Anarquia ou Barbárie, Manifesto

fundo

Anarquia ou Barbárie, Manifesto

Por que Anarquia ou Barbárie?

A anarquia é a percepção ecológica da sociedade, é o entender a participação livre de cada membro da coletividade como fundamental para a existência, para o exercício da verdadeira cidadania que é viver na coletividade respeitando a diversidade.

Anarquia é muito mais que democracia, é muito mais que elegermos a cada dois anos representantes que recebem todo o poder para gerir nossas vidas conforme suas alianças políticas e desprezando o povo em nome do qual dizem governar. Anarquia é assumirmos o poder sem hierarquia, é coletivamente sermos o poder, é todos nós decidirmos em conjunto, de forma horizontal o que fazermos em nossas vidas e em nossos bairros, cidades, estados.

Anarquia é decidirmos que não queremos permanecer nos dividindo entre países, entre regiões limitadas por cercas embandeiradas que separam quintais, separam pessoas, separam culturas, colocam uma como superior à outra e originam guerras.

Anarquia é decidirmos por nossas ruas, bairros, comunidades, rios, sem a interferência de políticos que roubam nosso poder pessoal através da delegação que damos com nossos votos e utilizam sem nenhuma prestação de contas. As exceções a esta regra são mínimas e fazem parte, mesmo que não queiram, do sistema o reforçando como oposição consentida.

Enquanto isso destroem nosso planeta, nos privam de água, de ar limpo, de moradia, de comida e de vida mantendo a perversa lógica do capital, da opressão de mulheres, negros, índios, pobres, LGBT, trans, portadores de necessidades especiais, e tudo isso pra continuarmos na trilha sonora de filme de terror da alimentação do estado como única forma de vivermos livres.

Ao abdicarmos de nosso poder pelo voto e pelo reforço do estado, abdicamos de nossa liberdade enquanto alimentamos falsas esperanças de futuro sem a barbárie cada vez mais presente.

A cada dia há menos planeta, a cada dia há menos água, ar, liberdade, a cada dia um de nós é preso por protestar, a cada dia um Amarildo some, uma Claudia é arrastada, um Guarani Kaiowa se Mata, um Waimiri-Atroari é ameaçado e a temperatura do paneta aumenta, a água acaba.

Até quando vamos seguir votando no menos pior, até quando vamos seguir esperando que algum líder nos leve pela mão na direção do futuro, enquanto trocam-se os tiranos que nos prendem, matam, torturam, estapeiam, nos deixam com fome, desesperados, sem direito á moradia, sem direito a transporte digno?

Até quando teremos medo?

Autogestão

O que é a autogestão?

Como a formação sugere, é gerir, comandar e organizar a si mesmo. Numa sociedade autogerida, não há necessidade de governos, líderes, hierarquia ou qualquer verticalidade. Quem pode, melhor que a sociedade, saber o que é melhor para si mesma?

A autogestão, acreditamos, é um dos sustentáculos da teoria anarquista – talvez o sustentáculo. Se nós, humanos, não podemos viver sem um líder, administrador ou governo, a anarquia é, sim, uma utopia irrealizável.

Porém, será mesmo que a autogestão é algo assim tão difícil, complexo e distante da nossa realidade? Por que tantas pessoas questionam essa capacidade?

Ivan Illich foi um crítico devastador das instituições. Ele sempre defendeu uma sociedade sem instituições (escolas, igrejas, polícias) pois elas limitam o homem. Delegar a maioria das nossas tarefas a outrem é nada mais do que se deixar condicionar a um estado de letargia.

Usando a escola como exemplo: passa-se a visão de que o conhecimento só poderá ser adquirido na escola, através daquela junta de profissionais. Se exclui completamente a possibilidade de se aprender “sozinho” (não consideramos que se possa aprender completamente sozinho) ou com o compartilhamento de informações entre indivíduos com o mesmo interesse.

Lá, na escola, se aprende a respeitar as hierarquias impostas, não a questioná-las. Aprende-se, em suma, a ser medido pela régua de outra pessoa. Onde ficaria o reconhecimento pessoal em relação aos estudos? Quem pode dizer com eficácia o quanto aprendi?

