem no susto: “Não, não. Poderíamos ter explicado isso perfeitamente bem em termos econômicos”, e elaboram alguma coisa.

Por exemplo, assim que meu texto foi publicado, a revista The Economist se apressou em providenciar-lhe uma réplica, em apenas um ou dois dias. Era uma resposta incrivelmente fraca em argumentos, cheia de falácias lógicas óbvias, mas sua ideia central era: bem, pode haver muito menos pessoas envolvidas na produção, no transporte e manutenção de produtos do que costumava haver, mas faz sentido que tenhamos três vezes mais administradores porque a globalização tornou o processo de produção hoje muito mais complicado. Temos computadores em que o circuito é projetado na Califórnia, produzido na China, montado em Saipan, encaixotado em alguma prisão em Nevada, enviado pela Amazon de um dia para outro para Deus-sabe-onde… Isso parece suficientemente convincente até que você realmente pare pra pensar a respeito. Então você percebe: se as coisas são assim, por que a mesma coisa acontece nas universidades? Porque lá também ocorre o mesmo acúmulo interminável de empregos administrativos, camada sobre camada. Será que o processo de ensino tornou-se três vezes mais complicado do que era na década de 1930? E se não, por que a mesma coisa acontece? Assim, a maioria das explicações econômicas não faz sentido.

Tudo isso é verdade e muito correto sobre o que acontece nas universidades, mas deve haver uma explicação oficial – senão econômica – para que não tenhamos conseguido a Grande Conquista que todos esperavam há não muito tempo. Quero dizer: Keynes estava completamente bêbado, ou um sistema desse tipo simplesmente não iria dar certo, ou trabalhadores não são educados o suficiente para merecer tantas férias, ou as coisas que produzimos hoje são simplesmente muito melhores do que as coisas que as pessoas produziam no tempo de Keynes, fazendo com que elas valham mais e tomem-nos mais horas de trabalho para serem obtidas. Deve haver alguma coisa.

Bem, a explicação casual é sempre o consumismo. A ideia é que, dada a escolha entre dias de quatro horas, e dias de nove ou dez horas com carros esporte, iPhones e oito variedades de sushi, todos nós decidimos coletivamente que o tempo livre realmente não vale a pena. Isso também se conecta ao argumento da “economia de serviços”, em que ninguém quer mais cozinhar, limpar, fazer reparos ou mesmo preparar seu próprio café. Portanto, todo o novo emprego reside na manutenção de uma infraestrutura para que as pessoas apenas deem um pulo na praça de alimentação, ou no Starbucks, em seu caminho para o trabalho. Então, se você levantar a questão para alguém que não costuma pensar sobre o assunto, certamente grande parte dessa situação será simplesmente tomada como senso comum. Mas isso, obviamente, também não constitui muito de uma explicação.

Em primeiro lugar, apenas uma pequena proporção dos novos postos de trabalho tem a ver de fato com a produção de brinquedos de consumo, e a maior parte dos que tem a ver estão no exterior. Ainda assim, mesmo lá, o número total de pessoas envolvidas na produção industrial diminuiu. Em segundo lugar, mesmo nos países mais ricos, não está claro se o número de empregos de serviço realmente aumentou tão dramaticamente como gostamos de imaginar. Se olharmos para os números entre 1930 e 2000, constatamos que costumava haver um grande número de empregados domésticos. Esses números despencaram. Em terceiro lugar, você percebe também que o que tem crescido não são os empregos de serviços em si, mas empregos de “serviços, administrativos e de escritório”, que passaram de cerca de um quarto de todos os empregos nos anos 1930 para talvez algo em torno de três quartos hoje. Mas como você explica uma explosão de gerentes médios e burocratas através de um desejo por sushi e iPhones?

E então, finalmente, chegamos à questão óbvia de causa e efeito. As pessoas trabalham muito porque acabamos concebendo de alguma forma independente este desejo por cafés e pães sofisticados, acompanhantes de cães e similares, ou será que as pessoas estão comprando lanches pra viagem e contratando pessoas para saírem com seus cães porque estamos todos trabalhando demais?

