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Anarquia ou Barbarie

~ A anarquia é a percepção ecológica da sociedade, é o entender a participação livre de cada membro da coletividade como fundamental para a existência, para o exercício da verdadeira cidadania que é viver na coletividade respeitando a diversidade. Anarquia é coletivamente sermos o poder, é todos nós decidirmos em conjunto, de forma horizontal o que fazermos em nossas vidas e em nossos bairros, cidades….

Anarquia ou Barbarie

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Ilusões revolucionárias

27 sábado fev 2016

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Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional

Embalados pelo sucesso da Revolução Russa, anarquistas tramaram uma insurreição fracassada no Rio de Janeiro, em 1918, mas com efeitos positivos para a classe operária

Por Carlos Augusto Addor

Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1918. No centro da cidade − profundamente modificada na década anterior pela Reforma Pereira Passos −, a população carioca improvisa uma festa na moderna e imponente Avenida Rio Branco. Comemora-se o armistício assinado na véspera em Rothonde, na França, dando fim à Primeira Guerra Mundial, que desde 1914 vitimara milhões de pessoas, inclusive brasileiros. Um outro forte motivo, mais próximo do cotidiano da população do Rio de Janeiro, também contribui para a formação desse clima festivo ou, pelo menos, para um clima de alívio e esperança por dias melhores: o constante declínio das ocorrências da gripe espanhola, terrível epidemia que nos últimos meses, sobretudo no anterior, ceifara milhares de vidas no Brasil e, principalmente, na sua capital federal. Fim da guerra, fim da peste… Novos tempos pareciam se anunciar.

O Brasil de então era ainda um país essencialmente agrário, um imenso “oceano rural” com algumas “ilhas urbanas” − Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife −, com a grande maioria da população vivendo no campo. Em algumas delas, ia se formando aos poucos um proletariado urbano, uma nova classe no cenário histórico brasileiro. Nas fábricas de tecidos, calçados, chapéus, cervejas, e também em outras atividades urbanas – no porto, nos bondes, em bares, hotéis e restaurantes, no comércio – trabalhavam, ombro a ombro, homens, mulheres e crianças, brancos, negros e mulatos, brasileiros e estrangeiros, entre estes, basicamente portugueses, italianos e espanhóis. Enfrentavam duras e extensas jornadas de trabalho (em média 12, no limite 16 horas por dia, seis dias por semana), muitas vezes em locais insalubres, recebendo salários ínfimos – mulheres e crianças com salários ainda menores que os dos homens adultos, agravando o quadro de superexploração.

Notícias sobre a Revolução Russa de outubro de 1917 − a primeira revolução socialista vitoriosa da história da humanidade − correm o mundo com a rapidez permitida pelos meios de comunicação e transporte da época. Os sistemas de radiodifusão e aviação ainda são precários, mas telégrafos, navios e trens já bastante eficientes transmitem as novidades, que são reproduzidas por uma imprensa vigorosa e diversificada. As notícias circulam pelo planeta, atravessam mares e continentes, e as esperanças crescem. Vai se criando um clima de euforia revolucionária. O capitalismo estaria com os dias contados, a humanidade caminhava rumo ao socialismo, o mundo seria livre e justo, as riquezas, abundantes, as pessoas, felizes e plenas.

As notícias sobre os bolcheviques − e, supunha-se, do proletariado − no poder logo chegam ao Brasil e começam a incendiar a imaginação dos militantes anarquistas e socialistas no ainda incipiente, mas combativo, movimento operário e sindical. No Rio de Janeiro, em São Paulo e em Santos, o “porto vermelho”, as folhas operárias, principalmente aquelas ligadas aos anarquistas, publicavam notícias, artigos e editoriais sobre a revolução russa. Exaltavam seu caráter supostamente libertário, que estaria relacionado ao projeto de se construir o socialismo sem abrir mão do valor fundamental da liberdade, inclusive da autonomia individual. Além disso, o ineditismo da Revolução Russa criou enormes expectativas em torno de sua internacionalização, cada vez mais vista como uma necessidade. Nesse primeiro momento – e até o início dos anos 1920 – a Revolução Russa agradava a “gregos e troianos” e contava com o apoio entusiasmado de diferentes correntes ideológicas. A chama revolucionária começava a se alastrar pelo hemisfério sul…

O Estado brasileiro na Primeira República – oligárquico, excludente, manipulando sistematicamente o processo eleitoral em todas as suas etapas, do coronelismo local ao arranjo de poderes no plano federal –, não abria espaço para o êxito da estratégia gradualista dos socialistas, que privilegiava o voto, os partidos, a participação no processo eleitoral e a obtenção de conquistas graduais. Assim, os vários partidos socialistas então fundados têm vida breve, e o socialismo reformista não chega a se constituir numa alternativa política que conquiste apoio significativo dos trabalhadores urbanos.

