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George Grosz, Explosion, 1917, oil on panel, 47.8 x 68.2 cm, Museum of Modern Art, New York.

George Grosz, Explosion, 1917, oil on panel, 47.8 x 68.2 cm, Museum of Modern Art, New York.

Fonte: Corrente Comunista Internacional, postado por CCI em 14/02/2015

Há 100 anos, a humanidade estava à beira do abismo, a ponto de afogar-se na sangria mais espantosa que até então a história tinha conhecido. Durante gerações depois da Grande Guerra, os anos 1914-1918 foram sinônimo de matança absurda, de desperdício abominável de vidas no horror das trincheiras. As populações atingidas por tal barbárie responsabilizaram por isso tudo os governos e as classes dirigentes.

Cem anos depois, comemorar a guerra resulta, portanto, bastante incômodo para estas mesmas classes dirigentes. Por isso, preparam-se para nos afogar em um oceano de futilidades e de hinos à unidade nacional diante do sofrimento da guerra. Evitarão a todo custo qualquer menção às verdadeiras causas da guerra: a inexorável extensão imperialista do capitalismo a todo o planeta. Evitarão também qualquer sugestão sobre quem foi realmente responsável pela guerra.

E, sobretudo, evitarão toda menção à ideia de que a única força que poderia impedir a guerra, tanto em 1914 como hoje em dia, é o proletariado.

2014 não será então um ano de comemoração, mas de esquecimento.

2014: ano do esquecimento

Atualmente, ainda continua se chamando de “Grande Guerra” à que começou em agosto de 1914. Isso apesar da Segunda Guerra Mundial ter feito mais do dobro de vítimas, para não mencionar as intermináveis guerras que, desde 1945, semearam ainda mais mortes e provocaram ainda mais destruição.

Para entender por que a guerra de 1914-1918 continua ainda sendo “a Grande Guerra”, basta visitar qualquer povoado da França, inclusive o mais isolado e perdido nos prados alpinos; lá poderão ser encontradas famílias inteiras com seus nomes gravados num marco comemorativo: irmãos, pais, tios, filhos. Estes testemunhos mudos do horror não somente podem ser vistos nas cidades e nos povoados das nações beligerantes europeias, mas também em outro extremo do mundo: na pequena aldeia de Ross, na ilha australiana da Tasmânia, o monumento carrega os nomes de 16 mortos e 44 sobreviventes, resultado, sem dúvida, da batalha de Galípoli (Turquia).

Mesmo para duas gerações após o final da guerra, 1914-1918 continuou sendo sinônimo de matança absurda, impulsionada pela estupidez cega e irrefletida de uma casta aristocrática dominante, pela avidez insaciável dos imperialistas, dos aproveitadores de guerra e dos fabricantes de armas. Apesar de todas as cerimônias oficiais, todas as coroas de flores depositadas nos memoriais aos tombados na guerra e, na Grã-Bretanha, da ostentação simbólica de papoulas na lapela no dia da comemoração anual, aquela visão da Primeira Guerra Mundial se integrou à cultura popular das nações beligerantes. Na França, o romance autobiográfico de Gabriel Chevalier, La peur [O medo], publicado em 1930, conheceu um sucesso tão grande que as autoridades proibiram o livro, taxando-o de antipatriota. Em 1937, o filme de Jean Renoir contra a guerra, A Grande Ilusão, foi projetado ininterruptamente no cine Marivzus das 10 horas até às 2 da manhã e bateu todos os recordes de entradas; em Nova Iorque, permaneceu 36 semanas em cartaz [1].

Na Alemanha dos anos vinte, os desenhos satíricos de George Grosz atacavam generais, políticos e todos aqueles que tinham tirado proveito da guerra. O livro de E. M. Remarque, Nada de novo no front [Im Westen Nichts Neues] foi publicado em 1929. 18 meses depois de sua publicação, 2 milhões e meio de exemplares tinham sido vendidos e o livro tinha sido traduzido para 22 idiomas; a versão cinematográfica da Universal Studios, realizada em 1930, teve um sucesso estrondoso nos Estados Unidos, onde ganhou o Oscar de melhor filme [2].

Após sua derrocada, o Império Austro-húngaro trouxe ao mundo um dos romances antiguerra mais importantes: A aventudas do bom soldado Švejk [Osudy dobrélo vojáka Švejk světové války] de Jaroslav Hašek, publicado em 1923 e desde então traduzido para 58 idiomas – mais que qualquer outra obra em checo.

A aversão causada pela lembrança da Primeira Guerra Mundial sobreviveu à sangria ainda mais terrível da Segunda. Comparada com os horrores de Auschwitz e Hiroshima, a crueldade do militarismo prussiano e com a opressão czarista – para não falar do colonialismo francês ou britânico – os eventos que serviram de justificativa para a guerra em 1914 quase poderiam parecer como insignificantes e, contudo, a matança nas trincheiras pareceria ainda mais absurda e monstruosa: deste modo, a burguesia poderia apresentar a Segunda Guerra Mundial se não como uma “boa” guerra, ao menos como uma “guerra justa” e necessária. Esta contradição em nenhum país é mais evidente que na Grã-Bretanha, onde toda uma série de filmes enaltecedores da “causa justa” no mais puro estilo patrioteiro (Labaredas do Inferno[The Dam Busters] em 1955, Inferno nos céus [633 Squadron], em 1964, etc.) podia ser vista nas telas dos cinemas durante os anos 50 e 60, enquanto os escritos contra a guerra dos “poetas da guerra” Wilfred Owen, Siegfried Sassoon e Robert Graves faziam parte do currículo obrigatório dos colégios [3]. Talvez a maior obra de Benjamin Britten, o compositor britânico mais famoso do século XX, seja seu Réquiem da Guerra (1961), que musicou a poesia de Owen, enquanto em 1969 surgiram dois filmes muito diferentes: de um lado, no registro patriótico, A Batalha Britânica [Battle of Britain], e de outro, a sátira corrosiva Oh! Que Bela Guerra [Oh What a Lovely War!], que faz uma denúncia musical da Primeira Guerra Mundial, servindo-se das canções criadas pelos soldados nas trincheiras.

Duas gerações mais tarde, estamos hoje em plena época do 100º aniversário do estouro da guerra (4 de agosto de 1914). Dada a importância das décadas para os aniversários e, mais ainda dos centenários, foram feitos grandes preparativos para comemorar a guerra (a palavra “comemorar” é usada aqui no sentido de “fazer recordar”. Por isso, nesse caso os sentidos “celebrar” ou “festejar” não é o mais conveniente). Na França e na Grã-Bretanha, foram alocados orçamentos de dezenas de milhares de euros ou libras esterlinas; na Alemanha, por razões óbvias, os preparativos foram mais discretos e não receberam a benção governamental [4].

Quem paga a banda, escolhe a música”: então o que as classes dominantes vão receber em troca das dezenas de milhares gastos para “comemorar a Guerra”?