Vemos, então, a origem do pensamento da impossibilidade de autogestão.

A verdade é que naturalizamos conceitos de nossa sociedade. Isto é, tornamos invariável o variável. Aquilo a que não estamos acostumados ou está fora de nossa visão de mundo, tende a ser estranho e impossível.

Assim podemos explicar toda essa repulsa à autogestão: ela existe numa lógica diferente de sociedade. Ela não pode, por exemplo, ser aplicada no modelo sociedade em que vivemos atualmente. Para tal, é preciso uma desconstrução e reconstrução simultânea dos nossos valores. É preciso desfazer e recriar uma nova lógica de sociedade. E é preciso, antes de qualquer coisa, querer que a autogestão exista. Se temos essas premissas básicas, a autogestão já deixa de ser uma paisagem nebulosa e se torna nítida e possível.

Ecologia

A anarquia ou é ecológica ou não é anarquia.

A anarquia busca a relação equilibrada entre todos sem nenhuma divisão de classe, sem divisão de gênero, orientação sexual, identidade de gênero, cor, credo, etnia. A anarquia funciona alimentada na relação ecológica entre os membros de um coletivo.

É por isso que o coletivo Anarquia ou Barbárie defende que não pode existir luta política sem que haja a luta pela preservação do planeta.

Sem que combatamos os combustíveis fósseis, o agronegócio latifundiário, o desenvolvimentismo genocida, a tal ideologia do progresso que alimenta a locomotiva que jogará toda a vida na terra no abismo da extinção, sem que combatamos isso tudo não existe anarquia, não existe liberdade, só finitude.

A anarquia é obrigatoriamente uma ideologia de combate à superioridade do homem em relação à natureza, é obrigada a lutar contra a transformação da Terra em um bem utilitário.

A luta anarquista é também a luta do índio, do quilombola, do pescador artesanal, do ribeirinho, do atingido por barragem, da vítima de racismo ambiental, dos moradores que sofrem com resíduos tóxicos de fábricas, siderúrgicas, que são removidos de suas casas para a construção de mega empreendimentos, que são removidos de suas casas e vidas para obras de mobilidade, que são removidos para obras de megaeventos esportivos, etc.

A luta anarquista é a luta contra o estado e contra a civilização como vetor de predação da natureza.

Sem ecologia não há anarquia.

A anarquia não pode permitir que o uso da tecnologia seja a criação de grilhões exploradores da humanidade. Tecnologia não pode ser vetor da barbárie, mas vetor de libertação.

A anarquia necessita do respeito ao coletivo, ao meio ambiente, para ser o exercício pleno da autogestão e da autodeterminação de homens e mulheres.

A anarquia deve combater o uso da tecnologia como ferramenta de exploração e como arma de destruição planetária e por isso é preciso que anarquistas se juntem aos lutadores ambientais contra o uso da energia nuclear e seus riscos e resíduos daninhos à vida, pelo fim dos combustíveis fósseis e pelo reordenamento da matriz energética, com o uso de matrizes renováveis.

Além disso, é preciso que lutemos contra a centralização das decisões a respeito da economia e do uso dos recursos naturais, combatendo a presença do estado como centralizador autoritário de decisões estratégicas que nos levam à construção de usinas para geração de energia sem nenhuma racionalidade, com energia voltada pra produção, alimentando o círculo vicioso da produção para o consumo, do consumismo alimentado pela obsolência programada e tudo isso considerando que o meio ambiente é fonte inesgotável de recursos.

A luta contra o uso de combustíveis fósseis e pela revolução urbana e de mobilidade é uma luta fundamental para que o combate ao aquecimento global seja vitorioso e freie a palpável extinção da vida como a conhecemos neste planeta bombardeado de forma irresponsável pelo consumo de petróleo e carvão que elevam a temperatura da Terra, extinguem espécies, danificam o regime de chuvas, o regime hídrico e provocam as secas com as quais convivemos cada vez mais, além dos eventos extremos climáticos como super tufões e chuvas torrenciais que levam milhares, e até milhões, à morte.

