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Comédia mostra personagem que vive em descompasso com os valores capitalistas, tem problemas com a família e é passado para trás pelas pessoas que o enxergam como um “idiota”

Por Carolina Ferro

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional

Our idiot brother

Dir. Jesse Peretz, 2011, EUA 

Ned , vivido por Paul Rudd, é um cara bacana. Ele vivia numa fazenda com a namorada, produzindo alimentos orgânicos que vendia na feira. O dinheiro era necessário para a sobrevivência, não uma obrigação ou um fim. Talvez por isso, Ned não via ganância nem maldade nas pessoas. Certo dia, um policial pediu-lhe um pouco de maconha, dizendo ter tido um dia difícil. Na inocência de ajudar uma pessoa, Ned deu um pacote da erva e foi preso no mesmo instante. Isso mudaria as vidas dele e da sua família.

DivulgaçãoDivulgação

Devido ao seu bom comportamento, Ned teve direito à liberdade condicional. Mas ao sair da prisão, a namorada já estava com outro. O que mais doía em Ned era a ausência de seu cachorro, um golden retriever chamado Willie Nelson (homenagem a um cantor de música country), que ficou de posse de sua ex-companheira.

Ned teve que ir morar com sua família, mas todos o achavam um perdedor. Afinal, ele não tinha emprego, havia sido preso, não tinha perspectivas, nem dinheiro. Sua mãe aproveitava para pedir favores e suas três irmãs – Miranda (Elizabeth Banks), Natalie (Zooey Deschanel) e Liz (Emily Mortimer) – disputavam quem não ficaria com o único homem da família.

Primeiro, Ned viveu com Liz, a irmã cujo sonho era ser uma mãe exemplar, numa família perfeita. O marido trabalhava com documentários e dizia fazer ações humanitárias. O casal tinha dois filhos, um bebê recém-nascido e um menino de cerca de oito anos.  Apesar de Ned ser um tio incrível, presente e atento aos sobrinhos, o marido de Liz se incomodava com ele. Tudo piorou quando Ned o viu fazendo sexo com uma das bailarinas do documentário, o que fez com que o esposo de Liz a pressionasse para despejá-lo. Ned jamais contou o que havia visto. Na realidade, para ele tudo não passava de uma cena do filme.

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Ned só descobriu a traição quando se mudou para a casa de Miranda, a irmã jornalista que deu a notícia à Liz. Miranda notou que Ned sabia de muitas histórias, pois as pessoas confiavam nele e lhe contavam seus problemas e angústias. Certo dia, ele contou uma história mirabolante de uma pessoa conhecida, que Miranda logo transformou em artigo. Sua carreira daria uma guinada com o texto, mas seu irmão teria que assinar um termo frente aos advogados do jornal, confirmando a história. Ned optou por não assinar e preservar a intimidade da famosa. Miranda ficou furiosa com o irmão e o expulsou de casa.

Mais uma vez, Ned precisou se mudar, agora para o apartamento de Natalie, uma comediante lésbica que morava com a namorada. Sua companheira adorava Ned e até chegou a ajuda-lo a tentar sequestrar seu cachorro. Tudo seria perfeito se sua irmã não tivesse traído a namorada com um rapaz e não tivesse engravidado. Ned aconselhou a irmã a falar a verdade, pois, segundo ele, “o amor sempre vence”. Natalie mentiu ao irmão que havia conversado com sua companheira e Ned foi dar parabéns à namorada da irmã por ter compreendido e aceito a criança que estava por vir. Ao descobrir a traição, as duas brigaram, Natalie ficou sozinha e culpou Ned por ter se metido em sua vida.

Num mundo cada vez mais individualista, onde os seres humanos pensam apenas em si mesmos, Ned é apenas um “bode expiatório”. É comum que as pessoas, ao invés de realizarem uma autocrítica, culpem outras, o governo, a política, “a sociedade”. Não que essas críticas não sejam necessárias, mas, afinal, nós estamos separados do mundo? Somos apáticos e não temos responsabilidade por nada que acontece?

Essa comédia – meio drama – leve e descontraída favorece reflexões importantes. Será que vale a pena manter uma família desestruturada apenas pela aparência? Pela necessidade de mostrar à sociedade que não falhou? Falhar não faz parte da natureza humana? – Para conseguirmos uma promoção, um emprego melhor, mais dinheiro, prestígio, pode-se fazer qualquer coisa? Passar por cima de pessoas, acabar com a reputação ou a carreira de alguém faz você ser melhor? – Devemos ser sinceros com as pessoas que amamos ou é possível começar uma vida com alguém escondendo fatos primordiais para nós?

Como é uma comédia, tudo acaba bem para Ned. Suas irmãs percebem a injustiça que fizeram com ele e a família acaba mais unida do que nunca, com cada uma refazendo suas vidas, dessa vez, com os conselhos do irmão antes considerado “idiota”.

A obra faz – de forma sutil e leve – uma crítica à sociedade capitalista vigente. Em especial nos Estados Unidos, onde o ideal americano é prosperar financeiramente, quem se opõe a isso é visto de forma pejorativa, como “idiota”. Ned é o oposto do “american way of life”. Isto assustou suas irmãs durante a maior parte do tempo até que elas perceberam a “utopia da felicidade estadunidense”. O dinheiro não traz felicidade. A felicidade plena não existe, mas nada melhor que viver com tranquilidade, algo que Ned tinha de sobra e suas irmãs desconheciam.

Ser “idiota” na sociedade em que se passa o filme é ser honesto, verdadeiro, gentil, carinhoso, acreditar no ser-humano acima de tudo, não ser guiado por sentimentos como ganância ou ódio. Talvez não haja mais, naquele sentido, “idiotas completos”. Mas cada um de nós podemos ser pouco “idiota” – e é bom que sejamos, para que não percamos totalmente a nossa humanidade.

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