Talvez parte da resposta resida no fato de as pessoas terem se esquecido da expectativa de mais tempo de lazer, e de não haver nenhuma agência política para se exigir mais isso. Então, não haveria necessidade de se explicar o que aconteceu. Quero dizer, não há mais greves selvagens.

Bem, podemos falar do declínio do movimento sindical, mas há algo mais profundo. No final do século XIX e início do século XX, uma das grandes divisões entre os sindicatos anarquistas e os sindicatos socialistas refere-se as suas reinvindicações: enquanto os últimos sempre pleiteavam salários mais altos, os anarquistas demandavam menos horas. É por isso que os anarquistas estiveram tão envolvidos nas lutas pela jornada de oito horas. É como se os socialistas estivessem essencialmente comprando a ideia de que o trabalho é uma virtude, de que o consumismo é bom, mas que tudo isso deveria ser gerido democraticamente, enquanto os anarquistas estavam dizendo não, que o esquema todo – aquele em que todos nós devemos trabalhar mais e mais por mais e mais coisas – é podre desde sua raiz.

Já disse isso antes, mas acho que uma das maiores ironias da história é como esse posicionamento sempre é descartado quando os movimentos dos trabalhadores conseguem chegar ao poder. Em geral, foram os grupos de anarquistas clássicos – camponeses e artesãos recentemente proletarizados – que se insurgiram e fizeram as grandes revoluções, seja na Rússia, na China e, no que nos diz respeito, na Argélia e na Espanha – mas elas sempre resultaram em regimes geridos por socialistas que aceitaram o trabalho como uma virtude em si mesma, cujo propósito era criar uma utopia do consumidor. É claro que eles eram completamente incapazes de prover tal utopia do consumidor. Mas que benefícios sociais elas de fato asseguraram? Bem, o maior deles, aquele que ninguém fala, foi a garantia do emprego e segurança no trabalho – a “tigela de arroz de ferro”, como chamam na China, mas que também tem muitos outros nomes. De fato, você não poderia ser mandado embora de seu emprego. Como resultado, você não teria que trabalhar muito duro de verdade. Assim, formalmente tinha-se um dia de oito ou nove horas, em que todos estavam trabalhando, de fato, talvez quatro ou cinco horas.

Tenho vários amigos que cresceram na União Soviética, ou na Iugoslávia, que me descreveram como as coisas funcionavam. Você acordava de manhã, comprava o jornal, ia trabalhar, lia o jornal. Então, talvez, trabalhasse um pouco. Depois disso, tiraria uma demorada hora de almoço, com direito a uma visita ao banho público… Se pensarmos sobre isso sob essa ótica, concluiremos que as conquistas do bloco socialista parecem bastante impressionantes: um país como a Rússia conseguiu passar de um remanso para uma grande potência mundial com todos trabalhando em média talvez quatro ou cinco horas por dia. O problema é que eles não podiam considerar isso uma coisa boa. Eles tinham que fingir que era um problema, “o problema do absentismo,” ou o que fosse, porque, é claro, o trabalho era tomado como a virtude moral final. Eles não podiam valorizar o grande benefício social que efetivamente prestaram, que é, aliás, a razão pela qual os trabalhadores dos países socialistas não tinham ideia em que estavam se metendo quando aceitaram a ideia de se introduzir a disciplina de trabalho de estilo capitalista. “O quê? Temos que pedir permissão para ir ao banheiro?” Isso lhes parecia tão totalitário quanto aceitar um estado policial do estilo soviético teria sido para nós.