Ao contrário dos socialistas reformistas, os anarquistas não pretendem delegar poderes nem transferir responsabilidades. A militância é decorrente de uma opção de soberania individual, a luta operária transcende as fronteiras nacionais e “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. Situam a luta exclusivamente nos campos econômico e cultural-ideológico − daí a ênfase na criação de escolas e grupos de teatro, na tentativa de construir uma cultura alternativa à cultura burguesa dominante. E sua proposta é a “ação direta”: greves, comícios, manifestações públicas, boicotes, atos de sabotagem. Acreditam, não sem certa dose de ingenuidade, que uma greve geral revolucionária terá força suficiente para derrubar o capitalismo e que a Revolução Libertária abrirá então caminho – sem ditaduras proletárias transitórias – para a construção da sociedade sem classes e sem Estado. Defendem, numa palavra, a Anarquia, no sentido de “ausência de governo” e não no sentido de “caos e desordem” que a palavra ganharia mais tarde.

Mas o Estado brasileiro, além de excludente e manipulador, possuía duas outras características. Em relação à chamada “questão social”, sua postura era marcada pela não- intervenção sistemática no mercado de trabalho, regulamentando as relações entre capital e trabalho por meio de uma legislação trabalhista – patrões e operários que se entendessem no “livre mercado” para estabelecer as condições de trabalho, salários, jornadas etc. Ótimo para os empresários e péssimo para os trabalhadores. Por outro lado, nos momentos de conflito aberto – principalmente durante as greves –, o Estado não hesitava em usar seu braço policial para reprimir duramente os trabalhadores com cargas de cavalaria, prisões, espancamentos, deportações arbitrárias. Aos olhos dos anarquistas, o Estado brasileiro encarnava com perfeição sua visão teórica do Estado: necessariamente “corrupto e corruptor”. É a partir destas condições que a pregação anarquista pela greve geral e pelo caráter internacionalista da luta por eles proposta acaba se tornando muito mais sedutora e encontrando maior apoio entre os trabalhadores urbanos, parte de uma classe operária também internacional.

É nesse cenário que os trabalhadores urbanos começam a se organizar para lutar coletivamente por melhores condições de vida. Fundam não apenas associações profissionais, sindicatos e jornais operários, mas também − principalmente os anarquistas − grupos de teatro social, escolas “livres, modernas e racionais” e até mesmo uma efêmera Universidade Popular de Ensino Livre no Rio de Janeiro, em 1904. A flâmula de uma associação operária, com uma mão branca e outra negra entrelaçadas, simbolizava o ideal de coesão social, a formação de uma consciência de classe acima das origens e identidades nacionais, étnicas e culturais diversas. A classe operária começa a entrar em cena no Brasil.

Três correntes político-ideológicas procuram organizar os trabalhadores urbanos no Brasil entre 1890 e 1920. Os “amarelos” ou “trabalhistas” − principalmente no Rio de Janeiro, então Distrito Federal − não questionavam o capitalismo, lutando apenas por melhores condições de vida e trabalho para os operários. As duas outras correntes − socialistas reformistas (ou democráticos) e anarquistas (socialistas libertários) − procuram articular a luta imediata por melhores condições de vida a uma crítica filosófica e política ao capitalismo e à tentativa de construção de um projeto alternativo: o socialismo. Anarquistas e comunistas divergem em relação às estratégias de luta, em relação aos meios para chegar ao mesmo fim − construir sociedades sem classes, sem Estado, sem propriedade privada dos meios de produção (terras, máquinas, fábricas etc.), sem exploração ou dominação. Os meios para alcançar esse fim comum, isto é, as estratégias de transformação social, é que eram radicalmente diferentes.  Mas em 1918 as divergências entre eles ainda não estavam na ordem do dia. Essa diferença se explicitaria, se aprofundaria e se agravaria a partir dos anos 1920, e ao longo das décadas seguintes, no mundo inteiro.