Se observarmos as páginas da web dos organismos responsáveis pela comemoração (na França, o governo constituiu um organismo especial, na Grã-Bretanha o Museu Imperial da Guerra foi o encarregado) a resposta parece bastante clara: estão comprando uma das cortinas de fumaça ideológica mais caras da história. Na Grã-Bretanha, o Museu Imperial da Guerra deu-se por tarefa recolher as histórias dos indivíduos que viveram a guerra para transformá-las em podcasts (arquivos de áudio para internet) [5]. A página web do Projeto Centenário (1914.org) nos apresenta acontecimentos de importância tão crucial como a exposição do revólver utilizado durante a guerra por J. R. R. Tolkien (Que piada! Dá para supor que o que pretendem é se aproveitar do sucesso dos filmes O Senhor dos Anéis, inspirados nos livros de Tolkien); a comemoração de um dramaturgo de Surrey, a coleta pelo Museu de Transportes de Londres da história dos ônibus durante a Grande Guerra (sério!); em Nottingham, “um grande programa de acontecimentos e atividades (…) trouxeram à luz como o conflito catalisou imensas mudanças sociais e econômicas nas comunidades de Nottinghamshire”. A BBC produziu um “documentário inovador”: “A Primeira Guerra Mundial vista de cima”, com fotografias e filmes feitos a partir dos balões cativos da artilharia. Serão rendidas homenagens aos pacifistas, com comemorações sobre os objetores de consciência. Em resumo, vão nos afogar num oceano de futilidades. Segundo o Diretor Geral do Museu Imperial da Guerra, “nossa ambição é que muito mais gente compreenda que não se pode entender o mundo de hoje sem entender as causas, o curso e as consequências da Primeira Guerra Mundial” [6] e estamos 100% de acordo com isso. Mas na realidade, tudo está feito, inclusive por parte do respeitável Diretor Geral para nos impedir de entender suas verdadeiras causas e suas verdadeiras consequências.

Na França, o site do centenário anuncia o mui oficial Informe ao Presidente da República para comemorar a Grande Guerra, datado de setembro de 2011 [7], que começa com estas palavras do discurso do general De Gaulle no cinqüentenário da guerra em 1964: “Em 2 de agosto de 1914, dia da mobilização, o conjunto do povo francês se pôs de pé na sua unidade. Isso nunca tinha ocorrido. Todas as regiões, todas as localidades, todas as categorias, todas as famílias, todas as almas, puseram-se repentinamente de acordo. Num momento, apagaram-se as múltiplas disputas, políticas, sociais, religiosas, que mantinham dividido o país. De um extremo ao outro do solo nacional as palavras, as canções, as lágrimas e, sobretudo, os silêncios não expressaram senão uma única resolução”. No próprio informe lemos que “Ainda que suscite o pavor dos contemporâneos diante das mortes massivas e dos imensos sacrifícios feitos, o Centenário também fará que um estremecimento percorra a sociedade francesa, recordando a unidade e a coesão nacional mostrada pelos franceses durante a prova da Primeira Guerra Mundial”. Parece, portanto, pouco provável, que a burguesia francesa tenha a intenção de falar-nos da repressão policial brutal às manifestações de trabalhadores contra a guerra durante o mês de julho de 1914, nem do notório Caderno B (lista do governo com os nomes dos militantes antimilitaristas, socialistas e sindicalistas que deveriam ser presos, internados ou enviados ao fronte a partir do estouro da guerra – os britânicos possuíam algo equivalente) e, menos ainda, das circunstâncias do assassinato do dirigente socialista antiguerra Jean Jaurès nas vésperas do conflito, como tampouco dos motins nas trincheiras [8]

Como sempre, os propagandistas podem contar com o apoio dos doutos universitários para proporcionar material para seus documentários e entrevistas. Tomaremos aqui um único exemplo que nos parece emblemático: The Sleepwalkers, do historiador Christopher Clark da Universidade de Cambridge, publicado em 2012 e em 2013 em versão de livro de bolso, e já traduzido ao francês (Les Somnambules), alemão (Die Schlafwandler), espanhol (Sonámbulos) e em português (Os Sonâmbulos[9]. Clark é um empirista sem complexos, sua introdução anuncia muito claramente sua intenção:“Este livro (…) trata menos de por que estourou a guerra do que como ocorreu. As perguntas dos porquês e do como são inseparáveis na lógica, mas nos levam a direções diferentes. A pergunta de como nos convida a observar atentamente as sequências de interações que produziram determinados resultados. A pergunta doporquê, pelo contrário, convida-nos a buscar causas distantes e categóricas: o imperialismo, o nacionalismo, os armamentos, as alianças, as finanças, as ideias de honra nacional, os mecanismos da mobilização” [10]. O que falta na lista de Clark é, obviamente, o capitalismo. É possível que o capitalismo seja gerador de guerras? É possível que a guerra não seja somente “a política por outros meios”, retomando a famosa expressão de Von Clausewitz, mas a última expressão da concorrência inerente ao modo de produção capitalista? Oh, não, por favor, isso nunca! Clark dedica-se, pois, a fornecer-nos “os fatos” que levaram à guerra, o que faz com uma imensa erudição e em detalhes – até da cor das plumas de avestruz sobre o elmo de Francisco Fernando da Áustria no dia de seu assassinato (eram verdes!). Se alguém tivesse se incomodado em anotar a cor da cueca de seu assassino, Gravilo Princip, também esta informação constaria deste livro.

O tamanho do livro e sua preocupação com os detalhes, torna ainda mais notável uma omissão. Apesar de dedicar seções inteiras à questão “da opinião pública”, Clark não tem absolutamente nada a dizer sobre a única parte “da opinião pública” que importava de verdade: a posição adotada pela classe operária organizada. Clark cita amplamente jornais como o Manchester Guardian, o Daily Mail, o Le Matin, e muitos outros desaparecidos há muito tempo e caídos num merecido esquecimento, mas não cita nem sequer uma única vez o Vorwärts, nem l’Humanité (os jornais respectivamente dos partidos socialistas alemão e francês), nem La Vie ouvrière, o órgão semioficial da CGT francesa [11], nem La Bataille syndicaliste. E estas eram publicações importantes! O Vorwärts era um entre os 91 jornais do SPD com uma difusão total de 1 milhão e meio de exemplares (em comparação, o Daily Mailreivindicava uma difusão de 900 mil exemplares) [12], e o próprio SPD era o partido mais importante da Alemanha. Clark menciona o congresso de Iena em 1905, onde o SPD se negou a convocar a greve geral em caso de guerra, mas não disse uma palavra sobre as resoluções contra a guerra adotadas pelos congressos da Internacional Socialista em Stuttgart (1907) e na Basileia (1912). O único dirigente do SPD que merece menção no livro é Albert Südekum, um personagem relativamente menor da direita do SPD, cujo papel de figurante tranqüiliza o chanceler alemão Bethmann-Hollweg em 28 de julho, destacando que o SPD não se oporá a uma guerra “defensiva”.

