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cerimonia fúnebre PKK

Por Uzay Bulut

Originalmente publicado no Instituto Gatestone

Retirado de Kurdish Question.

Em 1990, o exército turco foi usado para queimar aldeias turcas; hoje eles queimam cidades curdas.

Neste mês, três bairros da cidade curda de Silvan na província de Diyarbakir – Tekel, Konak e Mescit – foram colocados sob toque de recolher militar e, em seguida, atacados do dia 03 de novembro a 14 de novembro. As linhas de telefone, de água e eletricidade foram cortadas.

Os bairros, sitiados por veículos blindados da polícia, foram então bombardeados por tanques e artilharia foi disparada das colinas. Muitas casas foram atingidas por balas e bombas; algumas casas foram queimadas. [1]

Representantes do gabinete do governador em Diyarbakir alegaram que as operações militares eram destinadas a “remover as valas e barricadas” construídas por alguns jovens curdos, mas os relatórios provenientes da cidade revelaram que a operação, na verdade, parecia visar a limpeza étnica da cidade a partir da sua população nativa de mais de dois mil anos, os curdos. [2]

“Nós não conseguimos receber informações desses bairros por qualquer meio” Disse Firat Anli, o co-presidente da Câmara de Diyarbakir,  a agência de notícias Firat (ANF). “Nós não podemos mandar nenhum alimento ou ajuda humanitária. Pacientes de diálise, crianças, idosos … Não temos nenhuma informação sobre a sua situação. Eles têm sido mantidos isolados do resto do mundo.”

Edip Erk, um antigo deputado do Partido Democrático do Povo pró-curdo, HDP, falou à agência Bianet News: “Três deputados do HDP foram a esses bairros. Dizem que há muitos feridos. Mesmo a lei marcial permite que os feridos sejam levados para hospitais, mas em Silvan eles [autoridades turcas] não estão permitindo fazer isso.

“As instituições públicas nesses bairros, tais como os centros de saúde, estão fechados. Há uma enorme escassez de alimentos. Nós informamos as autoridades que gostaríamos de enviar um caminhão com comida, mas ainda não recebemos resposta. O caminhão então, ainda está aguardando.

“O chefe de polícia da cidade nos disse que ele não está administrando a operação. O Ministério está. É uma operação militar. Aqui, ele é utilizado para ser como uma prisão aberta;…. Agora, é um centro de tortura aberto” [3]

As operações policiais especiais, a partir de suas mesquitas e veículos blindados, disse aos moradores da cidade para “evacuem os bairros ou vamos atirar em todos vocês.”

Se os curdos deixaram suas casas, eles irão atirar. Se eles ficarem, vão ser bombardeados.

Silvan não foi o primeiro alvo do exército turco depois das eleições de 7 de junho. Muitas cidades e municípios que são a fortaleza do movimento nacional curdo – tal como Diyarbakir, Cizre, Sirnak e Hakkari — tem sido atacadas [4]

“Esta deve ser a “nova Turquia” prometeram”, disse Abdullah Zeydan, um deputado da cidade de Hakkari. “Agora eles nos têm como alvo e  mesmo os deputados. Eu não sei de onde eles tiram este poder. Antes das eleições, o AKP prometeu estabilidade e paz; sua visão de estabilidade e paz é usar violência contra as MPs. “[5]

Ziya Pir, um deputado do HDP, disse que um funcionário do Ministério do Interior lhe contou que “eles vão apagar esses três bairros de Silvan do mapa … Equipes de operações especiais abrem fogo contra tudo que se move. [6]

Pir acrescentou que as conversações com as autoridades não deram nenhum resultado; o governador e o gabinete do governador lhes disse que “eles receberam as ordens das autoridades superiores.”

O gabinete do governador de Diyarbakir, no entanto, anunciou: “No centro da cidade, tomamos todos os tipos de precauções para garantir a vida e a segurança da propriedade dos cidadãos, a preservar a paz e a estabilidade atual, para proteger os cidadãos de todos os tipos de atos de terror, e para garantir a segurança e a ordem em conformidade com toda a legislação vigente. “

Os meios de comunicação pró-governo comemoraram os ataques. O jornal Haberturk, por exemplo, relatou com alegria: “Uma grande operação foi iniciada em Silvan com a ação de tanques de guerra. “

Silvan se transformou numa cidade fantasma. 20.000 pessoas tem segundo os relatos, fugido de uma cidade que tinha 86.600 habitantes.

E depois de Silvan, o novo alvo do governo é a cidade Turca de Nusaybin onde 89.4% da população votou no partido pró-curdo HDP nas eleições de primeiro de Novembro.

Um toque de recolher militar foi declarado na cidade em 13 de novembro e ainda está em curso. Pessoas estão presas em suas casas.

Ramazan Kaya, um médico que trabalha no Hospital estadual de Nusayabin, disse a BBC que um de seus parentes teve de colocar sua criança numa geladeira para reduzir sua febre.

Aqueles que saem são alvejados pela polícia. Selamet Yesilmen (44), uma mãe de cinco filhos e grávida, era uma delas. Ela foi morta a tiros em frente de sua casa por um atirador de elite em 15 de novembro. Seus dois filhos foram gravemente feridos e hospitalizados. Yilmaz Tutak, que tentou socorrê-la, também foi baleado e ferido pela polícia.

Tahir Elci, presidente da Associação Diyarbakir Bar, confirmou que Yesilmen foi atingida com uma arma que é usada por atiradores de elite (snipers); ela atinge o alvo rapidamente e explode dentro do seu corpo.