A luta anarquista é também a luta pela emancipação animal, pelo fim dos testes científicos em animais, pela transformação de nossa relação com o consumo de carne, buscando a racionalização produtiva e até a abolição se entendermos que enquanto espécie somos opressores dos animais.

A luta anarquista é antes de tudo a luta pela liberdade do mundo, pela transformação da nossa relação com a natureza, pelo entendimento da Terra como um organismo vivo e que precisa de liberdade dos seres que aqui vivem para que tenha equilíbrio e não seja transformada em um inferno para a vida como a conhecemos.

A luta anarquista é a luta pela percepção ecológica da sociedade e do planeta, sem que sejamos vistos como organismos engrenagem de uma máquina destruidora feita para a geração de lucros pros ricos enquanto os pobres padecem, espécies animais e vegetais são extintas e a vida desaparece.

A luta anarquista é agro ecológica, é solar e precisa gritar aos quatro vetos: Anarquia ou Barbárie

Contra toda forma de opressão

O sistema capitalista, assim como todas as formas de organização social que têm classes sociais, divide as pessoas de todas as formas para melhor arrebanha-las. Isso é feito com a religião, por exemplo, e com o nacionalismo, que são usados para dividir trabalhadores em condições idênticas, criando diferenciações que os farão se odiarem e jamais se unirem a despeito de tudo que têm em comum: a condição de obediência permanente a um chefe e a um poder dos quais não participa, a traição a que é submetido pela classe política que o engana, pela autoridade que o vilipendia etc.

Porém, dentro de um pequeno rebanho, de uma mesma nação ou grupo étnico, existe a opressão para causar a divisão interna de um mesmo povo/grupo. Entre as formas de opressão podemos listar o machismo (sexismo), o racismo (xenofobia), a homofobia, a transfobia, a bifobia, os preconceitos ligados ao padrão estético etc. Essas formas de ódio são ideologias do capitalismo, profundamente naturalizados no dia a dia ao ponto de não serem percebidos ou serem considerados “normais”, ou mesmo “bom-humor” quando vem na forma de piadas e entretanto essas formas de divisão existem materialmente como discurso e ideologia, e cumprem o papel de dividir as pessoas e fortalecer um padrão ideal de ser humano que concentra todos os privilégios comportamentais, possui  a maior mobilidade social e acesso à oportunidades, além de não ser submetido a nenhuma opressão.

No ocidente, esse parâmetro é o homem branco heterossexual e cisgênero (o oposto de transgênero). Nenhuma ação de outras “classes” (mulheres, negros, trans*, gays etc) poderá ser considerada opressão a estes, e mesmo que o patriarcado e a sociedade capitalista reservem dificuldades para todos, e ser esse padrão inclua reprimir certas posturas, essa situação não pode se comparar com a dos demais grupos em nenhuma hipótese.

O machismo

A mulher é diariamente assediada em todos os meios, senão na própria família; por muitas vezes esse assédio é verbal, por outras, físico, mas os danos à psique, à confiança e à dignidade estão lá de todo modo. A ameaça constante do estupro numa sociedade onde o corpo é objetificado e a mulher é tratada como um produto, ou um agente da satisfação do homem, é constante. A desigualdade de oportunidades e pagamentos, de mulheres em posição de liderança; tudo isso, se melhorou, ainda não o fez de modo satisfatório, e ainda muita violência e sujeição é tolerada e incentivada. Mulheres são levadas a adotar ideologias submissas e desprezar outras mulheres na competição pela atenção masculina e pelo desejo dos homens, gerando a falta de sororidade (companheirismo entre mulheres)

Quando isso chega na questão da mulher trabalhadora, sobretudo negra ou indígena, o assédio é elevado a potências muito maiores, os trabalhos disponíveis são os mais precários e desprezados que existem disponíveis e as condições de dignidade estão entre as piores.

Contra todos os governos contra todos os senhores

A luta anarquista é a luta pela destruição de toda hierarquia, de todo poder, de todo o estado. é a luta de empoderamento coletivo completo e pelo combate, se exceções, a todos que defendem o estado como meio de mediação entre a sociedade e o exercício do poder.