Sobre a luta entre esquerda e direita no movimento socialista e, mais amplamente, operário: silêncio absoluto. Sobre o combate político de Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Anton Pannekoek, Herman Gorter, Domela Nieuwenhuis, John MacLean, Vladimir Ilyich Lênin, Pierre Monatte, e tantos outros, nada de nada. Sobre o assassinato de Jean Jaurès, mais silêncio, só silêncio…

Fica evidente que os proletários não podem contar com a historiografia burguesa para entender verdadeiramente as causas da Grande Guerra. Melhor olharmos na direção dos destacados militantes da classe operária: Rosa Luxemburgo, sem dúvida alguma a teórica mais importante da socialdemocracia alemã, e Alfred Rosmer, um militante fiel da CGT francesa do período pré-guerra. Vamos nos basear em particular em A Crise da Socialdemocracia, de Rosa Luxemburgo (mais conhecido com o nome deFolheto de Junius [13]) e O movimento operário durante a Primeira Guerra Mundial [14], de Rosmer. Ambas as obras são muito diferentes: o panfleto de Luxemburgo foi escrito no cárcere em 1916 (e por não dispor do qualquer acesso privilegiado a bibliotecas e arquivos governamentais, o vigor e a clareza de sua análise tornam-se ainda mais impressionantes); o primeiro volume [15] da obra de Rosmer, que trata do período que conduziu à guerra, foi publicado em 1936 e é fruto de sua dedicação meticulosa à verdade histórica, assim como de sua defesa apaixonada dos princípios internacionalistas.

A Primeira Guerra Mundial: sua importância e suas causas

Poderiam nos perguntar se tudo isso é realmente importante. Ocorreu há muito tempo, o mundo mudou, o que podemos aprender realmente desses escritos de outros tempos?

Responderemos que é primordial entender a Primeira Guerra Mundial por três razões.

A primeira, porque a Primeira Guerra Mundial abriu uma nova época: continuamos vivendo em um mundo moldado pelas consequências daquela guerra.

A segunda, porque as causas subjacentes da guerra continuam presentes e operacionais: existe uma similaridade claríssima entre a ascensão da nova potência alemã antes de 1914 e a atual ascensão da China.

E a terceira, e talvez mais importante, porque é precisamente isso o que os propagandistas do governo e seus historiadores pagos querem ocultar: somente há uma e única força capaz de pôr fim à guerra imperialista: a classe operária mundial. Como disse Rosmer: “os governos sabem que não podem se lançar na perigosa aventura que é a guerra – e sobretudo esta – a não ser sob a condição de ter atrás deles praticamente a unanimidade da opinião pública e, especialmente, a da classe operária; para isso, é-lhes necessário confundi-la, enganá-la, desorientá-la, animá-la” [16]. Luxemburgo cita a frase de Von Bülow, que dizia que era, sobretudo por temor à Socialdemocracia que, na medida do possível, “se faziam esforços por atrasar qualquer guerra”; cita também o Vom Heutigen Krieg [Uma guerra de hoje] do general Bernhardi: “Quando as grandes massas  estão além do controle de seus dirigentes, quando se difunde o espírito de pânico, quando se pode sentir a falta de víveres, quando o espírito de rebelião toma conta das massas do exército, este se torna não somente ineficaz com relação ao inimigo, mas também uma ameaça para si e para seus dirigentes. Quando o exército rompe os limites da disciplina, quando interrompe voluntariamente o curso da operação militar, cria problemas que seus dirigentes são incapazes de solucionar”. E Luxemburgo continua: “Assim, tanto os políticos capitalistas como as autoridades militares crêem que a guerra, com seus modernos exércitos de massas, é um jogo perigoso. E isto dava à socialdemocracia a melhor oportunidade de terminá-la o quanto antes possível. Mas a posição da socialdemocracia diante desta guerra varreu todas as dúvidas, derrubou diques de contenção da maré militarista (…). E assim, milhares de vítimas que caíram nos últimos meses nos campos de batalha pesam sobre nossa consciência.”  [17].

O estouro de uma guerra imperialista mundial e generalizada (aqui não falamos dos conflitos localizados, inclusive de grandes conflitos como as guerras da Coreia ou do Vietnã) vem determinado por duas forças que se enfrentam: o impulso na direção da guerra, de uma nova divisão do mundo entre as grandes potências imperialistas, e a luta pela defesa de sua própria existência pelas classes trabalhadoras, que devem proporcionar, por sua vez, a carne de canhão e o exército industrial, sem os quais a guerra moderna é impossível. A Crise da Socialdemocracia e, sobretudo em sua fração mais poderosa, a socialdemocracia alemã – crise que os historiadores universitários pagos silenciaram sistematicamente – é, portanto, o fator crítico que tornou possível a guerra em 1914.

Trataremos disso mais detalhadamente em um artigo posterior, mas aqui nos propomos a retomar a análise de Luxemburgo sobre as rivalidades e as alianças movediças que empurraram inexoravelmente as grandes potências em direção à sangria de 1914.

“Há dois processos na história recente que conduzem diretamente à atual guerra. Um se origina no período em que se constituíram pela primeira vez os chamados Estados nacionais, quer dizer, os Estados modernos, a partir da guerra bismarquiana contra a França. A guerra de 1870 que, com a anexação da Alsácia e da Lorena, atirou a República Francesa nos braços da Rússia, dividiu a Europa em dois grupos contrários e iniciou um período armamentista competitivo frenético, acendeu a chama da atual conflagração mundial (…)

Assim, a guerra de 1870 resultou no agrupamento político formal da Europa em torno dos eixos do antagonismo franco-alemão e impôs um reinado de militarismo na vida dos povos da Europa. O processo histórico outorgou a este agrupamento e a este reinado um conteúdo inteiramente novo. O segundo processo que conduz à atual guerra mundial, que confirma novamente e de forma brilhante a profecia de Marx [18], tem origem em acontecimentos internacionais ocorridos logo depois da morte de Marx: o desenvolvimento imperialista dos últimos vinte e cinco anos [19].

Os últimos trinta anos do século XIX assistiram, portanto, a uma rápida expansão do capitalismo pelo mundo, e também à aparição de um novo capitalismo, dinâmico, em expansão e cheio de confiança, no interior da própria Europa: o Império alemão reconhecido no palácio de Versalhes em 1871, depois da derrota francesa na guerra franco-prussiana, da qual a Prússia emergiu como território mais poderoso entre uma multidão de principados e pequenos Estados alemães, para surgir como o componente dominante de uma Alemanha nova e unificada. (…) podia-se, então, prever”, acrescenta Luxemburgo, “que esse jovem imperialismo transbordante de energia e sem obstáculos de qualquer tipo, que debutava no cenário mundial com enormes apetites, quando o mundo se encontrava, por assim dizer, já repartido, devia converter-se rapidamente no fator imprevisível de agitação geral [20].

Por uma dessas peculiaridades da história que nos permitem tomar uma única data como símbolo de uma mudança da dinâmica da história, o ano de 1898 foi testemunha de três acontecimentos que assinalaram tal mudança.

O primeiro foi “o Incidente de Fachoda”, uma tensa confrontação entre tropas francesas e britânicas que disputavam o controle do Sudão. Naquele momento, parecia haver um verdadeiro risco de guerra entre ambos os países pelo controle do Egito e do Canal de Suez e, de forma mais geral, pela supremacia sobre a África. Finalmente, o incidente resultou numa melhoria das relações franco-britânicas, formalizada em 1904 pela “Entente Cordiale”, e numa tendência cada vez mais marcada, por parte da Grã-Bretanha, de apoiar a França contra uma Alemanha que ambos viam como uma ameaça. As duas “Crises marroquinas” de 1905 e 1911 [21]deixaram claro que daí em diante, a Grã-Bretanha se oporia às ambições alemãs no norte da África (estava, contudo, disposta a deixar algumas migalhas para a Alemanha: as possessões coloniais de Portugal).