Em 18 de Novembro, Hasan DAl, 45 anos, foi assassinado no jardim de sua casa. 13 pessoas se feriram desde então. Um deles se chamava Gule Tutak, a mãe de Yilmaz Tutak, morta prematuramente pela polícia [7].

Este é o segundo toque de recolher que a cidade está exposta desde as eleições de 7 de junho. O primeiro foi decretado no dia primeiro de outubro e durou seis dias. Ahmet Sonmez (61) e Sahin Turan (25) foram assassinadas pela polícia.

A maioria das pessoas nessas cidades tem resistido por longas décadas contra a assimilação imposta pelo Estado turco. Elas continuam falando curdo, e continuam exigindo seus direitos e autonomia. Esses são motivos suficientes para o Estado turco ver essas cidades como inimigas que precisam ser destruídas.

O Estado turco nunca tratou um grupo não-turco ou não-muçulmano de maneira moralmente justa. Assassinato e destruição tornaram-se em séculos longas tradições do domínio turco. Hoje, a opressão contra as minorias na Turquia continua inabalável. Há cem anos, o regime turco abatia Armênios, Assírios e gregos da Anatólia, enquanto o mundo era mais silencioso. Agora é a vez curdos. O mundo ainda está em silêncio.

Uzay Bulut, nasceu e cresceu em Muslim, é um jornalista turco que reside em Ankara.

[1] Veja fotos e vídeos do toque de recolher aqui: “Apagando do mapa? Cenas de destruição do exército turco na cidade curda de Silvan (VIDEO)”, 11 Nov 2015, Russia Today

[2] “Não há dúvida de que um povo curdo existia como um grupo identificável há  possivelmente, mais de dois mil anos”, escreveu o pesquisador David McDowall em “História Moderna dos curdos,” IB Tauris; 2004.

[3] Na semana do 3 de novembro, seis curdos — Muslum Tayar, Sertip Polat, Engin Gezici, Ismet Gezici, Mehmet Gunduz ile Yakup Sinba – foram atingidos mortalmente pela polícia. Um deles, Engin Gezici, tinha 24 anos, pai de três filhos, foi morto em frente a sua casa. Sua tia, Ismet Gezici, de 55 anos, correu para socorrê-lo mas também foi morta. Os deputados do HDP e outros representantes curdos tentaram buscar seu corpo, mas a polícia não permitiu ninguém entrar na vizinhança. Depois disto, três parentes de Gezici, sob intenso tiroteio, entraram no bairro e resgataram seu corpo. Mas eles foram impedidos e presos pela polícia que aprendeu seu corpo desfalecido. Engin e Ismet Gezici repousaram sob o som de explosões e armas de fogo.

[4] O jornal Ozgur Gundem noticiou que a polícia abriu fogo num café no bairro de Feridun, que não estava sob toque de recolher. Mehmet Yavuz (45), Seyfettin Kurt (44) e Abdulsamet Kesici (50) foram gravemente feridos Yavuz morreu a caminho do hospital. Abdullah Guney, de 7 anos, foi atingido por balas, e Ibrahim Yazkent, de 12, por uma granada. Enquanto isso, estudantes universitários na província curda de Hakkari organizaram um protesto onde também se juntaram dois deputados do HDP. Ambos, e Selma Irmak, foram feridos pela polícia. “Nós nos juntamos a manifestação dos deputados de Hakkari,” disse Zeydan. “Os Panzers nos pararam e sem dar nenhum aviso , começaram a nos atacar. Isso foi um ataque direcionado. Minha mão quebrou;  há queimaduras e cicatrizes no meu corpo.

[5] “Enquanto estávamos falando com a polícia, eles dispararam suas armas”, disse Irmak, que também foi ferido. “Uma bala de plástico bateu no meu ouvido. Eles miraram e atiraram em nós numa distância de uma cuspida. De repente, eles usaram as bombas de gás e balas de borracha.” (Vídeo)

[6] Pir continuou: “E é isso o que eles estão fazendo agora. Eles estão abrindo fogo em todos os lugares – incluindo atirar indiscriminadamente contra civis. Os soldados, policiais ou algumas pessoas não registradas que eu chamo de ” Caçadores de cabeças ” fuçam em tudo de cima a baixo, onde eles vêem qualquer sinal de vida. “Pir disse que armas pesadas foram usadas nesses bairros, os tanques foram postos nas colinas que da região; os edifícios foram atingidos com fogo de artilharia, os civis em grupos de 10 ou 15 se refugiaram nos pisos ou sótãos de suas casas.

[7] A Agência de Notícias Dicle noticiou alguns dos feridos. Suleyman Altekin, 65 anos, foi baleado e ferido pela polícia durante a tentativa de ir à casa de seu filho. Faysal Cakar e seu filho de 10 anos de idade, Cano Cakar foram feridos por estilhaços de uma granada lançada pela polícia. Sirin Bilgin foi baleado nas costas na varanda de sua casa. Abdulkadir Yilmaz, de 65 anos, teve um ataque cardíaco e morreu porque ele só pode ser levado para o hospital apenas 3 horas mais tarde devido ao bloqueio das estradas. Halime Guner (35), uma mãe de 3 filhos, levou  um tiro no pé, na frente de sua casa. Fatma Kulat, 42 anos, foi baleada e gravemente ferida pela polícia, enquanto estava em sua cozinha.

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Tradução: Rafael V.

FONTE: Solidariedade à Resistência Popular Curda!

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