Essa ambivalência ainda persiste no coração do movimento dos trabalhadores. Como cresci numa família de trabalhadores, de esquerda, eu sentia isso o tempo todo. Por um lado, há esse imperativo ideológico para validar o trabalho como uma virtude em si mesma, que é constantemente reforçado pela sociedade em geral. Por outro lado, há o fato de que a maioria dos trabalhos é obviamente estúpida, degradante, desnecessária e produz a sensação de que é melhor evitá-lo, sempre que possível. Mas essa mesma ambivalência torna muito difícil de nos organizarmos, como trabalhadores, contra o trabalho.

Vamos falar sobre “empregos sem sentido.” O que você quer dizer com esse conceito?

Quando falo de empregos sem sentido, refiro-me ao tipo de posto de trabalho em que mesmo aquele que o ocupa sente que ele não precisaria de fato existir. Muitos deles são constituídos de gerências médias, por exemplo: “o coordenador de visão estratégica da Costa Leste” em alguma grande empresa. Isso significa basicamente que você gasta todo seu tempo em reuniões ou formando equipes que, em seguida, enviarão relatórios umas para as outras. Ou alguém que trabalha em uma indústria que sente que ela não precisaria existir, como a maioria dos advogados de empresas que conheço, ou operadores de telemarketing, ou lobistas… Basta pensar o seguinte: quando você entra em um hospital, metade dos funcionários nunca parecem fazer qualquer coisa para as pessoas doentes, apenas preenchem formulários de seguro e enviam informações uns para os outros. Obviamente, parte deste trabalho precisa ser feito, mas em sua maioria, todo mundo que trabalha lá sabe o que realmente precisa ser feito e que os noventa por cento de tempo restantes não passam de perda de tempo. Pense também nos trabalhadores auxiliares que dão suporte às pessoas que trabalham em empregos sem sentido. Por exemplo, existe um escritório onde as pessoas basicamente transformam papelada formatada em alemão em papelada formatada em inglês ou algo assim, e tem que haver toda uma infraestrutura de recepcionistas, porteiros, seguranças, técnicos de informática, que constituem o tipo de emprego sem sentido de segunda ordem. Eles estão realmente fazendo alguma coisa, mas eles estão fazendo isso para dar suporte a pessoas que estão fazendo nada.

Quando publiquei o texto, houve uma torrente de confissões de pessoas em cargos sem sentido, tanto em empresas privadas como no serviço público, de diversos setores. Foi interessante constatar que seus relatos não revelavam qualquer grande diferença entre o setor público e o setor privado nesse sentido. Por exemplo, existe um cara cujo único dever é manter uma planilha que mostra quando certas publicações técnicas estão fora da data e enviar e-mails para os autores para lembrá-los da necessidade de efetuar atualizações. De alguma forma, ele teve que transformar isso em um trabalho de oito horas por dia. Outro relatou ter que examinar políticas e procedimentos dentro da corporação e elaborar planos, descrevendo formas alternativas de alcançá-los, relatórios que circulam com o objetivo de dar a outras pessoas em trabalhos semelhantes a chance de ir a reuniões e coordenar dados para escrever novos relatórios, nenhum dos quais foi implementado. Outra pessoa confessou criar anúncios e conduzir entrevistas para cargos em uma empresa que eram invariavelmente preenchidos por promoção interna de qualquer maneira. Em suma, muitas pessoas disseram que sua função básica era criar tarefas para outras pessoas.

O conceito de emprego sem sentido parece muito convincente e até bastante óbvio para mim – eu costumava trabalhar como temporário e testemunhei essas coisas em primeira mão – mas outros podem apelar para o populismo de mercado e dizer: quem é você para dizer que o trabalho de alguém é sem sentido, Sr. Graeber? Você deve pensar que você é melhor do que o resto de nós ou algo assim.