O segundo acontecimento foi a tomada do porto chinês de Tsingtao (hoje Qingdao) pela Alemanha [22], que anunciava a entrada da Alemanha na arena imperialista como potência com aspirações mundiais e não somente europeias – uma Weltpolitik, como naquele momento se dizia na Alemanha.

Foi, portanto, bastante oportuno que em 1898 tenha ocorrido também a morte de Otto von Bismarck, grande chanceler que havia guiado a Alemanha pela via de sua unificação e rápida industrialização. Bismarck sempre havia se oposto ao colonialismo e à construção naval, por ter como preocupação principal na política externa impedir o surgimento de uma aliança antigermânica entre as demais potências com ciúmes– ou preocupadas – pela ascensão alemã. No início do século, a Alemanha havia se convertido numa potência industrial de primeira ordem, somente ultrapassada pelos Estados Unidos, com as ambições mundiais que isso implicava. Luxemburgo cita o Ministro de Assuntos Exteriores de então, von Bülow, em um discurso de 11 de dezembro de 1899: “quando os ingleses falam de uma ‘Grã-Inglaterra’, quando os franceses falam da ‘Nova França’, quando os russos abrem a Ásia Central para sua penetração, também nós temos direito a aspirar a uma Alemanha maior. Se não criamos uma marinha apta para defender nosso comércio, nossos nativos em terras estrangeiras, nossas missões e a segurança de nossas costas, ameaçamos os interesses vitais da nossa nação. No próximo século, o povo alemão será o martelo ou a bigorna”. E Luxemburgo acrescenta: “Tiremos a pomposidade da frase ornamental sobre a defesa de nossas costas, e fica o programa colossal: a grande Alemanha que cai como um martelo sobre as demais nações” [23].

No começo do século XX, dotar-se de uma Weltpolitik exigia uma marinha de guerra à altura de suas ambições. Luxemburgo demonstra claramente que a Alemanha não necessitava economicamente de forma urgente de uma marinha: ninguém ia arrancá-la de suas possessões na África ou na China. A marinha era, sobretudo, uma questão de “status”: para poder prosseguir em sua expansão, a Alemanha devia aparecer como uma potência séria, uma potência com a qual era necessário contar, e para isso uma “frota ofensiva de primeira qualidade” era uma premissa. Nas palavras inesquecíveis de Luxemburgo, este era “um desafio não somente à classe operária alemã, mas também a outras nações capitalistas, desafio dirigido a ninguém em particular, uma luva que se agitava diante do mundo inteiro”.

O paralelo entre a ascensão da Alemanha no limiar dos séculos XIX e XX, e a da China cem anos mais tarde é evidente. Como a de Bismarck, a política externa de Deng Xiaoping procurou não preocupar os vizinhos da China, como tampouco a potência hegemônica mundial, os Estados Unidos. No entanto, sua ascensão à condição de segunda potência econômica mundial, o “status” da China exige que possa, no mínimo, controlar suas fronteiras e proteger suas vias marítimas: daí seu programa de construção naval, de submarinos e de um porta-aviões, com sua recente declaração de uma zona de defesa de identificação aérea (ADIZ, sigla em inglês), que cobre as ilhas de Senkaku-Diaoyu.

Trata-se, evidentemente, de um paralelo não de uma igualdade, por duas razões em particular: em primeiro lugar, a Alemanha do início do século XX não somente era a segunda potência industrial depois dos Estados Unidos, mas também estava na vanguarda do progresso técnico e da inovação (como se pode verificar, por exemplo, na qualidade de Prêmios Nobel alemães e na inovação alemã nas indústrias siderúrgicas, elétricas e químicas); em segundo lugar, a Alemanha tinha a capacidade de transportar sua força militar pelo mundo inteiro.

Assim como os Estados Unidos hoje em dia há de se opor à ameaça chinesa com relação a seu próprio “status” e à segurança de seus aliados (Japão, Coreia do Sul e Filipinas em particular), a Grã-Bretanha também viu como uma ameaça a ascensão da marinha alemã, e o que ainda era pior: uma ameaça existencial contra a via marítima vital do canal da Mancha e suas próprias defesas costeiras [24].

No entanto, quaisquer que fossem suas ambições navais, a direção natural rumo à extensão de uma potência terrestre como a Alemanha, era em direção a leste, mais especificamente em direção ao Império Otomano em decomposição; isso era tanto mais evidente porquanto suas ambições na África e no Mediterrâneo ocidental estavam bloqueadas pelos franceses e pelos britânicos. O dinheiro e o militarismo andavam de mãos dadas e o capital alemão afluiu para a Turquia [25], abrindo caminho a cotoveladas com seus concorrentes britânicos e franceses. Grande parte desse capital dedicou-se a financiar a estrada de ferro Berlim-Bagdá: na verdade, tratava-se de uma rede de estradas de ferro que deviam conectar Berlim a Istambul, para logo seguir em direção ao sul da Anatólia, Síria e Bagdá, e também Palestina, Hejaz e Meca. Numa época em que os movimentos de tropas dependiam das estradas de ferro, isso tornava possível ao exército turco, equipado com armas alemãs e treinado por militares alemães, mandar tropas que teriam ameaçado tanto a refinaria britânica de Abadã (na Pérsia, hoje Irã) [26], como o controle britânico do Egito, do canal de Suez: esta era uma ameaça alemã direta contra os interesses estratégicos da Grã-Bretanha. Durante grande parte do século XIX, a expansão russa na Ásia Central, que supunha uma ameaça sobre a fronteira persa e sobre a Índia, era o principal risco para a segurança do Império britânico; a derrota da Rússia pelo Japão em 1905 havia acalmado suas pretensões orientais a ponto de em 1907 um tratado anglo-russo podia ao menos temporariamente – solucionar os conflitos entre os dois países no Afeganistão, na Pérsia e no Tibete. A Alemanha era agora um rival a ser enfrentado.

Inevitavelmente, a política oriental da Alemanha significava para ela um interesse estratégico nos Bálcãs, no Bósforo e no Dardanelos. O fato da estrada de ferro entre Berlim e Istambul ter que passar por Viena e Belgrado fazia que o controle, ou ao menos a neutralidade, da Sérvia, passasse de repente a ser de grande importância estratégica para a Alemanha. Por sua vez, isto a colocava em conflito com um país que – nos tempos de Bismarck – tinha sido o bastião da reação e da solidariedade autocrática, ou seja, o principal aliado da Prússia e da Alemanha imperial: a Rússia.