Desde 1914, a Primeira Guerra Mundial vinha prejudicando a economia brasileira, aumentando o desemprego, provocando recessão e carestia e agravando a penúria da classe operária. Em julho de 1917 (antes, portanto, da Revolução Russa) eclode em São Paulo aquela que seria a primeira greve geral parcialmente vitoriosa da história do Brasil. Esse movimento será fundamental para a auto-estima da classe operária, na luta pelo reconhecimento da legitimidade de seus sindicatos, ou seja, para sua formação como classe. No mesmo mês, ocorre no Rio de Janeiro uma greve generalizada, também envolvendo dezenas de milhares de trabalhadores. A greve carioca, também decorrente de questões ligadas à carestia, é ao mesmo tempo uma greve em solidariedade aos companheiros paulistas. Ela terá como principais conseqüências a formação de novos sindicatos e o aumento da representatividade dos já existentes. Em janeiro de 1918 é fundada a Aliança Anarquista do Rio de Janeiro e em março, a União Geral dos Trabalhadores (UGT) do Rio de Janeiro, sucessora da FORJ (Federação Operária do Rio de Janeiro), fechada pela polícia em agosto de 1917. Crescem a organização e a mobilização operárias. Em agosto de 1918, com as notícias da Rússia já correndo nos meios sindicais e políticos, eclode a greve dos trabalhadores da Cantareira, a empresa que operava as barcas de transporte de passageiros entre as cidades de Rio de Janeiro e Niterói. Durante a repressão policial, alguns soldados e cabos do Exército tomam o partido dos grevistas, sendo dois deles mortos por tiros da polícia. Este episódio alimenta, entre os anarquistas, expectativas ilusórias de uma aliança política entre conselhos de operários e de soldados, como na Rússia. Além dessas três greves, ao longo do ano inúmeros movimentos grevistas ocorrem na capital federal – greves de tecelões, de sapateiros, de leiteiros, de trapicheiros, de carvoeiros, de metalúrgicos, de trabalhadores da construção civil –, alguns parcialmente vitoriosos. Por vezes circulam boatos de que uma greve geral estaria sendo preparada.

É nesse ambiente que, no Rio de Janeiro, militantes anarquistas – entre eles José Oiticica, Astrojildo Pereira, Agripino Nazaré, Manuel Campos, Ricardo Perpétua, Carlos Dias, Álvaro Palmeira, José Elias da Silva, João da Costa Pimenta – começam a conspirar, reunindo-se geralmente no escritório de Oiticica, na Rua da Alfândega, visando reproduzir na capital federal da República brasileira a recente experiência russa: a Revolução Social pela via insurrecional. Se os bolcheviques tomaram o Palácio de Inverno, por que não poderiam os anarquistas tomar o Palácio do Catete? Num artigo publicado no jornal anarquista Crônica Subversiva em 29 de junho, criticando a Guerra Mundial, Astrojildo Pereira já propunha “subir as escadas do Catete e pegar pela gola o patife que lá estiver a presidir e arremessá-lo das janelas do segundo andar (…)”.

O plano era simples. A insurreição estaria articulada a uma greve operária, principalmente de trabalhadores têxteis e metalúrgicos. Nesse momento, a União dos Operários em Fábricas de Tecidos (UOFT), o sindicato têxtil, era dirigida por anarquistas, entre eles, Manuel Castro e Joaquim Moraes. Militantes conquistariam a adesão dos “irmãos de farda”, dos soldados do Exército. Anarquistas e operários grevistas armados, apoiados por militares, tomariam não só o Palácio do Catete, mas também uma delegacia de polícia (que chega a ser invadida) e a Intendência da Guerra (onde se apossariam dos armamentos), em São Cristóvão. A greve realmente foi deflagrada, envolvendo dezenas de milhares de trabalhadores, na maioria têxteis. Mas,… e a insurreição?

Mal preparado, o levante anarquista acabou por ser traído. O tenente do Exército Jorge Elias Ajus, vizinho do militante Ricardo Perpétua e que fora por este chamado a participar do movimento como encarregado do planejamento militar da insurreição, era informante do chefe de polícia do Distrito Federal. Em seu gabinete, o Dr. Aurelino Leal recebia diariamente notícias dos planos dos anarquistas. Assim, não foi difícil para a polícia, na manhã de 18 de novembro, data marcada para a insurreição, prender seus principais líderes.