O reconhecimento de boas ações programáticas por parte dos defensores do estado. e até defesa de conquistas de direitos e redução de nossa miséria cotidiana,  não nos torna defensores da usurpação de nosso poder pelos estatistas e pelo domínio de classe exercido por quem controla o estado sobre todos nós.

O estado é a arma dos diversos sistemas que se revezaram no plano do domínio da humanidade para exercer o controle da população através do monopólio da violência que controla. O estado é a mão pesada co capital em nossas jugulares e mesmo quando este apresenta sua face mais doce, oculta a imagem de cão de guarda da burguesia ou da burocracia que o controla.

Partidos como o PT, PSOL, PSTU, PCB representam uma parte da defesa do estado que se apresenta como mais humana ou aponta para uma face revolucionária que superaria as dicotomias de classe, toda a opressão, sob o comando de um estado que encaminharia a transformação social até o fim de toda divisão de classes. Porém, comandantes deste processo, jamais colocam a divisão de classe, a desigualdade e a miséria que combatem como parte fundamental da estrutura do estado que fortalecem eleição a eleição ou revolução a revolução, trocando o dominante ou a classe que exerce a dominação, sem alterar a estrutura de hierarquização e de exercício do poder de cima pra baixo.

O combate ao estado portanto, é central para que se exerça uma desconstrução do poder, tomando-o do estado e diluindo-o para o controle da população que organizada em conselhos e coletivos de bairros, cidades, superando a divisão geopolítica e estados, países e organizando-se onde moram, onde conhecem as ruas, os rios, as florestas, libertos da exploração do capital e do domínio do estado estejam livres para o exercício do bem viver de forma ecológica, ou seja, participando da ecologia das matas da natureza e da ecologia social,, da relação equilibrada entre indivíduos que não tenha, a brutal face liberal da cadeia alimentar.

Para que este combate ser um exercício de libertação é preciso que ele seja constituído pela luta ampla por ampliação de direitos e pela denúncia do estado como cerceador de direitos.

Para que este combate seja a construção da libertação é preciso que se lute pelo fim da miséria e se construa mais e mais pressão para a redução da desigualdade sem no entanto deixar de denunciar este estado e todos os governos como mantenedores da exploração que gera a miséria.

Para que este combate seja a consolidação da libertação é preciso que se lute cotidianamente pelo fim de toda opressão por gênero, raça, orientação sexual, identidade de gênero, é preciso que se consolide a desconstrução do machismo, da homofobia, do racismo, da bifobia, transfobia, lesbofobia por todas as medidas possíveis no plano da educação e da penalização da violência e dos crimes de ódio, sem no entanto esquecer que o estado alimenta estas opressões cotidianamente em nome da manutenção do exercício do poder pelos grupos que o controlam.

É fundamental que elogiemos a retirada das pessoas mais pobres da miséria sem esquecer que elas são removidas de suas casas, assassinadas pelas políticas de segurança, sofrem com chuvas torrenciais e secas, são oprimidas em sue ir e vir por políticas de mobilidade que privilegiam os ricos, que cobra pelo ir e vir os transportes públicos. É fundamental que lembremos que a mão que afaga é a mesma que apedreja, e que a mão que retira da miséria  a mesma que some com os Amarildos.

Eleger um menos pior a cada dois anos não soluciona a opressão do estado não nos salva do Leviatã que nos atormenta com a manutenção do status quo.

E é por isso que precisamos denunciar o estado e todos os processos de sua manutenção e de endosso a quem os controle, doa a quem doar seja ele o pir ou o menos pior.

É por isso que precisamos dissecar e denunciar as eleições e dizer coletivamente um rotundo não ao voto como ferramenta de transformação.

É por esse combate que nos colocamos  prova e nos colocamos como ferramenta,para que  nossa liberdade não sirva de lenha para a fornalha de um sistema que enquanto nos esmaga destrói o planeta.

É por isso que gritamos: Anarquia ou Barbárie!

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