Desde o reinado de Catarina, a Grande, a Rússia havia se firmado (nos anos 1770) como potência dominante do Mar Negro, eliminando os otomanos. O comércio cada vez mais importante da indústria e da agricultura russas dependia da liberdade de navegação no Estreito de Bósforo. A ambição russa apontava para o Dardanelos e o controle do tráfego marítimo entre o Mar Negro e o Mediterrâneo (os objetivos russos no Dardanelos já tinham levado à guerra com a Grã-Bretanha e a França na Crimeia em 1853). Luxemburgo resumiu assim a dinâmica da sociedade russa que impulsionava sua política imperialista: “Por um lado, nas tendências de conquista do czarismo se manifesta a expansão tradicional de um império poderoso, cuja população abrange hoje 170 milhões de homens e que trata de alcançar, tanto por motivos econômicos como estratégicos, o livre acesso aos mares, ao oceano Pacífico no Oriente e ao Mediterrâneo no Sul. Por outro lado, a sobrevivência do absolutismo implica na necessidade de manter uma posição que imponha respeito na concorrência geral dos grandes Estados ao nível da política mundial para assegurar o crédito financeiro do capitalismo estrangeiro, sem o qual o czarismo não pode viver. (…) No entanto, cobram cada vez mais importância os interesses burgueses modernos como fator do imperialismo no império czarista. O jovem capitalismo russo, que sob o regime absolutista não pode alcançar, como é natural, seu desenvolvimento completo nem sair, em geral, da fase do primitivo sistema de saque, vê diante de si um brilhante futuro pelas incomensuráveis fontes naturais deste gigantesco império. (…) É a previsão desse futuro e, por assim dizer, como adiantamento da avidez de acumulação, o que enche a burguesia russa de um ímpeto marcadamente imperialista e que a faz se manifestar com ardor suas pretensões na repartição do mundo” [27]. A rivalidade entre a Alemanha e a Rússia pelo controle do Bósforo se encontrou inevitavelmente com seu ponto nevrálgico nos Bálcãs, onde o avanço da ideologia nacionalista característica de um capitalismo em vias de se desenvolver criava uma situação de tensão permanente e guerra sangrenta intermitente entre os três Estados que nasceram do Império Otomano em decomposição: Grécia, Bulgária e Sérvia. Estes três países se aliaram contra os otomanos na Primeira Guerra dos Bálcãs, e brigaram entre si para repartir o butim – em particular na Albânia e na Macedônia – durante a Segunda Guerra dos Bálcãs [28].

A ascensão desses novos Estados nacionais agressivos nos Bálcãs não podia deixar indiferente o outro império declinante da região: Áustria-Hungria. Para Luxemburgo, “a monarquia dos Habsburgo não é a organização política de um Estado burguês, mas unicamente um sindicato desconexo de uns quantos bandos de parasitas sociais que querem recolher alguns punhados, utilizando os meios de poder estatais, enquanto se mantém a maçã podre da monarquia”, e a Áustria-Hungria estava constantemente sob a ameaça das novas nações que a rodeavam e todas eram compostas das mesmas etnias que certas partes do Império: daí a anexação pela Áustria-Hungria da Bósnia-Herzegovina, com o objetivo de impedir à Sérvia um acesso ao Mediterrâneo.

Em 1914, a situação na Europa se assemelhava a um cubo de Rubik (cubo mágico) mortal, suas distintas peças estavam tão estreitamente imbricadas que mover uma delas significava necessariamente mover todas elas.

Os sonâmbulos despertos

Isso quer dizer que as classes dominantes, os governos, não sabiam o que faziam, que de certo modo – segundo o título do livro de Christopher Clark, Os Sonâmbulos –, entraram em guerra por acidente, que a Primeira Guerra Mundial não foi mais que um terrível engano?

De jeito nenhum! Sem dúvida alguma, as forças históricas descritas por Luxemburgo, na análise possivelmente mais profunda já escrita sobre a entrada em guerra, mantinham a sociedade pressionada: neste sentido, a guerra era o resultado de rivalidades imperialistas imbricadas. As situações históricas chamam ao poder os homens que lhes correspondem e os governos que arrastaram a Europa e o mundo à guerra sabiam muito bem o que faziam e o fizeram deliberadamente. Os anos de transição do século até o estouro da guerra caracterizaram-se por repetidos alertas, cada um mais grave que o anterior: a crise de Tanger em 1905, o incidente de Agadir em 1911, as Primeira e Segunda Guerra dos Bálcãs. Cada incidente impulsionava adiante a fração pró-guerra de cada burguesia, reforçando a ideia de que a guerra era de qualquer forma inevitável. O resultado foi uma corrida armamentista absurda: a Alemanha pôs em marcha seu programa de construção naval e a Grã-Bretanha seguiu-lhe os passos; a França aumentou a duração do serviço militar obrigatório para três anos; enormes empréstimos franceses financiaram a modernização das estradas de ferro do pequeno, mas eficaz, exército sérvio. Todas as potências continentais aumentaram o número de homens convocados para as fileiras.

Cada dia mais convencidos de que a guerra era inevitável, a pergunta para os governos europeus era simplesmente: quando? Quando estariam completos os preparativos de cada um em relação a seus rivais? Esse seria o “bom” momento para a guerra.

Se Luxemburgo via na Alemanha o novo “fator imprevisível” da situação europeia, isso significa que as potências da Tríplice Aliança (Grã-Bretanha, França e Rússia) eram vítimas inocentes da agressão expansionista alemã? Essa é a tese de alguns historiadores revisionistas atuais: a luta contra o expansionismo alemão não só se justificava em 1914, mas, basicamente, 1914 foi o precursor da “boa guerra” de 1939. Isto sem dúvida é verdade, mas os países da Tríplice Aliança poderiam ser tudo, mas nunca vítimas inocentes. E a ideia de que somente a Alemanha era “expansionista” é ridícula, quando comparamos o tamanho do Império Britânico – fruto da agressão expansionista britânica – com o da Alemanha: curiosamente, isto nunca parece passar pelas cabeças dos historiadores ingleses domesticados [29].

Na verdade, a Tríplice Aliança preparava há muitos anos uma política de cerco da Alemanha (assim como os Estados Unidos desenvolveram uma política de cerco à URSS durante a Guerra Fria e hoje tentam fazer o mesmo com a China). Rosmer o demonstra com uma nitidez irretocável, baseando-se nas correspondências secretas entre os embaixadores belgas das distintas capitais europeias [30].

Em maio de 1907, o embaixador em Londres escrevia: “Fica claro que a Inglaterra oficial dá prosseguimento a uma política silenciosamente hostil, que tende a conseguir o isolamento da Alemanha, e que o rei Eduardo não vacilou em pôr sua influência pessoal a serviço desta ideia” [31]. Em fevereiro de 1909, temos notícias do embaixador em Berlim: “O rei da Inglaterra afirma que a manutenção da paz sempre foi o objetivo de seus esforços; é o que não cansou de dizer desde o começo da campanha diplomática que levou a cabo, com o fim de isolar a Alemanha; mas não se pode deixar de observar que a paz do mundo nunca esteve tão comprometida como quando o rei da Inglaterra se pôs a consolidá-la” [32]. De Berlim, de novo, lemos em abril de 1913: “A arrogância e o menosprezo com que estes [os sérvios] recebem as reclamações do gabinete de Viena somente podem ser explicados pelo apoio que pensam encontrar em São Petersburgo. O encarregado de negócios da Sérvia dizia aqui recentemente que seu governo não teria dado passos adiante há 6 meses, omitindo as ameaças austríacas, caso não tivesse sido incentivado pelo ministro da Rússia, o Sr. Hartwig…” [33].