Bem, continuo enfatizando: não estou aqui para dizer a quem pensa que seu trabalho é valioso que eles estão iludidos. Só estou dizendo que se as pessoas acreditam secretamente que seu trabalho não precisaria existir, elas provavelmente estão certas. Os arrogantes são aqueles que pensam que sabem mais, que acreditam que há trabalhadores que são tão estúpidos que eles não entendem o verdadeiro significado do que fazem todos os dias, que não percebem que isso realmente não é necessário, ou pensam que os trabalhadores que acreditam que eles estão em empregos sem sentido têm um sentido tão exagerado de auto-importância que eles acham que deveriam estar fazendo outra coisa e, portanto, descartar a importância de seu próprio trabalho, como se não fosse bom o suficiente. Ouço muito isso por aí. Essas pessoas são as arrogantes.

O problema dos empregos sem sentido se tornou mais evidente para nós agora por causa da crise financeira, dos resgates feitos a Wall Street e ao agora bem sabido fato de que as pessoas que fazem quase nada de produtivo se apropriam tanto das recompensas de nossa sociedade? Quero dizer, sempre soubemos que havia empregos sem sentido por aí, mas o absurdo de tudo isso nunca pareceu tão gritante antes, digamos, de 2008.

Acredito que os holofotes voltados ao setor financeiro evidenciaram o quão bizarramente distorcida está nossa economia em termos de quem é recompensado e pelo o quê. Havia um manto de mistificação lançado sobre tudo o que dissesse respeito a esse setor – era-nos dito que é tudo muito complicado, que você não ia entender, que se trata de ciência muito avançada, você sabe, eles utilizam programas tão complicados que só astrofísicos poderiam entendê-los, esse tipo de coisa. Apenas tivemos que aceitar a palavra deles de que, de alguma forma, eles criavam valor de maneiras que nossas mentes simples não poderiam compreender. Então, depois da eclosão da crise, percebemos que um monte dessas coisas eram nada além de golpes, golpes bastante simplórios até, como fazer apostas que você não poderia pagar caso perdesse e esperar que o governo iria salvá-lo se isso acontecesse. Esses caras não estavam criando qualquer tipo de valor. Eles estavam arruinando o mundo e sendo absurdamente bem pagos para isso.

De repente, tornou-se possível percebermos que, se há uma regra, ela diz que quanto mais obviamente seu trabalho beneficiar os outros, menor será sua remuneração por ele. Altos executivos e consultores financeiros que arruínam a vida dos outros recebem milhões, burocratas inúteis são bem pagos, etc. Já as pessoas que exercem funções obviamente úteis como cuidar dos enfermos, ensinar as crianças, reparar sistemas de aquecimento quebrados, fazer colheitas são os piores remunerados.

Outra coisa curiosa que ocorreu após a eclosão da crise é que as pessoas passaram a se deparar com justificativas para esses arranjos. Você começa a ouvir por aí: “É claro que mereço ser bem pago, afinal, faço um trabalho miserável e alienante” – pelo qual elas não se referiam a serem forçadas a entrar no esgoto ou embalar peixe, mas exatamente o oposto – que eles não conseguiam realizar trabalhos que tivessem algum benefício social evidente. Não sei exatamente como isso aconteceu, mas está se tornando uma espécie de tendência. Recentemente li um blog muito interessante em que o autor, Geoff Shullenberger, aponta que hoje em muitas empresas assume-se que, se houver um trabalho que alguém possa querer fazer por qualquer motivo que não seja o dinheiro, qualquer trabalho que é visto como tendo mérito intrínseco, então este trabalho não deveria ser remunerado. Ele deu o exemplo do trabalho de tradução, mas isso se aplica também à lógica dos estágios e afins, amplamente expostos por autores como Sarah Kendzior e Astra Taylor. Ao mesmo tempo, essas empresas estão dispostas a desembolsar grandes quantias de dinheiro para pagar burocratas cheios dos planejamentos estratégicos, os quais eles sabem muito bem que não farão absolutamente nada.

Você sabe que está descrevendo o que aconteceu ao jornalismo. Pelo fato de as pessoas quererem fazê-lo, agora paga-se muito pouco por ele. O mesmo ocorre com o ensino universitário.