O movimento acabou se restringindo basicamente a um conflito no Campo de São Cristóvão entre operários precariamente armados e forças legalistas, que obtiveram rápida vitória. Tiros, bombas de dinamite, operários em fuga desabalada pelas ruas do bairro, delação, prisões − a insurreição foi rapidamente sufocada. A greve operária, com alguma autonomia, continuou por alguns dias, sendo depois também derrotada. O governo aproveitou a ocasião para desencadear violenta e mais sofisticada escalada repressiva, fechando sindicatos e jornais operários, prendendo e deportando líderes anarquistas. A legislação vigente permitia ao Estado deportar estrangeiros ou mesmo brasileiros para fora ou para outras partes do território nacional. Em geral, os estrangeiros eram deportados para seus países de origem. José Oiticica, por exemplo, depois de preso e julgado, foi “deportado” para Alagoas, onde vivia sua família. Os líderes do movimento foram presos e enquadrados por crime de atentado. As autoridades, a maior parte da classe patronal e alguns políticos começam a elaborar um discurso em que tentam “separar o joio do trigo”: O trigo – operários brasileiros, laboriosos, honrados e pacíficos e suas legítimas reivindicações. O joio – anarquistas estrangeiros, subversivos profissionais, baderneiros apátridas, sem Deus, sem honra, sem família.

Contudo, para além dos efeitos imediatos, realmente negativos para os trabalhadores, a Insurreição Anarquista de novembro de 1918 no Rio de Janeiro produziu, a médio prazo, efeitos positivos para a classe e o movimento operários. O movimento substituiu por algum tempo a gripe espanhola como principal notícia na primeira página dos órgãos da grande imprensa carioca. Com isso, e juntamente com as greves anteriormente comentadas de julho de 1917 e agosto de 1918, a Insurreição Anarquista contribuiu para tornar impossível a continuada manobra governista de “tapar o sol com a peneira” ao afirmar que no Brasil não existia a “questão social”, que aqui não havia motivos para greves, que os operários viviam bem e eram felizes etc. Mas as reivindicações e demandas manifestadas pela classe e pelo movimento operário não podiam mais ser ignoradas. Lenta mas irreversivelmente, a classe patronal começa a perceber a necessidade, e mesmo a urgência, de atender às reivindicações operárias. Melhor “entregar os anéis e ficar com os dedos”, pensavam, e isso significava reconhecer a legitimidade dos sindicatos como entidades para encaminhar negociações coletivas. O senador Lauro Muller, em discurso aos seus pares imediatamente após os acontecimentos de 18 de novembro, reconhece que “a função precípua do Senado é legislar, [sendo necessário] entrarmos no trabalho das reformas de caráter social (…) [e que] o trabalho seja regulado por leis que lhe dêem garantias necessárias, garantias à sociedade, garantias aos patrões, garantias aos operários” (124a. Sessão do Senado Federal, em 20 de novembro de 1918). Em 1926 é criada a Comissão de Legislação Social da Câmara dos Deputados, rompendo-se a ortodoxia liberal ainda vigente.

A Insurreição Anarquista de 1918 conta um pouco da história das leis sociais no Brasil, que, longe de poderem ser resumidas a uma concessão magnânima de Getúlio Vargas aos trabalhadores, são, ao contrário, fruto de uma longa e árdua luta operária.

Carlos Augusto Addor é professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e autor de A Insurreição Anarquista no Rio de Janeiro (Achiamé, 2002).

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A greve geral de 1917

11 quarta-feira nov 2015

Posted by litatah in Anarco-Comunismo, Anarcosindicalismo, Anarquia, Greve Geral de 1917, História

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Greve Geral de 1917, História, história da anarquia

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Fonte: Historiando

Por Ligia Lopes Fornazieri

Nas primeiras décadas do século XX, houve um crescimento das cidades brasileiras acompanhado pelo aumento da atividade industrial. Algumas cidades concentravam fábricas e serviços, reunindo centenas de trabalhadores. Como nos centros urbanos havia mais liberdade e uma maior circulação de idéias, a possibilidade de organização e de reivindicação dos trabalhadores crescia em relação àqueles que se concentravam nos meios rurais.