Na França, o desenvolvimento consciente de uma política agressiva e chauvinista tornou-se perfeitamente claro para o embaixador belga em Paris (janeiro de 1914):“Eu tive a honra de informar-lhes que são os Srs. Poincaré, Delcassé, Millerand e seus amigos os que inventaram e deram prosseguimento à política nacionalista, patrioteira e chauvinista cujo renascimento constatamos (…) Vejo nisso um grande risco que ameaça hoje a paz da Europa (…) porque a atitude adotada pelo gabinete Barthou é, no meu modo de ver, a causa determinante de um incremento nas tendências militaristas na Alemanha” [34].

A reintrodução na França de um serviço militar de três anos não era uma política de defesa, mas um preparativo deliberado para a guerra. Citemos de novo o embaixador em Paris (junho de 1913): “O fardo da nova lei será tão pesado para a população, os gastos que implicará serão tão exorbitantes, que o país rapidamente protestará, e a França encontrar-se-á diante deste dilema: uma renúncia que não poderá suportar ou a guerra a curto prazo” [35].

Como declarar a guerra

Dois fatores foram levados em conta nos cálculos dos estadistas e políticos nos anos que conduziram à guerra: em primeiro lugar, a avaliação de seus próprios preparativos militares e dos de seus adversários; em segundo lugar – igualmente importante, inclusive na Rússia czarista e autocrática – a necessidade de aparecer diante do mundo e diante de suas próprias populações, sobretudo os operários, como a parte ofendida, que somente atuava para se defender. Todos os poderes queriam entrar em uma guerra que outro tinha causado: “O jogo consiste em levar o adversário a realizar um ato que poderá ser explorado contra ele ou a aproveitar uma decisão já tomada” [36].

O assassinato de Francisco Fernando, a faísca que acendeu a mecha, não foi obra de um indivíduo isolado: Gavrilo Princip disparou o tiro mortal, mas não era senão um membro a mais de um grupo de assassinos organizado e armado por uma das redes organizadas pelos grupos sérvios ultranacionalistas “Mão Negra” e “Narodna Odbrana” (“Defesa Nacional”), que quase era um Estado dentro do Estado e cujas atividades eram perfeitamente conhecidas pelo governo sérvio e mais concretamente por seu Primeiro Ministro, Nicolas Pasič. A Sérvia mantinha estreitas relações com a Rússia e nunca teria empreendido tal provocação se não estivesse segura do apoio russo contra uma reação austro-húngara.

O governo austro-húngaro não poderia deixar passar a ocasião de atacar o calcanhar da Sérvia [37]. A investigação policial não mediu palavras para apontar a Sérvia com o dedo, e os austríacos estavam confiantes que o choque provocado entre as classes dirigentes europeias iria outorgar-lhes o apoio destes ou ao menos sua neutralidade, quando atacassem a Sérvia. Com efeito, para a Áustria-Hungria não lhe restava outra opção que a de atacar e humilhar a Sérvia; fazer menos teria significado um golpe devastador para seu “status” e sua influência na região crítica dos Bálcãs, deixando-a completamente a mercê de seu rival russo.

Para o governo francês, uma “guerra dos Bálcãs” era a situação ideal para lançar um ataque contra a Alemanha: se a Alemanha pudesse ser arrastada a uma guerra para defender a Áustria-Hungria, e a Rússia acudisse em defesa dos sérvios, a mobilização francesa poderia apresentar-se como uma medida de defesa preventiva contra o perigo de um ataque alemão. Mais ainda, era pouco provável que a Itália, a princípio aliada da Alemanha, mas com interesses nos Bálcãs, entrasse em guerra para defender a Áustria-Hungria na Bósnia-Herzegovina.

Dada a aliança que enfrentava, a Alemanha estava em uma posição de debilidade, contando como único aliado a Áustria-Hungria, esse “bando em decomposição organizada”, como dizia Rosa Luxemburgo. Os preparativos militares na França e na Rússia, o desenvolvimento de sua “Entente” com a Grã-Bretanha, levaram os estrategistas alemães à conclusão que mais valia ir para o enfrentamento o mais cedo possível, antes que seus adversários estivessem inteiramente preparados. Daí uma observação em 1914: “É absolutamente necessário que caso se estenda o conflito[entre Sérvia e Áustria-Hungria] (…) seja a Rússia a que leve a responsabilidade” [38].

A população britânica não estava muito animada para entrar na guerra para defender a Sérvia; o mesmo ocorria na França. A Grã-Bretanha também necessitava de um“pretexto para tentar convencer uma parte importante de sua opinião pública. A Alemanha lhe proporcionou um, excelente, ao invadir a Bélgica com seus exércitos”. Rosmer cita o Tragedy of Lord Kitchener do Visconde Esher, para este fim: “O episódio belga foi um golpe de sorte que chegou a ponto de dar à nossa entrada na guerra o pretexto moral necessário para preservar a unidade da nação, ou ao menos do governo” [39]. Na verdade, os planos britânicos para um ataque contra a Alemanha, preparados há muito tempo em colaboração com os militares franceses, previam desde anos atrás a violação da neutralidade belga…

Todos os governos dos países beligerantes deviam, portanto, enganar sua “opinião pública” fazendo-a acreditar que lhes impuseram uma guerra que já estavam preparando e buscando há muitos anos. O elemento crítico desta “opinião pública” era a classe operária organizada, com seus sindicatos e partidos socialistas, que afirmavam claramente há muitos anos sua oposição à guerra. O fator principal que abriria o caminho para a guerra tinha que ser, portanto, a traição da socialdemocracia e seu apoio outorgado ao que a classe dominante chamou cinicamente de uma “guerra defensiva”.

As causas subjacentes de tamanha e monstruosa traição ao dever internacionalista mais elementar por parte da socialdemocracia serão objeto de um próximo artigo. Basta por agora dizer aqui que a pretensão atual da burguesia francesa, que afirma que “num instante se apagaram as múltiplas disputas políticas, sociais, religiosas, que tinham dividido o país” não são senão mentiras grosseiras. Ao contrário, contada por Rosmer, a história dos dias precedentes ao estouro da guerra é a de manifestações constantes contra a guerra, brutalmente reprimidas pela polícia. Em 27 de julho, a CGT chamou uma manifestação e “das 9 às 12 da noite (…), uma multidão enorme afluiu sem parar aos bulevares. Enormes forças policiais foram mobilizadas (…). Mas são tão numerosos os operários que chegam dos subúrbios ao centro que a tática policial [de separar os manifestantes em pequenos grupos] chega a um resultado imprevisto: rapidamente se contam tantas manifestações como ruas. As violências e as brutalidades policiais não podem com a combatividade desta multidão; toda a tarde, o grito de ‘Abaixo a guerra!’ ressoará desde a Ópera até a Praça da República” [40].