O que aconteceu? Bem, acho que isso se deve em parte a uma hipertrofia desse impulso para validar o trabalho como uma coisa em si. Em outros tempos, os estadunidenses aceitavam uma versão rudimentar da teoria do valor trabalho. Tudo o que consideramos bonito, útil ou importante à nossa volta foi produzido através do trabalho, por pessoas que empenharam esforços físicos e mentais para sua criação e manutenção. O trabalho é valioso na medida em que cria essas coisas que as pessoas gostam e precisam. Desde o início do século XX, tem havido um enorme esforço por parte das pessoas que governam este país para mudar isso: para convencer a todos de que o valor realmente vem das mentes e visões de empresários, e que os trabalhadores comuns são apenas robôs descerebrados que transformam essas visões em realidade.

Mas, ao mesmo tempo, eles tinham que validar o trabalho de alguma forma, de modo a nos dizer, simultaneamente: o trabalho é um valor em si mesmo. Ele gera disciplina, maturidade ou algo assim, e qualquer um que não ocupe a maior parte de seu tempo trabalhando com o que não goste é uma pessoa má, preguiçosa, perigosa, parasitária. Assim, o trabalho é valioso, não importando se represente ou não algo de valor. Temos, então, essa mudança peculiar. Como qualquer um que já teve um emprego do tipo 9 as 5 sabe que a coisa que todo mundo mais odeia é ter que parecer ocupado, mesmo depois de ter terminado uma tarefa, apenas para deixar o chefe feliz, porque é o “tempo dele” e você não tem nenhuma área de lazer por perto, mesmo que não haja nada que você realmente necessite estar fazendo. Agora é quase como se esse tipo de negócio fosse a forma mais valorizada de trabalho, porque é trabalho puro, livre de qualquer tipo possível de gratificação, mesmo aquela gratificação que advém de sabermos que estamos de fato fazendo alguma coisa. E cada vez que há algum tipo de crise, isso se intensifica. Dizem-nos: “Ó, não! Teremos todos que trabalhar mais”. E da feita que a quantidade de coisas que realmente precisam ser feitas permanece mais ou menos a mesma, há uma hipertrofia adicional da falta de sentido.

Fico pensando a respeito das implicações políticas disso. Você fala de uma situação que obviamente requer os sindicatos, mas que também pode tomar outro rumo. Lembro-me de uma passagem em seu livro, “The Democracy Project”, em que você atribui à conhecida inimizade da classe trabalhadora contra a “elite liberal” o fato de que a elite liberal tem empregos bons, gratificantes etc., que por definição a maioria das pessoas comuns nunca será capaz de conseguir. Gostaria que você falasse mais a respeito.

Bem, aqui retornamos à questão dos estágios não remunerados. Há alguns anos escrevi um texto para a Revista Harpers intitulado “Exército de Altruístas”, onde tentei dar conta do poder do populismo de direita, especialmente com a maneira com que o “odiamos a elite liberal” e o “apoiamos as tropas” parecem ter uma ressonância muito profunda e semelhante, até mesmo para constituírem uma forma de se dizer a mesma coisa. Concluí que as pessoas que integram a classe trabalhadora odeiam mais a elite cultural do que a elite econômica – e não se esqueça, eles não gostam muito da elite econômica –, mas eles odeiam a elite cultural porque eles os veem como um grupo de pessoas que se apropriou de todos os postos de trabalho bem remunerados do mundo. Se você deseja uma carreira tendo em vista qualquer forma de valor diferente do monetário – se você quer trabalhar com jornalismo tendo em vista buscar a verdade, ou nas artes tendo em vista a busca pela beleza, ou em alguma instituição de caridade, ou em uma ONG internacional, ou na ONU tendo em vista promover justiça social – bem, mesmo supondo que você possa preencher os requisitos necessários, você não será pago pelos primeiros anos de trabalho. Então, em tese, após a graduação, você teria que morar por alguns anos em Nova York ou alguma outra cidade cara sem dinheiro algum. Quem mais pode fazer isso a não ser os filhos da elite? Suponhamos, então, que você trabalhe como operador de empilhadeira ou mesmo como florista. Da mesma forma que você sabe que é pouco provável que seu filho ou filha se torne um alto executivo ou alta executiva, você também sabe que não há praticamente chance alguma dele ou dela se tornarem um crítico ou crítica de teatro do jornal New Yorker, ou um advogado ou advogada internacional de direitos humanos. A única maneira que eles poderiam ser pagos decentemente para fazer algo nobre, algo que não seja só pelo dinheiro, é através do alistamento militar. Assim, dizer “apoiamos as tropas” é uma forma de dizer “foda-se” para a elite cultural que acha que somos um bando de trogloditas, mas que também se certificam que nossos filhos nunca serão capazes de se juntar ao clube dos ricos benfeitores, mesmo que ele ou ela seja duas vezes mais inteligente do que qualquer um deles.