Apesar de ter sido limitado, o movimento dos trabalhadores na Primeira Repúblicateve alguns momentos de grande mobilização e um deles foi a greve geral de 1917, que se tornou um ato simbólico e único nesse período.

Para entender o desenrolar deste episódio, é importante caracterizar a situação da cidade de São Paulo no começo do século.  O impulso na transformação da cidade em grande centro urbano se deu entre 1890 e 1900, sob o influxo da imigração estrangeira e graças, em grande parte, à expansão cafeeira.

Algumas greves foram deflagradas desde o início do século, como a greve dos ferroviários da Companhia Paulista de 1906; a greve ocorrida no Rio de Janeiro em 1907; e em 1912, houve também uma onda de greves na cidade de São Paulo. Todos esses movimentos tiveram em comum um conjunto de reivindicações: estabelecimento da duração da jornada de trabalho em 8 horas diárias, aumento salarial, melhoria nas condições de trabalho, etc. Vale lembrar que até 1930, não havia uma regulamentação sobre as condições de trabalho nas indústrias.

Os protestos realizados pelos trabalhadores em São Paulo e no Rio de Janeiro tinham algumas diferenças, mas compartilhavam características comuns: falta de continuidade dos movimentos e fragilidade de organização. Por conta disso, durante algum tempo, historiadores e sociólogos chegavam mesmo a negar a existência de um movimento operário antes de 1917.

Em São Paulo, o anarco-sindicalismo gozava de um certo prestígio junto à classe operária. O sindicato anarquista representava um esboço da sociedade que pretendia instaurar: sociedade sem Estado, sem desigualdade e organizada em uma federação de trabalhadores. Assim, para os anarquistas, as lutas por reivindicações imediatas eram simples instrumentos da grande ação revolucionária que deveria mudar toda a sociedade. As conquistas dos trabalhadores deveriam ser obtidas sem o auxílio do Estado, qualquer vantagem assegurada em lei seria uma derrota para os trabalhadores.

Nos primeiros meses do ano de 1917 começaram a aumentar as manifestações dos trabalhadores a fim de melhorias na condição do trabalho, especialmente no setor têxtil. Como era nesse setor que se concentravam os maiores capitais, as greves só alcançavam repercussão quando se generalizavam nessa área ou nos serviços dos portos e do transporte ferroviário.

O período entre 1917 e 1921 (quando muitas greves aconteceram no Brasil) foi marcado no mundo todo por crises, por conta do desajuste sócio-econômico causado pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e pelo impacto da Revolução Russa (1917). Por essas razões houve uma onda revolucionária que se estendeu por grande parte da Europa.

É certo que houve um grande aumento do custo de vida no Brasil e, em especial na cidade de São Paulo, o preço dos alimentos e dos serviços básicos cresceu bastante nesse período. Apesar disso, é difícil avaliar qual foi o impacto preciso dessas condições na deflagração das greves que marcaram o período de 1917 a 1921. Ainda que não se duvide da enorme importância da queda do salário real como fator do desencadear da greve de 1917, ele não explica porém, isoladamente, a eclosão do movimento grevista. Entre 1922 e 1925, os trabalhadores também foram atingidos pela inflação, sem que isso significasse um aumento das mobilizações operárias.

Para alguns historiadores, a revolta se iniciou por conta de fatores internos às fábricas. Os trabalhadores, apesar de guiados por um espírito de revolta que tinha como alvos os grandes capitalistas, não pretendiam mudar a sociedade, mas sim melhorar suas condições de vida.

O centro dos atritos foi o Cotonifício Crespi, grande fábrica de fiação e tecelagem de algodão, localizada no bairro da Mooca, contando com mais de 2.000 trabalhadores, sendo a sua grande maioria composta de mulheres. Após algumas resoluções patronais, em junho de 1917, como o prolongamento do trabalho noturno, os trabalhadores passaram a reivindicar melhorias dentro da fábrica. A recusa patronal em negociar causou enorme insatisfação entre os operários, resultando numa greve de mais ou menos 400 trabalhadores, que pediam a abolição das multas, regulamentação do trabalho de menores e mulheres, modificação no regime interno da empresa e abolição da contribuição “pró-pátria” (espécie de imposto cobrado aos trabalhadores italianos a fim de contribuir com seu país de origem durante a guerra).