A burguesia francesa ainda tinha outro problema: a atitude do dirigente socialista Jean Jaurès. Jaurès era um reformista, em um momento da história em que o reformismo se situava entre a burguesia e o proletariado, mas profundamente comprometido na defesa da classe operária (precisamente por isso sua influência entre os operários era muito grande) e apaixonadamente oposto à guerra. Em 25 de julho, quando a imprensa informa sobre a rejeição por parte da Sérvia do ultimato austro-húngaro, Jaurès devia falar em um comício eleitoral em Vaise, perto de Lyon: seu discurso centrou-se não nas eleições, mas no temível risco de guerra “Nunca em 40 anos, a Europa esteve em uma situação de ameaça tão trágica (…). Atualmente temos contra nós, contra a paz, contra a vida dos homens, uns acontecimentos terríveis e contra os quais será necessário que os proletários da Europa realizem os esforços de solidariedade suprema que estejam em suas mãos” [41].

A princípio, Jaurès acreditou nas garantias fraudulentas do governo francês segundo as quais trabalharia pela paz, mas em 31 de julho já havia perdido suas ilusões e no Parlamento pediu uma vez mais aos operários que fizessem o possível para se opor à guerra. Rosmer diz: “Corre o rumor de que o artigo que vai escrever em breve para o número de sábado de L’Humanité será um novo “Eu Acuso!” [42], que denunciará as intrigas e as mentiras que puseram o mundo no limiar da guerra. À tarde (…)encabeça uma delegação do grupo socialista ao Quai d’Orsay [o Ministério de Assuntos Exteriores]. Viviani não está aí. É o Subsecretário de Estado quem recebe a delegação. Depois de ter escutado Jaurès, pergunta-lhe que pensam fazer os socialistas diante da situação: ‘Seguir nossa campanha contra a guerra!’, responde Jaurès. Ao que Abel Ferry replica: ‘Nem se atreva!, pois o matarão ao dobrar a esquina!’” [43]. Duas horas mais tarde, quando Jaurès regressa ao seu escritório deL’Humanité para escrever o temido artigo, o assassino Raoul Villain o mata com dois tiros de pistola à queima-roupa que provocaram sua morte instantânea [44].

Definitivamente, a classe burguesa francesa não deixou nem um cabo solto quando se tratou de garantir “a unidade e a coesão nacional”!

Não há guerra sem operários

Quando se depositam coroas de flores e quando os grandes deste mundo se inclinam diante de monumentos ao soldado desconhecido nas comemorações, quando nossos dirigentes pagam milhões de euros ou libras, quando soam as trombetas pelas mortes depois de cerimônias solenes, quando os documentários fluem nas telas de televisão e quando os historiadores cultos nos contam as causas da guerra, exceto as que realmente têm importancia, assim como todos os fatores que poderiam tê-la impedido, exceto os que realmente poderiam ter pesado na balança, os proletários do mundo inteiro, sim, devem lembrar.

Lembrar que as causas da Primeira Guerra Mundial não foram as casualidades históricas, mas os mecanismos implacáveis do capitalismo e do imperialismo, que a Grande Guerra abriu um novo período na história, uma “era de guerras e revoluções” como disse a Internacional Comunista. Este período continua sendo hoje o nosso, e as mesmas forças que levaram o mundo à guerra em 1914 são responsáveis hoje pelos massacres sem fim no Oriente Médio e na África, alimentando tensões a cada dia mais perigosas entre a China e seus vizinhos no mar da China meridional.

Lembrar que a guerra não pode ser feita sem os operários, como carne de canhão e carne de fábrica. Lembrar que as classes dominantes devem garantir a unidade para a guerra e que nada as deterão para obtê-la, desde a repressão brutal até o assassinato sangrento.

Lembrar-se de que são os mesmos partidos “socialistas” que se põem hoje à cabeça de qualquer campanha pacifista e humanitária, os que traíram a confiança de seus antepassados em 1914, deixando-os desorganizados e sem defesa diante da máquina de guerra capitalista.

Lembrar, enfim, que se a classe dominante teve que fazer tal esforço para neutralizar o proletariado em 1914, foi porque o proletariado é a única força que pode levantar uma barreira confiável contra a guerra. Somente o proletariado mundial leva em si mesmo a esperança de derrubar o capitalismo e o perigo da guerra de uma vez por todas.

Há cem anos, a humanidade estava diante de um dilema cuja solução continua, única e exclusivamente, nas mãos do proletariado: socialismo ou barbárie. Este dilema continua hoje diante de nós.

Jens

[1] É irônico constatar que o título do filme foi tirado de um livro de antes da guerra escrito pelo economista britânico Norman Angell, que pretendia que a guerra entre potências capitalistas avançadas, por estarem suas economias estreitamente ligadas e interdependentes, tinha se tornado impossível. Esse tipo de argumento é o que hoje pode ser ouvido sobre a China e os Estados Unidos.

[2] Nem é necessário dizer que, tal qual outras obras aqui mencionadas, Nada de novo no fronte foi proibido pelos nazistas depois de 1933. Também foi proibido entre 1930 e 1941 pela censura australiana.

[3] É surpreendente, pelo contrário, que o poeta de guerra patriótico inglês mais famoso, Rupert Brooke, não tenha nunca conhecido o combate, visto que morreu enfermo vendo o assalto a Galípoli.

[4] Isto foi objeto de uma polêmica na imprensa alemã.

[5] Projeto talvez muito louvável, mas que não servirá em quase nada para compreender as causas da Grande Guerra.

[7] Comemorar a Grande Guerra (2014-2020): propostas para um centenário internacional, por Joseph Zimet, da “Direção da memória, do patrimônio e dos arquivos”, http://centenaire.org/sites/default/files/references-files/rapport_jz.pdf

[8] É surpreendente ver que a grande maioria das execuções por desobediência militar no exército francês ocorreu durante os primeiros meses da guerra, o que sugere uma falta de entusiasmo que devia ser cortada pela raiz imediatamente (veja-se o informe ao Ministro de Ex-Combatentes, Kader Arif, de outubro de 2013):http://centenaire.org/sites/default/files/references-files/rapport_fusilles.pdf

[9] Vale à pena mencionar aqui que o título Os Sonâmbulos foi extraído da trilogia do mesmo nome escrita por Hermann Broch em 1932. Broch nasceu em 1886 em Viena, de família judia, mas converteu-se em 1909 ao catolicismo. Em 1938, depois da anexação da Áustria, foi detido pela Gestapo. No entanto, graças à ajuda de amigos (entre os quais James Joyce, Albert Einstein e Thomas Mann), pôde emigrar para os Estados Unidos, onde viveu até sua morte em 1951. Die Schlafwandler conta a história de três indivíduos durante os anos de 1888, 1905 e 1918, respectivamente, e examina as questões colocadas pela decomposição dos valores e da subordinação da moral às leis do lucro.

[10] Tradução nossa.

[11] Veja-se nosso artigo “O anarcosindicalismo diante da mudança de época; a CGT francesa até 1914”, Revista Internacional nº 120:http://es.internationalism.org/rint/2005/120_CGT.html

[12] Cf. Hew Strachan, The First World War, tomo 1.

[14] Le mouvement ouvrier pendant la guerre, Éditions d’Avron, maio de 1993.