Assim, a direita manipula o ressentimento do grosso da classe trabalhadora, que não tem condições de dedicar suas vidas a qualquer coisa puramente nobre ou altruísta. Mas, ao mesmo tempo – e aqui está o verdadeiro gênio do mal do populismo de direita –, ela também manipula o ressentimento daquela porção da classe média atada a empregos sem sentido contra o grosso da classe trabalhadora, que, pelo menos, realiza um trabalho produtivo, de benefício social óbvio. Pense em todo o alvoroço popular que cerca os professores de ensino básico. Há essa campanha interminável de difamação, em que eles são acusados de terem salários muito altos, serem indulgentes, e responsáveis por todos os problemas em nosso sistema de ensino. Na verdade, os professores do ensino fundamental passam por condições realmente aviltantes por muito menos dinheiro do que eles seriam pagos caso estivessem em qualquer outra profissão que exigisse o mesmo nível de educação. E quase todos os problemas que os direitistas se referem não são de forma alguma criados pelos professores ou pelos sindicatos de professores, mas por administradores escolares – aqueles que recebem uma remuneração muito maior e, principalmente, têm empregos sem sentido clássicos que parecem se multiplicar indefinidamente, mesmo que os próprios professores sofram arrochos e sejam aviltados. Então, por que ninguém reclama desses caras? Na verdade, vi uma coisa escrita por um ativista de extrema-direita em um blog – disse ele: bem, o engraçado é que, quando começamos nossas campanhas de reforma escolar, procuramos focar nos administradores, mas não demorou, elas se deslocaram para os professores e de repente a coisa toda explodiu. É difícil explicar isso de qualquer outra forma que não seja: um monte de gente se ressente dos professores pelo fato de eles ocuparem postos de trabalho genuínos, significativos. Você ajuda a moldar vidas jovens e ajuda a fazer uma diferença real para as outras pessoas. E a lógica parece ser: isso já não deveria ser o suficiente para eles? Eles querem fazer isso, e querem os salários da classe média, e segurança no trabalho, e férias, e benefícios também? Você encontra essa lógica até entre os trabalhadores da indústria automobilística: “Mas você produz carros! Isso é um trabalho de verdade! E você também quer US$ 30 por hora?”

É uma estratégia imperfeita. O anti-intelectualismo, por exemplo, funciona em muitos setores da classe trabalhadora branca, mas não tanto para os imigrantes ou os afro-americanos. O ressentimento contra aqueles que realizam um trabalho gratificante coexiste com um ressentimento por ter que realizar um trabalho sem sentido antes de mais nada. É uma mistura instável, mas temos que reconhecer que, em países como os EUA, tem sido muito eficaz.

O que pode ser feito a respeito?