Alguns dias depois, em outra empresa têxtil, a Estamparia Ipiranga, também foi deflagrada uma greve abrangendo cerca de 1.600 operários e reivindicando praticamente as mesmas exigências dos grevistas das Crespi.

Algumas prisões de grevistas causaram enorme comoção entre os trabalhadores e entre a população e passaram a acontecer passeatas e manifestações pedindo a liberdade dos grevistas presos.

Em 7 de julho, a greve alcançou outra grande empresa fora do setor têxtil: a fábrica de bebidas Antarctica, situada também no bairro da Mooca. Ao mesmo tempo, começaram a acontecer choques entre as forças policiais e os grevistas. Choques que se acirraram quando um grupo de grevistas, no dia 9 de julho, se deslocou para a fábrica têxtil Mariângela, localizada no bairro do Brás. Em frente a essa fábrica iniciou-se um conflito que acabou com um tiroteio do qual saíram feridos dos dois lados, sendo que os operários foram os mais atingidos. Um sapateiro anarquista chamado Antonio Martinez morreu em decorrência desses conflitos.

A morte do sapateiro Antonio Martinez causou grande comoção e seu enterro foi assistido por centenas de grevistas

Nesse momento a greve já atingia 35 empresas contando com cerca de 15.000 trabalhadores parados. Nesse contexto, a morte de Martinez causou uma comoção tão grande que a paralisação de algumas fábricas se tornou uma greve generalizada na cidade de São Paulo. O número de grevistas, entre 12 e 15 de julho (ponto alto da greve) passou de 25.000 para 45.000.

A ação policial também se intensificou e os choques entre a população e a polícia só aumentaram, sendo que o maior centro de manifestações foi o bairro do Braz, onde se concentravam as fábricas e as casas operárias.

Ao mesmo tempo em que acontecia uma extensa mobilização militar, as ações populares pareciam não seguir um rumo determinado. Apesar disso, formou-se umComitê de Defesa Proletária, formado por líderes sindicais e de associações populares, que procurava unificar os trabalhadores em torno de um programa que exigia melhorias de trabalho e de vida. Exigia-se aumento de salário, abolição de trabalho noturno para mulheres e crianças, jornada de 8 horas, respeito ao direito de associação, libertação dos grevistas presos, permanência no emprego dos participantes da greve, medidas para baixar os preços dos gêneros de primeira necessidade, redução dos aluguéis, entre outras reivindicações.

Mas o Comitê encontrou grandes dificuldades de se fazer ouvir. Os trabalhadores se recusavam a tratar diretamente com os patrões ou com o governo. Assim, quem acabou se encarregando de mediar os conflitos foi um Comitê de Jornalistas, formado em 13 de julho. Em 15 de julho, o Comitê operário acabou aceitando a proposta patronal que cobria apenas algumas reivindicações iniciais. Ainda assim, as negociações foram encaminhadas pelos empresários individualmente. Assim, cada empresa definiu os termos de cada acordo.

A volta ao serviço foi gradativa, crescendo a cada dia de acordo com as negociações com cada empresário. Ainda em 22 de julho, há algumas paralisações, mas estas têm rápido encerramento.

Muitos relatos foram escritos dando conta dos acontecimentos desse mês de julho na cidade de São Paulo. A maioria deles afirma um caráter espontâneo na luta dos trabalhadores. Mas as análises posteriores têm procurado encontrar causas para essa grande greve, amenizando a espontaneidade que teria marcado essas mobilizações.

A análise dessa greve ainda é complicada por conta da falta de fontes. Apenas os já citados relatos e os jornais da época constituem documentação para o estudo da greve de 1917. Ainda assim, podem-se perceber indícios de uma tensão que crescia entre a classe trabalhadora desde o início do ano de 1917.

Embora a deflagração da greve tenha sido espontânea, inevitavelmente em seu curso deveria haver um núcleo organizatório, que foi o Comitê de Defesa Proletária. Entre as lideranças anarquistas houve uma certa incapacidade em assumir um verdadeiro papel dirigente e dificuldade em encontrar vias para garantir o cumprimento das pequenas conquistas. Os empresários também se encontravam desorganizados, mas contavam com o Estado oligárquico como um protetor.

Ainda assim, essa greve de 1917 foi um grande marco para a classe trabalhadora na Primeira República. Serviu como um símbolo para as futuras gerações e mostrou, para o governo, a força operária e a necessidade de melhoria nas condições de vida da população pobre.

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