[15] O segundo tomo foi publicado depois da Segunda Guerra Mundial. É muito mais resumido, já que Rosmer teve que fugir de Paris durante a Ocupação alemã e seus arquivos foram confiscados e destruídos durante a guerra.

[16] Rosmer, op. cit., p. 84.

[17] Folheto de Junius, capítulo VI.

[18] Luxemburgo cita aqui uma carta de Marx ao Braunschweiger Ausschuss: “Quem não se ensurdecer com o clamor momentâneo, e não deseje ensurdecer o povo alemão, deve compreender que a guerra de 1870 traz necessariamente consigo os germes da guerra da Alemanha contra a Rússia, assim como a guerra de 1866 engendrou a de 1870. Digo necessariamente, a menos que ocorra o improvável, ou seja, que estoure antes uma revolução na Rússia. Se isso não ocorrer, pode-se considerar que a guerra entre a Alemanha e a Rússia é já um fato consumado. O fato desta guerra vir a ser útil ou perigosa, depende inteiramente da atitude do vencedor alemão. Se tomarem a Alsácia-Lorena, a França e a Rússia tomarão as armas contra a Alemanha. Seria supérfluo assinalar as desastrosas consequências.”

[20] Idem

[21] A primeira crise marroquina de 1905 foi provocada por uma visita do Kaiser a Tanger, formalmente para apoiar a independência marroquina, mas na verdade para se opor à influência francesa. A tensão militar era de suma importância: a França cancelou as licenças militares e avançou suas tropas até a fronteira alemã, enquanto que a Alemanha começou a chamar as filas de reservistas. Finalmente, os franceses cederam e aceitaram a proposta alemã de uma Conferência internacional, que foi celebrada em Algeciras em 1906. Mas os alemães tiveram uma grande decepção quando comprovaram que todas as potências europeias os abandonaram, particularmente os britânicos, e somente tiveram o benefício do apoio da Áustria-Hungria. A segunda crise marroquina ocorreu em 1911, quando uma rebelião contra o sultão Abd al-Hafid deu à França o pretexto para mandar tropas ao Marrocos, sob o pretexto de proteger os cidadãos europeus. Os alemães, por sua parte, aproveitaram o mesmo pretexto para mandar a canhoneira Panther ao porto atlântico de Agadir. Os britânicos suspeitaram que isso seria um prelúdio para a instalação de uma base naval alemã na costa atlântica, que ameaçaria diretamente Gibraltar. O discurso de Lloyd George na Mansão House (citado por Rosmer) foi uma ameaça dissimulada de declaração de guerra se a Alemanha não cedesse. Finalmente, a Alemanha reconheceu o protetorado francês no Marrocos, e recebeu em troca uns quantos pântanos na desembocadura do Congo.

[22] Atual Qingdao, onde os alemães implantaram a fábrica de cerveja que fabrica hoje a cerveja “Tsingtao”.

[23] Fofleto de Junius, op. cit.

[24] A ideia de Clark, e também de Niaal Gergusson em The Pity of War, de que a Alemanha havia ficado muito defasada com relação à Grã-Bretanha em uma corrida marítima de armamentos é absurda: ao contrário da marinha alemã, a britânica devia proteger um comércio mundial, e não se entende bem como a Grã-Bretanha não tivesse se sentido ameaçada pela construção de uma poderosa frota situada a menos de 800 quilômetros de sua capital e ainda mais perto de suas costas.

[25] Ainda que nos textos europeus daquele momento, os termos “Turquia” e “Império Otomano” fossem usadas indistintamente, é importante relembrar que o mais apropriado é o segundo: no começo do século XIX, o Império Otomano cobria não somente a Turquia, mas também o que hoje é a Líbia, a Síria, o Iraque, a península da Arábia, além de grande parte da Grécia e dos Bálcãs.

[26] Esta refinaria era importante, sobretudo por razões militares: a frota britânica acabava de substituir o carvão pelo diesel. A Grã-Bretanha possuía carvão em abundância, mas não tinha petróleo. A busca de petróleo na Pérsia foi impulsionada, sobretudo pelas necessidades da Marinha Real, com o objetivo de assegurar o abastecimento de combustível.

[27] Folheto Junius, op. cit., capítulo 4.

[28] A Primeira Guerra dos Bálcãs estourou em 1912, quando os membros da Liga dos Bálcãs (Sérvia, Bulgária e Montenegro) lutaram contra o Império Otomano com o apoio tácito da Rússia. Embora não fizesse parte da Liga, a Grécia se uniu aos combates, ao final dos quais os exércitos otomanos foram derrotados pelos quatro costados: o Império Otomano viu-se privado, pela primeira vez em 500 anos, da maioria de seus territórios europeus. A Segunda Guerra dos Bálcãs estourou imediatamente depois, em 1913, quando a Bulgária combateu a Sérvia, a qual havia ocupado, com a cumplicidade da Grécia, grande parte da Macedônia, que tinha sido prometida para a Bulgária.

[30] Estes documentos foram recolhidos pelos alemães, que publicaram longos extratos depois da guerra. Como Rosmer indica: “As apreciações dos representantes da Bélgica em Berlim, Paris e Londres, têm um valor particular. A Bélgica é neutra. Por isso, os belgas têm a mente mais livre que os implicados para apreciar os acontecimentos; ademais, não ignoram que no caso de guerra entre os dois grandes grupos beligerantes, seu pequeno país correrá grandes riscos, em particular, o de ser um campo de batalha.” (op. cit., p. 68).

[31] Idem, p. 69.

[32] Idem, p. 70.

[33] Ibidem

[34] Idem, p. 73.

[35] Idem, p. 72.

[36] Idem, p. 87.

[37] Por outro lado, o governo austro-húngaro já havia tentado pressionar a Sérvia ao revelar ao historiador Heinrich Friedjung documentos fraudulentos que supostamente eram a prova de uma conspiração sérvia contra a Bósnia e a Herzegovina (veja-se Clark, p. 88, edição Kindle).

[38] Citado por Rosmer, op. cit., p. 8, a partir de documentos alemães publicados depois da guerra.

[39] Idem, p. 87.

[40] Idem, p. 102.

[41] Idem, p. 84.

[42] Em referência ao ataque sem concessões de Emile Zola contra o governo quando do caso Dreyfus.

[43] Rosmer, op. cit., p. 91. A conversa está relatada na biografia de Jaurès por Charles Rappoport nos próprios papéis de Abel Ferry (veja-se Alexandre Croix, Jaurès et ses détracteurs (Jaurès e seus detratores), Edições Spartacus, p. 313.

[44] Jaurès foi assassinado enquanto comia no Café du Croissant, em frente aos escritórios do L’Humanité. Seu assassino, Raoul Villain, tinha muitas semelhanças com Gravilo Princip: instável, emocionalmente frágil, dedicado ao misticismo político ou religioso – em suma, exatamente o tipo de personagem que os serviços secretos utilizam como provocador e a quem podem sacrificar sem o menor escrúpulo. Depois do assassinato, Villain foi detido e passou a guerra tranquilo, quase comodamente instalado numa prisão. Depois de seu julgamento, foi liberado e a esposa de Jaurès teve que pagar pelas custas judiciais.

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