Logo após a publicação de meu texto original sobre empregos sem sentido, eu costumava pensar que, se eu quisesse, poderia começar toda uma carreira em aconselhamentos de emprego – porque muitas pessoas escreveram para mim dizendo: “Percebo que meu trabalho é inútil, mas como posso sustentar uma família fazendo algo que realmente vale a pena?” Um monte de gente que trabalhava no balcão de informações no Zuccotti Park, e em outras ocupações, me disse a mesma coisa: jovens típicos de Wall Street vinham até eles dizer: “Sei, vocês estão certos. Não estamos fazendo nenhum bem ao mundo fazendo o que fazemos, mas eu não sei como viver com menos de um salário de seis dígitos. Teria que aprender tudo de novo. Você poderia me ensinar?”

Mas eu não acho que podemos resolver o problema via deserção individual em massa ou algum tipo de despertar espiritual. Isso é o que muita gente tentou nos anos 1960 e o resultado foi uma selvagem contraofensiva que tornou a situação ainda pior. Penso que precisamos atacar o cerne do problema: o de termos um sistema econômico que, por sua própria natureza, sempre vai recompensar quem prejudica outras pessoas e punir quem as beneficiam. Penso em um movimento de trabalhadores, mas de um tipo muito diferente do que conhecemos. Um movimento de trabalhadores que consiga finalmente abandonar todos os vestígios da ideologia que diz que o trabalho é um valor em si, que consiga redefinir o trabalho como um cuidar de outras pessoas. Acredito que vimos os primeiros sinais desse tipo de movimento durante o movimento Ocuppy. Lembro-me de ter ficado particularmente impressionado com a página na internet do movimento “Nós somos os 99%” – era uma página onde as pessoas que apoiavam o movimento, mas eram em sua maioria ocupados demais para realmente tomar parte nas ocupações ou conjuntos, poderia contribuir postando fotos de si mesmas segurando cartazes que descreviam sua situação de vida. Demograficamente, foi um muito revelador. Talvez 80% delas fossem mulheres. E mesmo os homens trabalhavam, em grade maioria, em profissões assistenciais: saúde, serviços sociais, educação. E as queixas eram surpreendentemente uniformes: basicamente, todas diziam “Quero fazer algo da minha vida que de fato beneficie outras pessoas; mas se eu me arriscar num tipo de trabalho em que eu cuide de outras pessoas, eu ganharia tão pouco e me endividaria tanto, que não conseguiria cuidar nem de minha própria família! Isso é ridículo!”

Chame-a revolta das classes do cuidado. Porque, afinal de contas, as classes trabalhadoras sempre foram, de fato, as classes do cuidado. Digo isso como uma pessoa oriunda da classe trabalhadora. Não apenas são quase todos fornecedores de cuidado (como também tomadores de cuidado!) de fato da classe trabalhadora, mas pessoas de tais origens sempre tendem a se ver como o tipo de pessoa que se preocupa ativamente com seus vizinhos e comunidades, e a valorizar esses compromissos sociais muito além de qualquer vantagem material. Acontece que nossa obsessão com certos tipos bem específicos de trabalhadores machões – operários fabris, caminhoneiros, esse tipo de coisa –, se tornou o paradigma de todo o trabalho em nossa imaginação e não nos permite atentar para o fato de que a maior parte da classe trabalhadora sempre esteve envolvida em um tipo ou outro de trabalho de cuidado. Então, acho que precisamos começar pela própria redefinição do trabalho. Começar, talvez, com o clássico “trabalho de mulher” – cuidar das crianças, zelar pelas coisas – como o paradigma para o próprio trabalho. Assim será muito mais difícil de sermos confundidos sobre o que é realmente valioso e o que não é. Como disse, nós já estamos vendo os primeiros sinais desse tipo de coisa. É uma transformação tanto política quanto moral e acho que é a única maneira que podemos superar o sistema que coloca muitos de nós em empregos sem sentido.

Thomas Frank é um colunista de política e cultura da Salon. Seus diversos livros incluem “O que está acontecendo com Kansas,” “Pena dos bilionários” e “Um mercado sob Deus”. É editor fundador da revista The Baffler.

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