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Entre interpretação e realidade, filme apresenta caso do desaparecimento de homem simples da Rocinha para colocar outras questões em pauta

Por Angélica Fontella

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional

O Estopim

Dir. Rodrigo Mac Niven, Brasil, 2014

“A polícia informou…”, “o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro divulgou…”, “o secretário de segurança pública da capital fluminense declarou…” Frases como essas são usadas diariamente pela imprensa e, para o bem ou para o mal, muitas vezes representando uma ideia de verdade. Nas manifestações de 2013, múltiplas vozes tentaram se fazer ouvir e uma das 368 pessoas desaparecidas no estado do Rio de Janeiro em julho do mesmo ano (dados do ISP) se tornou símbolo: Amarildo de Souza. O morador da Rocinha – comunidade da zona sul carioca – desapareceu no dia 14 de julho de 2013, após ser abordado por policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e conduzido “para averiguação” à sede da UPP. Nunca mais apareceu. Com intuito de abrir o debate sobre violência e projetos de militarização, foi produzido o documentário O Estopim, que estreou no Festival do Rio 2014, mas que ainda está sem previsão de lançamento.

Cena do cotidiano de Amarildo (Brunno Rodrigues) /DivulgaçãoCena do cotidiano de Amarildo (Brunno Rodrigues) /Divulgação

Escutas que reproduzem diálogos da rádio da Polícia Militar do Rio, no dia do desaparecimento de Amarildo (14 de julho), abrem o longa-metragem do cineasta Rodrigo Mac Niven, que já dirigiu Cortina de Fumaça (2010) e Armados(2012). O filme mescla ficção e documentário, contendo depoimentos de conhecidos de Amarildo e pessoas envolvidas no caso; além de cenas que reconstroem situações que teriam sido vividas por Amarildo, interpretado pelo ator Brunno Rodrigues, no filme, como cenas de trabalho e pesca. Segundo a esposa do pedreiro, pescar era seu único vício.

Quem guia o espectador durante os 82 minutos de exibição é o líder comunitário da Rocinha, Carlos Eduardo Barbosa, o Duda, quem motivou o diretor Rodrigo Mac Niven a realizar a produção. “Fui contagiado pela coragem de pessoas como Duda, amigo da família e um dos primeiros a fazer denúncias sobre o caso, além de instigar que outros também denunciassem abusos cometidos [pela polícia]”, declarou o diretor na sessão de lançamento, no último dia 29.

Duda, com toda simplicidade, um pouco atordoado com a atenção dedicada a ele no festival, assume nas telas a postura de narrador-personagem. Ele conta como Amarildo prestava pequenos serviços à sua lanchonete na Rocinha e como era prestativo com os demais moradores da comunidade. Duda conta que a ideia do filme é “abrir esse debate e conscientizar o poder público. E se for preciso, visitaremos todas as comunidades, para reunir lideranças e fazer com que as pessoas se sintam à vontade para buscarem os seus direitos, cortando o medo. Nosso maior inimigo dentro das comunidades é o medo da polícia”.

O lançamento do longa contou com a presença de políticos, atores e ativistas. André Ramiro, que interpretou o policial militar André Matias em Tropa de Elite (2007), comentou sobre a oportunidade de unir denúncia à profissão de ator: “acredito que teatro, cinema, dramaturgia também servem para informar, desenvolver intelecto, reivindicar e contestar, caso contrário, não seria arte”.

Brunno Rodrigues se sentiu honrado em participar da produção, “não somente por se tratar de um estopim para que a sociedade desperte para a politica pública equivocada que está sendo aplicada nas comunidades cariocas, mas também por ter sido trabalho profissional entre amigos”.

O filme aborda temas como segurança pública, desmilitarização da polícia e instalação de UPP’s de forma indireta, a partir de um mosaico de depoimentos. Entre as falas, são reconstruídas cenas que teriam feito parte do cotidiano de Amarildo, além de uma sequência marcante de tortura. “Foi angustiante, mas tudo foi feito com total segurança, e enquanto artista foi um prazer dar vida a uma situação como aquela que fomentará ainda mais a pergunta ‘o que aconteceu com Amarildo?’”, conta Brunno.

Embora dê margem para a elevação do personagem ao status de homem perfeito, a produção revela lado pouco falado nos grandes meios de comunicação, ao ouvir vozes dissonantes do discurso institucional sobre o caso. O Estopim foi realizado de forma independente e colaborativa, Mac Niven conversou individualmente com profissionais que conhecia e conseguiu recrutar equipe para produzir o trabalho. Mariana Genescá, produtora executiva do filme pela TVa2 Produções, lembra que o “caso Amarildo” foi, na verdade, pano de fundo para ilustrar uma realidade muito mais ampla, que vivemos todos os dias, o que explica a urgência do projeto. “Nem sequer buscamos patrocínio, até por acharmos que não conseguiríamos e queríamos ter liberdade pra falar e mostrar o outro lado. Cadê os moradores contando o que está acontecendo com eles mesmos?” explica. O longa ainda não tem contrato de distribuição.

Assista ao trailler:

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